Por José André Alves, João Gabriel Soares da Cunha, Luana Tolentino, Lucinha Alvarez e Marcelli Cardoso

No trabalho coletivo, a educação antirracista transforma a cidade do sertão piauiense.
Maria Ryana da Silva Rodrigues, estudante do 6º ano da Escola Municipal Alexandre Cardoso Homem, com a foto da mãe que foi homenageada.
Foto: Lucinha Alvarez

A fala da liderança quilombola ressoa no território e traça novos rumos para a educação de São Miguel do Tapuio, município com cerca de 17 mil habitantes, no sertão do Piauí. A partir da necessidade de fortalecer a identidade das crianças e jovens nos espaços educativos, promovendo uma educação voltada para as relações étnico-raciais, surge o Projeto Cores da Nossa História, no ano de 2025.
A inclusão de práticas e atitudes antirracistas no cotidiano escolar objetiva o enfrentamento e a superação de práticas discriminatórias, bem como o protagonismo das(os) estudantes no processo de ensino-aprendizagem. Na verdade, os primeiros passos foram dados em 2024, quando foi instituída a Política Municipal de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PMEERQ).
“Um dia, quando eu não existir, a minha história vai existir e os que ficarem, eu quero que nunca deixem essa história se perder, pois a nossa história é de luta e superação. (…) O povo preto é um povo forte mesmo, guerreiro, lutador, que enverga mas não quebra, não.”
Felina Vieira de Almeida, liderança quilombola do Quilombo dos Macacos

Desde 2003, as Leis nº 10.639 (Brasil, 2003) e nº 11.645 (Brasil, 2008) determinam a inclusão da História e Cultura Africana, Afro-brasileira e Indígena no currículo escolar. Contudo, na prática, havia o entendimento de que as prerrogativas destas legislações ainda precisavam ser fortalecidas nas escolas. Muitas vezes, as discussões sobre essas temáticas aconteciam apenas em datas comemorativas, como em 20 de Novembro – Dia da Consciência Negra.
Assim sendo, partiu-se do pressuposto de que era necessário tornar o legado, as contribuições da comunidade negra e indígena na formação do país, parte do cotidiano escolar, de forma contínua e significativa. Ao falar do Projeto, José André Alves, coordenador da área de Ciências Humanas e das ações do Cores da Nossa História, lembra: “Um dos pontos em que mais percebíamos dificuldades entre os estudantes estava relacionado ao autorreconhecimento, especialmente no que diz respeito à pertença racial, o que era mais evidente entre os estudantes negros e quilombolas.”
“O Projeto surgiu também diante da necessidade de apresentar uma Educação Integral voltada para o combate às práticas racistas nas unidades escolares e Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs). Surgiu também para que a comunidade escolar reconhecesse que no município há uma comunidade quilombola – o Quilombo dos Macacos, com uma riqueza cultural e histórica extraordinária.”
Marcelli Cardoso, Secretária de Educação de São Miguel do Tapuio

O Quilombo dos Macacos, situado no município de São Miguel do Tapuio, foi reconhecido como território quilombola em 2005, depois muita luta e resistência, como explica Felina Felix, liderança no território:
“A nossa história tem muitos momentos tristes, mas também de superação. E, hoje, é motivo pra gente comemorar, porque a luta é muito grande, mas maior ainda é a força de vontade de vencer, de quebrar barreiras e de ser contribuinte da nossa história, poder contar nossa história, a nossa resistência de luta e superação. (…). O que mais dá origem a essa comunidade aqui é o cemitério de 250 anos, onde foram enterrados nossos antepassados, e o pé de manga, de 150 anos, plantado pelos nossos antepassados. Foi com isso que a gente provou, por meio do trabalho de antropologia, contando as nossas histórias, mostrando as nossas furnas, as cavernas, o esconderijo dos antepassados, e foi certificado pela Fundação Cultural Palmares como uma comunidade quilombola.”
Maria Francisca Vieira, conhecida como Maria Felix, irmã de Felina e também liderança quilombola, reforça a importância do território para a construção da identidade dos povos que vivem em quilombos:

