Por Juvencio Cardoso (Dzoodzo Baniwa), Levindo Diniz, Lucinha Alvarez, Maicon Samoni e Saniwê Pataxoop

Um reencontro da escola com a comunidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), do currículo com o território e do tempo cronométrico com o tempo da floresta.
Crianças Baniwa apresentam seus desenhos.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto
Experiências Inspiradoras
A implantação da Educação em Tempo Integral na Escola Baniwa Eeno Hiepole, localizada no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), não foi simplesmente a extensão de um turno escolar. Foi, antes de tudo, um ato de escuta profunda e um reencontro. Um reencontro da escola com a comunidade, do currículo com o território, e do tempo cronométrico com o tempo da floresta. Esta experiência se tornou a expressão viva de que a verdadeira Educação Integral só se concretiza quando é, intrinsecamente, intercultural. Na comunidade Canadá, onde o rio Ayari serpenteia entre florestas e saberes ancestrais, a escola aprendeu a respirar com as pessoas, a escutar os cantos dos mais velhos e a honrar o ritmo das águas, que ditam o pulsar da vida.
Quando a escola optou pelo tempo integral, não estava apenas estendendo horas. Estava plantando uma semente de transformação profunda na relação entre escola, comunidade, infância e juventude Baniwa. As matrículas de tempo integral não representam apenas números. Representam crianças que não precisam mais correr para a canoa ao meio-dia; avós (avôs) que chegam à escola para ensinar a tecer arumã; e jovens que descobrem na Matemática os padrões dos grafismos indígenas. O tempo integral se tornou o espaço no qual a educação formal e os saberes tradicionais se encontram, sem pressa, em diálogo permanente.
A caminhada começou não com decretos, mas com a conversa circular sob a casa comunitária. Não era sobre impor um modelo, mas sobre perguntar: “Como a escola pode servir melhor à nossa vida?” As vozes das(os) mais velhas(os), das(os) pajés, das(os) caçadoras(es) e das(os) artesãs(os) teceram os alicerces da nova proposta. Elas(es) lembraram que, para o povo Baniwa, aprender não é um segmento da vida confinado a quatro paredes; é um processo contínuo, entrelaçado com o pescar, o plantar, o cantar e o contar histórias.
Assim, a jornada de sete horas diárias das(os) estudantes tornou-se um rio com dois afluentes que se encontram: o conhecimento acadêmico e os saberes ancestrais Baniwa. A parte diversificada do currículo deixou de ser um apêndice para se tornar o coração pulsante da escola.
A Língua Baniwa, mais do que uma disciplina, é o veículo da espiritualidade e da memória. Os Jogos Tradicionais não são apenas recreação e sim aulas de Física, estratégia e resistência. O estudo do lugar não é um tema geográfico apenas, mas uma imersão na relação sagrada com o rio Ayari, com as cachoeiras e com a mata, que ensina sobre botânica e ética ambiental de uma forma que nenhum livro didático é capaz. A implantação do tempo integral na Escola Baniwa Eeno Hiepole revela que educar integralmente só é possível quando a escola tem a coragem de se abrir e se deixar transformar pela cultura na qual está inserida.

Vista aérea da Aldeia Canadá.
Foto: Felipe Abreu de Alcântara / Instituto Socioambiental
HISTÓRIA DA ESCOLA
A Escola Baniwa Eeno Hiepole foi fundada em 1984, resultado de uma mobilização comunitária, que uniu lideranças tradicionais, professoras(es), famílias e organizações parceiras. Estes primeiros dez anos estabeleceram as bases para uma educação escolar que valorizasse a cultura Baniwa e promovesse o desenvolvimento sustentável das comunidades do rio Ayari-Içana, no coração da Amazônia. Na segunda década de existência, a escola fortaleceu sua estrutura organizacional e ampliou seu alcance educacional.
O nome “Eeno Hiepole”, que significa “umbigo do mundo” em língua Baniwa, consolidou-se como referência de uma proposta pedagógica que integra saberes tradicionais com conhecimentos formais, configurando a escola como espaço de fortalecimento cultural e transmissão intergeracional. Os anos 2000 marcaram um significativo avanço estrutural e pedagógico. A escola transformou-se em instituição de tempo integral, ampliando seu atendimento desde a Educação Infantil até os anos finais do Ensino Fundamental II.
Ao longo dessas quatro décadas, a escola manteve conexão orgânica com o território por meio de projetos comunitários, de monitoramento ambiental e atividades culturais. A criação do Centro de Pesquisa e Formação Indígena Enopana e as parcerias com várias instituições consolidaram seu papel como referência em Educação Indígena. Esta trajetória testemunha o potencial transformador da educação quando ancorada no respeito à cultura local e no compromisso com a qualidade pedagógica.