“Gostaria que a comunidade aparecesse como um dos pilares que é a sustentação do nosso povo, a educação. É claro que antes da educação vem a questão da resistência e da luta pelo território, porque sem o território não há povo e se há um povo sem território, infelizmente, a história será mais triste, porque quem não tem um território, com certeza é um povo que anda aleatório. E o nosso território traz pra nós essa sustentabilidade (…).”
É importante destacar que as leis citadas trazem um chamado incisivo: é imprescindível que a escola eduque para o reconhecimento e a valorização de negras(os) e de povos originários, por muito tempo silenciados e/ou negligenciados nas salas de aulas. No entanto, isso só seria possível se as(os) educadoras(es) se sentissem apoiadas(os) e engajadas(os) para trabalhar o tema em seus componentes curriculares, relacionando-os com os saberes, com as vivências de quatro mil estudantes da Rede Municipal de Ensino.
Assim, o Projeto foi pensado e construído de forma participativa. Por meio de visitas às unidades escolares e diálogos com a comunidade escolar, foram analisadas as ações que realmente poderiam ser eficazes na promoção de uma educação antirracista e integral. O planejamento foi estruturado de maneira interdisciplinar, envolvendo todos os componentes curriculares e distribuindo as atividades ao longo dos quatro bimestres do ano letivo.
Foi nessa caminhada de reflexões, de ações, de sensibilização e formação das(os) profissionais da Educação que emergiu o Cores da Nossa História, guiado pelo desejo de transformar aquilo que está nas leis em ações concretas, capazes de tocar o coração das(os) estudantes e dar sentido ao que aprendem na escola. E é justamente nesse movimento que está a força do “Cores”: na vivência real dentro das salas de aula, respeitando e celebrando a diversidade presente em cada escola da Rede Municipal de Ensino.

“O mais importante na construção de cada normativa da Secretaria Municipal de Educação (SME) é o trabalho colaborativo entre as equipes, o que tornou o ´Cores da Nossa História´ tão relevante no âmbito municipal. Isso é notório também nas escolas, pois percebemos o engajamento de todos na execução das atividades.”
Marcelli Cardoso, Secretária de Educação de São Miguel do Tapuio

Estudantes da Escola Quilombola José Félix de Almeida mostram seus livros favoritos.
Foto: Luana Tolentino
Para a implementação e efetivação da educação antirracista na cidade, diversos investimentos têm sido realizados, como a aquisição de materiais pedagógicos, entre os quais livros literários e paradidáticos com temáticas afro-brasileiras, indígenas e quilombolas, além de recursos didáticos voltados à valorização da diversidade cultural. Esses materiais foram distribuídos às escolas e CMEIs da Rede Municipal, contribuindo diretamente para o desenvolvimento das práticas pedagógicas e o enriquecimento dos espaços de leitura e pesquisa.
A Secretaria Municipal de Educação também destinou recursos para apoio logístico, materiais de artes, instrumentos musicais e figurinos culturais, garantindo que as escolas tivessem condições concretas de implementar as atividades propostas pelo Projeto.

De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais (DCNERER), na implementação de uma educação comprometida com a celebração da diversidade que marca o Brasil, as instituições de ensino deverão trabalhar na “divulgação e produção de conhecimentos, formação de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos orgulhosos de seu pertencimento étnico-racial (…), em que todos, igualmente, tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada.” (Brasil, 2004, p. 10)
A ORGANIZAÇÃO DAS ATIVIDADES NAS ESCOLAS
As ações realizadas nas escolas municipais de São Miguel do Tapuio, alicerçadas nos princípios das DCNERER, transformaram as escolas e a trajetória de crianças, jovens e adultos. No ano de 2025, elas foram estruturadas por bimestres.
1º bimestre – ocorreram momentos de sensibilização e formação, com oficinas sobre letramento racial, práticas antirracistas e estudos sobre a importância da representatividade nas escolas.
2º bimestre – foi dedicado à identidade e pertencimento, com rodas de conversa, leituras e exposições baseadas nos novos acervos literários adquiridos pela SME. Foi um período em que estudantes e professoras(es) puderam mergulhar nas histórias de personalidades negras e indígenas, refletindo sobre a valorização das raízes culturais.
3º bimestre – as escolas desenvolveram projetos de pesquisa e produção artística, integrando atividades de capoeira, música, pintura, teatro e escrita criativa.
4º bimestre – período de culminância de todas as ações na celebração da Consciência Negra, momento de grande envolvimento da comunidade, com apresentações culturais, exposições e partilhas de saberes quilombolas.