PROJETOS INTEGRADORES:
CONEXÃO ENTRE A CIÊNCIA OCIDENTAL E OS SABERES INDÍGENAS
Foi, então, construída a Trilha de Ciência e Saberes Baniwa na Floresta Viva, visando a transformar a floresta nativa da comunidade Canadá em um espaço educativo, cultural e científico. A Trilha de Ciência, para o Povo Baniwa, representa um caminho de aprendizagem intergeracional como fonte de vivência e descoberta de ferramentas para a autossustentabilidade da vida na floresta das novas gerações, como explica Eliseu Antonio, gestor da escola:

Com a implementação da Educação Integral em Tempo Integral na escola, projetos integradores foram construídos, buscando articular o conhecimento científico ao conhecimento indígena, num diálogo entre ciência ocidental e saberes indígenas. Como destaca Dzoodzo Baniwa, educador da escola e liderança Baniwa:
“O conhecimento científico e o conhecimento indígena precisam encontrar um lugar comum para construir um saber integral, sistêmico e intercultural. Esta convergência não implica subordinação de uma forma de conhecimento à outra, mas sim o reconhecimento de suas complementaridades. Somente assim abriremos um caminho para soluções criativas, inovadoras e culturalmente apropriadas.”
Estes projetos se concretizaram nas Trilhas de Conhecimento, uma maneira de ver, no território, a base para o saber e, no movimento da vida, uma escola integrada ao território.
A Trilha integra práticas pedagógicas com saberes ancestrais, promovendo a valorização do território e o despertar científico das(os) estudantes da escola. A trilha pode ser percorrida a pé, por estudantes de todas as idades, com estações fixas de parada. As visitas são conduzidas por professoras(es), estudantes, monitoras(es) e anciãs(os) conhecedoras(es) da floresta, numa abordagem metodológica fundamentada na vivência, na escuta e na experimentação ativa. É Isaías Jairo da Silva, gerente da Unidade Escolar do rio Ayari, que explica o sentido dessa metodologia:
“Estamos ensinando aos jovens como respeitar o território, a natureza, para continuar tendo todas as coisas que nós temos. Porque se começarmos a trabalhar de forma desequilibrada, é capaz da gente também perder o nosso território, né? Então, é importante ter esse equilíbrio do território. Por isso que a gente tem esse lema de trabalhar pelos mais jovens.”
“Nossos filhos não podem permanecer só na escola de quatro paredes, os conhecimentos grandes são aprendidos na prática, então, precisamos trazer nossos conhecimentos para o espaço de educação escolar. Na nossa geração, a gente aprendia na prática, na oralidade. As crianças não estão praticando isso, essa é a nossa preocupação (…): levar esses conhecimentos para a escola. Lá, eles vão aprender a partir da técnica de pesca, técnica de caça, da produção de artesanato. Essas coisas, nós temos que levar para a escola. Nós já vimos outras crianças perdendo essa parte, os que vão para cidade, por exemplo. Vai facilitar muito agora com os Projetos Integradores. Eu acho isso importante. Meu filho vai conhecer as trilhas e vai ser caçador também. Eu falei para meu filho: ´Se eu sou caçador, você tem que ser caçador.”