Feira Cultural Afro-Brasileira exposta em uma sala de aula.
Foto: Lucinha Alvarez
ESCOLA BOA É ESCOLA SEM RACISMO:
VIVÊNCIAS DO CORES DA NOSSA HISTÓRIA
Em 2025, o trabalho foi realizado em rede, construído coletivamente, de maneira engajada, com a finalidade de “fomentar políticas e estratégias pedagógicas de valorização da diversidade, a fim de superar a desigualdade étnico-racial presente na educação escolar brasileira”, conforme determina as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais (Brasil, 2004, p. 12).
Partindo da compreensão de que o currículo escolar oficial, estruturado sobretudo a partir de conhecimentos oriundos do continente europeu, muitas vezes silencia e apaga os saberes produzidos pelos povos negros e indígenas, uma das atividades do Cores da Nossa História consiste, justamente, em levar para sala de aula mulheres e homens negras(os) de relevância para o país e para a região.
Por isso, quem entrar na Escola Municipal Alexandre Cardoso Homem vai se deparar com fotos de Macaé Evaristo (educadora e atual ministra do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania); Antonieta de Barros (educadora e primeira deputada negra do Brasil); Rebeca Andrade (ginasta); Nêgo Bispo (filósofo quilombola); e Lázaro Ramos (ator).
Já nas paredes da Unidade Escolar Jean Leite Cavalcante, é possível encontrar imagens de Nelson Mandela (político e pacifista); Conceição Evaristo (escritora); Taís Araújo (atriz); e Zumbi dos Palmares (um dos maiores símbolos da luta negra). A elas(es), no mesmo lugar de importância e reconhecimento, juntam-se benzedeiras, pequenas(os) produtoras(es) rurais e professoras(es) da comunidade, provocando nas(os) estudantes um sentimento de orgulho e pertencimento.
Isso permite, por exemplo, que Maria Ryana da Silva Rodrigues, estudante do 6º ano, fale com muito orgulho de Maria Eduarda da Silva Pereira, sua mãe, que também está entre as personalidades destacadas no mural da escola, evidenciando que o Cores da Nossa História tem em seu cerne o que o educador Paulo Freire (1981) chamou de “educação como prática da liberdade.”
Assim, enquanto prática educativa antirracista, essa exaltação de personalidades importantes para a história do Brasil, sejam elas intelectuais, artistas, líderanças políticas e/ou pessoas da comunidade, permitem às crianças e às(aos) adolescentes terem referências para se inspirarem e construírem suas próprias histórias, desconstruindo estereótipos racistas produzidos e reproduzidos pela sociedade. Esse movimento, inclusive, tem sido importante para o fortalecimento da autoestima de crianças negras, bem como para a desconstrução de preconceitos e apelidos motivados pela cor da pele.

“Antes do Projeto, as crianças não tinham esse senso da nossa herança africana, da Cultura Afro-Brasileira. Não sabiam que São Miguel do Tapuio tem um rico acervo dessa cultura. (…) Hoje, quando eu entro em uma escola, vejo as crianças se autorreconhecendo, tendo essa liberdade de nomear a própria pele. Eu acho isso muito impactante, positivo, pois na minha época, há 10, 15 anos, tínhamos receio e dificuldade de aceitar a tonalidade da nossa pele, o nosso cabelo. E, hoje, vejo as crianças falando com orgulho.”
José André Alves, coordenador do Núcleo de Ciências Humanas e do Projeto
Os(as) estudantes também percebem os impactos do Projeto no dia a dia, tanto para suas turmas, como para a própria percepção de si mesma(o), da sociedade brasileira e do mundo a sua volta.
A Cultura Afro-Brasileira também é tema de atividades artísticas e culturais. Essa diversidade é trabalhada de diversas maneiras por meio de autorretratos, da culinária, da construção de máscaras e brinquedos, das brincadeiras, músicas, danças e instrumentos afro-brasileiros. A capoeira também é uma das atividades que as crianças mais gostam de realizar.
A experiência de São Miguel do Tapuio ensina que a educação antirracista fomenta relações orientadas pelo respeito e pelo reconhecimento mútuo. Ensina que um currículo, alicerçado na equidade de saberes e na inclusão, motiva estudantes e professoras(es) e que a Educação Integral em Tempo Integral é também festa, dança e movimento. Prova disso é que nas escolas municipais há sempre encontros com a comunidade, com apresentações culturais, em que privilegia-se a música, as tradições afro-brasileiras, tanto do Nordeste, quanto de outras partes do país, em movimento que envolve corpo, mente, alma e muitas descobertas.
“Foi muito especial, para mim, conhecer a história de personalidades que marcaram o meu país, o meu município. Foi uma descoberta que me marcou. Eu me sinto privilegiado. São personalidades que não estão nos livros didáticos. Além disso, eu gostaria de dizer que lembrar do Brasil, é lembrar dos indígenas e dos povos africanos, porque se existe o Brasil hoje, foi com as mãos, com o sangue e com o suor dessas pessoas que ele foi construído.”
Rikelme Pereira de Sousa, estudante do 9º ano da Unidade Escolar Raimundo Marcelino de Sousa


Crianças jogando capoeira em apresentação na Unidade Escolar Jean Leite Cavalcante.
Foto: João Gabriel Soares da Cunha
Assim acontece na Unidade Escolar Jean Leite Cavalcante, situada na zona rural de São Miguel, local em que a energia ancestral da capoeira está presente. A atividade, ministrada pelo mestre Humberto Anum do Silva, envolve, encanta e empodera as crianças. Ao som do berimbau, cada passo, cada golpe é visto e sentido como um presente, como um troféu, como uma oportunidade única de mergulhar no legado deixado pelos povos africanos que chegaram no Brasil, a partir do século XVI.
Marcelli Cardoso, Secretária de Educação, fala do projeto de ampliar o ensino de capoeira para todas as escolas do município, pois é uma ação que deve servir de inspiração. Segundo a gestora, a reforma e a ampliação das instituições de ensino municipais tiveram início, justamente, nas mais distantes do Centro, pois são as áreas de maior vulnerabilidade social, nas quais a população encontra mais dificuldades de acessar os serviços públicos. Ao pensar nas escolas, as especificidades de cada pessoa merecem sua atenção.
A FORÇA DO QUILOMBO DOS MACACOS NA CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
Luta e resistência são as palavras que definem o Quilombo dos Macacos. Em relação à educação, as conquistas vieram depois de muita luta e de enfrentamento de muitas situações de discriminação, como a que Francisca Rejane, a atual gestora da Unidade Educacional Quilombola José Félix de Almeida, viveu nesta escola, anos atrás:
“Mesmo sendo meu lugar, eu me vi obrigada a tirar minha filha da escola por conta de uma professora. Ela fez uma pergunta pros alunos sobre o que queriam ser quando crescessem e minha filha disse que queria ser médica. Então, a professora falou pra ela: ´Neguinha, pois você vai ter muito que estudar.´ Eu também já passei por isso, não gosto nem de me lembrar, dói fundo.”
Para romper com esta situação e garantir o direito das crianças de aprender a respeito de suas(eus) antepassadas(os), a comunidade quilombola se organizou e reivindicou junto à Secretaria Municipal de Educação que a gestão, o corpo docente e as(os) demais profissionais da escola fossem quilombolas.
“A gente não pode permitir uma comunidade quilombola não ter escola porque os nossos antepassados não tiveram. Mas, hoje, precisamos da escola e ela tem que estar não só dentro da comunidade, mas a comunidade tem que estar dentro da escola; é fundamental, importantíssimo, a comunidade dentro da escola porque como nós vamos tratar de educação quilombola se a comunidade não tiver acesso à escola, se a comunidade não tiver presente na escola?”
Maria Félix, liderança quilombola
A reivindicação, atendida pela Secretaria, foi motivo de celebração.
“Que felicidade esse quilombo ter escola. Antes não tinha.”
Manoel Pereira de Almeida, conhecido como Senhor Manoel Félix