Espaços educativos da aldeia.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Durante a trilha, são promovidas Estações Educativas. Cada uma representa um Projeto Integrador, voltado para a vida da comunidade e a preservação da cultura e território Baniwa. São elas:
Estação da Horta Escolar
A horta é um espaço dedicado ao cultivo de plantas alimentícias e medicinais tradicionais, como alface, cará, batata, pimenta e cheiro-verde. A horta é uma maneira de manter a base alimentar das(os) estudantes na escola, pois a merenda demora muito tempo para chegar no território. No local, são desenvolvidas várias atividades, como observação dos canteiros e identificação das espécies, comparação entre técnicas tradicionais e científicas de cultivo, registro em diário bilíngue, com as ilustrações das plantas e as observações feitas. Assim, no manejo da horta, além de existir o aprendizado com a terra, as(os) estudantes também desenvolvem conhecimentos acadêmicos para fazer o canteiro, aprender os tempos de plantar e de colher, conhecer as formas de regar etc.
Estação da Criação e Manejo de Galinha Caipira
O Projeto Kalakapana (Casa de Criação e Manejo Produtivo de Galinha Caipira) procura garantir uma alimentação saudável para as famílias e a escola, reduzindo a dependência da caça e da pesca em áreas de difícil acesso, fortalecendo os saberes tradicionais e a arquitetura local, além de formar as(os) estudantes em técnicas de avicultura sustentável.
Também pode ser uma fonte de geração de renda para a escola e para a comunidade Baniwa. Com a Casa de Criação e Manejo Produtivo de Galinha Caipira, as(os) estudantes podem investigar e desenvolver modelos de avicultura sustentável, baseados em conhecimentos indígenas, promovendo a conscientização sobre práticas agroecológicas e a valorização da cultura tradicional.

Trilha de Ciência e Saberes Baniwa na Floresta Viva.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Estação Sistema de Abastecimento de Água
A questão da água na aldeia ainda é um problema. As mulheres têm que ir no igarapé para lavar vasilhas e roupas. Assim, um dos Projetos Integradores na trilha da Ciência foi a Estação de Água, no qual um poço foi ativado para captar água e um sistema de bombeamento foi criado para levar a água até a escola e, futuramente, chegar até as casas da aldeia. Neste projeto, as(os) estudantes vão aprendendo sobre captação, armazenamento e distribuição de água; vão também se conscientizando sobre o uso sustentável da água e o seu acesso comunitário.
Estação Roça de Abacaxi
O abacaxi sempre foi símbolo de resistência agrícola para a agricultura familiar e comunidades rurais em regiões de clima desafiador. Por isso, foi criada uma área de plantio tradicional da fruta, com o objetivo de abastecer a aldeia, a comunidade e mostrar o valor cultural e econômico da agricultura tradicional. Na roça, estudantes fazem o registro dos estágios de crescimento do abacaxi, medindo as plantas com régua e construindo gráficos para observar a evolução da fruta.

Estação de criação de galinhas caipira.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Estação de Piscicultura
Ao final da Trilha do Conhecimento, encontra-se a Estação da Piscicultura, um tanque para a criação de peixe, um manejo que vem para oferecer alimento para o povo e para a escola. Em tanques adaptados para a criação de peixes, como alevinos e outros, as(os) estudantes aprendem sobre o manejo sustentável de peixes e a importância da proteína animal na alimentação. Elas(es) alimentam os peixes e observam seu comportamento, conversando sobre equilíbrio ecológico e cadeia alimentar.
Além da Trilha de Ciência e Saberes Baniwa na Floresta Viva, ainda há dois Projetos Integradores, voltados para a Arte e a Cultura Baniwa. São eles:

Projeto Arte Indígena e suas Tecnologias
O povo Baniwa é reconhecido, nacional e internacionalmente, pela qualidade e beleza de sua cestaria. Com desenhos e grafismos tradicionais, as cestas, com seus traçados geométricos, revelam uma longa tradição passada de geração em geração. O Projeto de Cestaria Baniwa pretende dar continuidade a esta tradição, possibilitando que crianças e jovens aprendam as técnicas tradicionais, desde a coleta e a preparação do arumã (principal matéria-prima), passando pela raspagem para a remoção da sua casca externa e o preparo das talas para o uso, chegando à criação de diferentes formatos de cestos, peneiras e outros artefatos, explorando a diversidade da cestaria Baniwa.
Projeto Som da Escola Baniwa Eeno Hiepole
A música faz parte da Cultura Baniwa e é expressão da sua dimensão identitária na vida social, cultural e individual. Os instrumentos musicais acompanharam gerações e trouxeram alegria ao cotidiano da comunidade. A partir desse envolvimento, o Projeto busca desenvolver, junto às(aos) estudantes: o gosto, a compreensão e a importância da música e dos instrumentos musicais indígenas Baniwa; a prática de criação e produção de instrumentos musicais ancestrais da região; e a composição de letras ritmadas na língua materna e no Português. Estabelecendo conexões entre os conteúdos teóricos ancestrais e a música contemporânea, o Projeto permite uma aprendizagem significativa, participativa e contextualizada, inclusive com sons, ritmos e letras que contam a beleza e a riqueza da escola e da comunidade, além da aprendizagem sobre a produção de instrumentos musicais da região.

Artesanato Baniwa apresentado pelo professor Silverio Lopes Rodrigues.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
O professor de música da escola, Marcelo Baniwa, ressalta como é importante trazer o conhecimento do seu povo para as aulas de música:
“Escutar os galhos, os barulhos que fazem, a gente não precisa de material nenhum, é só pegar da natureza uma folha, um galho, e começar: como é o canto de um pássaro, se fez piu, é só uma batida; se fez piu, piu, são duas batidas; a gente pode usar o alfabeto, as vogais; a matemática: quanto é que foi, se foi uma vez ou se foram duas vezes. (…) Pode ser que eles comecem não tão bonito do jeito que a gente quer, vai começando devagar, mas a experiência é que vale, a experiência é mais importante.”

Rio Ayari.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

VOZES DO TERRITÓRIO:
HISTÓRIAS QUE ECOAM NA ESCOLA E NA ALDEIA
“Antigamente os nossos pais não valorizavam as mulheres, somente os homens. Nunca saí para estudar. Eles falaram assim: ´ah, essas mulheres não podem estudar porque elas vão se casar, elas vão ter filhos´. Eu comecei a estudar na sala de aula quando eu tinha 10 anos, porque a minha mãe não deixava, eu tinha que cuidar dos meus irmãos e ajudar minha mãe a cuidar da casa. Falando de hoje em dia, só este ano entraram as meninas na escola. Antes eram somente homens. A gente está incentivando, na nossa escola, que os homens e mulheres estudem juntos (…) Isso que a gente fica falando o tempo todo. Na outra comunidade, não tem mulheres trabalhando. Somente nessa comunidade que tem meninas trabalhando. Quando tem reunião dos professores, só eu de menina fico falando e eu falo que as meninas tem que falar.”
Hilda Baniwa, professora da Escola Baniwa Eeno Hiepole
Muitas são as vozes que ecoam no território Baniwa, ensinando que a Educação Integral se faz a partir do encontro de muitas(os) sujeitas(os).
As vozes femininas
Na Escola Baniwa Eeno Hiepole, a maioria dos professores é homem, assim como a maioria das lideranças. As mulheres são caladas e participam pouco das conversas das lideranças e, só agora, começam a ter um protagonismo na escola. A origem dessa situação está na própria forma das famílias educarem suas filhas e filhos. A maioria das mulheres da Aldeia Canadá nasceram e sempre viveram ali, sem ter espaços de participação. Porém, com a escola, começam a se destacar como lideranças. Assim, as mulheres vão, pouco a pouco, encontrando força para fazer ecoar suas vozes femininas na construção da Educação Integral na escola e na comunidade.
As vozes das lideranças
As lideranças têm papel importante na condução da vida da escola, tanto como detentoras(es) de um saber que é passado de geração para geração, como líderes comunitárias(os) que pensam e decidem sobre projetos da sua localidade, como o projeto da escola.

As vozes das crianças
A infância Baniwa, na Aldeia Canadá, é vivida em diálogo com a floresta, com os ventos e com as águas. As crianças aprendem cedo que a terra não é cenário, mas parente – é corpo vivo que respira junto com elas. Nas trilhas e entre as mãos dos mais velhos, reconhecem a paxiúba, o caraná que sustenta as casas, a mandioca que alimenta a aldeia, o jambo que é fruta doce, mas também remédio bom para o estômago. Aprendem, nome por nome, planta por planta, o idioma da natureza, como quem pratica uma língua de pertencimento.
A comunidade inteira é casa e cuidado. A educação não cabe apenas nos cadernos. As crianças vivem e aprendem dentro dos espaços familiares, dos espaços da terra.
A escola está além do prédio escolar: o igarapé, o campo, a trilha, a horta, o centro da aldeia são salas de aulas, nas quais a criança aprende com a escola da vida. É uma escola integrada com a vida do povo. Elas são corpo-território, pois vivenciam o seu aprendizado no território. Em cada brincadeira, há aprendizado; em cada aprendizagem, há pertencimento. As vozes da infância Baniwa nos ensinam que não há separação entre aprender e viver, entre conhecimento e cuidado.
“Morávamos primeiro na aldeia Cururu-cuára (sítio antigo que fica próximo à Aldeia Canadá). Lá, a primeira que introduziu a alfabetização foi a Sophia Muller. Foi com ela que os meus pais foram alfabetizados, antes de eu nascer. Quando nasci e cresci, fui alfabetizado pelo meu pai no nosso ambiente familiar. Não era uma alfabetização na escola, era apenas em casa, lendo algumas palavras e versículos da Bíblia (na língua Baniwa). Cada domingo, ele fazia isso comigo. Foi assim que aprendi com meu pai e entendi a importância de estudar.”
Antônio João Candido Lopes, liderança da Aldeia Canadá
“No meu tempo de criança e adolescente não tinha escola. Não tive oportunidade de estudar. Tinha apenas um esforço de uma liderança religiosa, que ensinava alguns jovens a ler a Bíblia, na língua Baniwa. Ensinavam apenas para reconhecer alfabetos e ler a Bíblia na língua Baniwa. Foi assim que iniciou o processo de alfabetização aqui no território rio Ayari.”
Roberto Tomé da Silva, liderança da Aldeia Canadá