Senhor Manoel Félix, principal liderança do Quilombo dos Macacos.
Foto: Lucinha Alvarez
O reconhecimento dos saberes quilombolas, de sua história e de suas culturas é a principal reivindicação da comunidade na qual a Unidade Educacional Quilombola José Félix de Almeida – inaugurada em 2024 – está situada, como afirma o senhor Manoel Félix, um verdadeiro “cacique” do Quilombo dos Macacos, como ele gosta de dizer.

“E essa luta, ela trouxe pra nós não só a garantia do quadro de profissionais da educação ser todo da comunidade, mas trouxe também a ampliação de uma escola melhor, porque nós temos a consciência de que o nosso filho, a nossa comunidade quilombola era merecedora de uma escola melhor. Isso fez com que, hoje, ela fosse ampliada e tivesse salas climatizadas.”
Maria Félix, liderança quilombola
O Senhor Manoel Félix é um dos nomes de destaque do livro “São Miguel do Tapuio: conhecendo o meu município”, obra produzida pela Secretaria Municipal de Educação e que chegou às mãos de cerca de 5 mil crianças e adolescentes. Ele também foi reconhecido como patrimônio vivo da cultura do Piauí.
Do alto de seus 80 anos, ele conta que a escola foi erguida com muita luta. Antes, disse que teve o direito à educação negado, mas fala com orgulho sobre a educação da vida:
“Juntando tudo, frequentei a escola por menos de seis meses. O meu pai foi o meu maior professor, os meus avós, os meus antepassados. A escola da vida me ensinou. Eu estou aprendendo ainda. E quero aprender ainda mais. Eu aprendi com a escola da vida.(…) O conhecimento, a vivência, a sabedoria, a ciência, muitas e muitos tipos de cultura, onde este quilombo é rico, porque nossos antepassados deixaram pra nós: a reza, a novena, o terço, a penitência, a sabedoria, o dom, o tino, o sonho e as rezas dos benditos e os cânticos que contam nossa história, porque tem um cântico que diz: o povo canta e conta nossa história. E tudo isso faz parte, todo tipo de cultura faz parte da educação.”
“A nossa luta começou com meu tio Manoel Félix, que foi um dos primeiros a acreditar que a comunidade tinha direito a esse território. Ele abriu caminho para que, hoje, pudéssemos continuar lutando e garantindo que nossos direitos sejam respeitados. Falar da nossa comunidade é falar de luta, de união e de raízes profundas que nos sustentam até hoje. A nossa cultura traz um pedaço dos nossos antepassados, que contribuíram com fé e esperança para que as pessoas reconheçam e respeitem a história da comunidade.”
Yasmim de Almeida Gonçalves, professora da escola


Estudantes dançando Samba de Cacete durante apresentação na Unidade Escolar Jean Leite Cavalcante.
Foto: Marcelli Gomes Cardoso
Profundo conhecedor dos seus direitos, o senhor Manoel Félix é taxativo ao afirmar que “é preciso que o município, todos os professores, educadores, diretores, todos eles, tomem conhecimento que não podem esconder, nem enterrar as nossas origens, não podem enterrar nossa ancestralidade”. As Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Escolar Quilombola fazem coro ao que foi dito pelo Sr. Manoel, nos seguintes termos: “(Os estabelecimentos de ensino) devem garantir aos estudantes o direito de se apropriar dos conhecimentos tradicionais e das suas formas de produção de modo a contribuir para o seu reconhecimento, valorização e continuidade.” (Brasil, 2012, p. 14)
Atualmente, a Unidade Educacional Quilombola José Félix de Almeida atende crianças de dois a dez anos de idade, da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA), com faixa etária de 50 a 76.

Bicicletas de estudantes estacionadas em frente à Escola Quilombola José Félix de Almeida.
Foto: Lucinha Alvarez
“O meu sonho é que dessa escola saia gente capacitada, preparada para contar a nossa história, dentro da universidade, se formando. Por que, dentro de um quilombo, não pode ter um doutor pra defender também nossas causas, nossos direitos, ajudar a gente a fazer essa luta?! Não pode esconder educação quilombola em nenhum município hoje, não pode.”
Senhor Manoel Félix, liderança quilombola

APRENDIZAGENS CONSTRUÍDAS
Os dados, as vivências e os depoimentos de quem participa deste Projeto apontam para a importância do Cores da Nossa História na trajetória e na formação das(os) estudantes, assim como da comunidade escolar. Em seu primeiro ano, o Projeto deixa mostras de que está alicerçado no compromisso com a promoção de uma educação significativa, antirracista, inclusiva e conectada com a realidade local, com a alma e com os sentimentos de cada estudante do municipio piauiense.
Os avanços, as transformações impulsionadas pelo “Cores” estão no dia a dia, no chão da escola, como também em premiações importantes, que revelam o reconhecimento não só da comunidade escolar, como também do poder público. Em 2025, a Secretaria Municipal de Educação do Tapuio foi contemplada com o Selo Petronilha Beatriz, honraria que valoriza e apoia Redes Públicas de Ensino que implementam políticas e práticas de Educação Étnico-Racial, especialmente voltadas à Cultura Afro-Brasileira, Africana, Indígena e Quilombola.
A esse respeito, aponta José André Alves: “Esse reconhecimento fortalece as nossas práticas educativas e impulsiona o trabalho de forma efetiva, fortalece e incentiva a promoção de uma educação para as relações étnico-raciais.”
Se muitos passos já foram dados, muitos ainda estão por vir. O senhor Manoel sabe bem disso, e segue, com bastante clareza do que não é mais possível aceitar:
“Combater e acabar com o racismo estrutural e outros tipos de discriminação, acho impossível. Mas, tenho certeza de uma coisa: nós precisa lutar, resistir pra quebrar exatamente muitos preconceitos, muitos tipos de discriminação e de sujeição. Correntes? Nunca mais! Não aceitamos mais. Não vamos dizer ´amém´ para a discriminação, para o racismo estrutural.”
Senhor Manoel Félix, liderança quilombola

Exposição do projeto na Unidade Escolar Alexandre Cardoso Homem.
Foto: João Gabriel Soares da Cunha

REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a LDB para incluir no currículo oficial a temática História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília: Presidência da República, [2003].
BRASIL. Parecer CNE/CP n.º 3, de 10 março de 2004. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília: Conselho Nacional de Educação/Ministério da Educação, [2004].
BRASIL. Lei n.º 11.645, de 10 março de 2008. Altera a LDB para incluir a obrigatoriedade do estudo da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Brasília: Presidência da República, [2008].
BRASIL. Resolução nº 8, de 20 de novembro de 2012. Define Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica. Brasília: Ministério da Educação / Conselho Nacional de Educação / Câmara de Educação Básica, [2012]. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=11963-rceb008-12 pdf&category_slug=novembro-2012-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 12/02/2026.
FREIRE, Paulo: Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO MIGUEL DO TAPUIO:
Instagram: @smesmt.pi
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