Crianças jogando futebol.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
E, apesar das dificuldades, hoje eles percebem um grande avanço na educação escolar na Aldeia Canadá:
“A prefeitura foi mudando de gestão, uns apoiando mais e outros menos. E, ao longo da caminhada, foi incluída e envolvida a participação de alguns Baniwa na gestão municipal. Atualmente, com a participação de nossos filhos na gestão municipal, ampliamos a nossa participação e acesso ao benefício escolar. Hoje, contamos com a escola de tempo integral, que é resultado da luta coletiva e envolvimento de nossos filhos no trabalho com o governo municipal. A escola é mobiliada, os professores são da própria comunidade e estão trabalhando de acordo com a realidade da comunidade.”
Roberto Tomé da Silva, liderança da Aldeia Canadá
A escola de Educação Integral em Tempo Integral, para eles, mudou e transformou a comunidade:
“Agora, estamos em nova fase da Escola em Tempo Integral, resultado de nossa luta e reivindicação por muito tempo. Estamos vivenciando o sonho, a nossa luta pela educação de qualidade. Precisamos garantir a participação de nosso povo Baniwa e Koripako, nestes espaços. A Escola de Tempo Integral vem para contribuir com essa formação de jovens também, para que cada vez mais nossos filhos estejam preparados para assumir responsabilidade e ocupar espaços de representação. Hoje, estou muito feliz com o resultado de nossa luta coletiva, que é essa escola que temos hoje, que valoriza nossos saberes e também conhecimentos e ciências de outros povos. (…)”
Antônio João Candido Lopes, liderança da Aldeia Canadá
Ao longo dos anos, a escola foi se estruturando, apesar de muitas dificuldades:
“Depois de alguns anos, com apoio dos pastores missionários da Missão Novas Tribos do Brasil é que o primeiro Baniwa, Senhor Camilo, deste território do rio Ayari, passou a trabalhar como professor voluntário. Trabalhou muitos anos, até que ele foi reconhecido e contratado como professor. Foi ele que começou a alfabetização aqui no território. Depois desse primeiro professor, surgiram outros dois: Valdir e Jorge. Foram eles que já alfabetizaram mais pessoas. Porém, ainda não era suficiente para alcançar outro nível. Foi necessário chamar professores de outra etnia da Missão Salesiana para contribuir com a escolarização de nossos filhos. Foi assim que veio evoluindo aos poucos.”
Roberto Tomé da Silva, liderança da Aldeia Canadá
Na avaliação dos dois líderes, a escola, hoje, valoriza e fortalece a Cultura Baniwa:
“Percebi que avançamos um pouco mais. Agora estamos realizando as aulas práticas, onde envolvem a nossa participação enquanto especialistas de nossos saberes. Nas aulas práticas de Artes de confecção de artesanato, por exemplo, dei ideia de que pudessem envolver, permanentemente, a participação do sábio, mas com a garantia de receber sua remuneração como professor também. Isso que vejo que precisa melhorar, valorizando os saberes e os sábios da aldeia. Vejo que dentro da Escola de Tempo Integral estão valorizando a arte de confecção de artesanato. Isso é muito importante, porque os jovens estavam perdendo esse conhecimento. Hoje, fico feliz de ver que isso está acontecendo na escola.”
Roberto Tomé da Silva, liderança da Aldeia Canadá
APRENDIZAGENS CONSTRUÍDAS A SEREM COMPARTILHADAS:
A ESCOLA-ALDEIA
Há muito que aprender sobre Educação Integral, a partir da experiência da Escola Baniwa Eeno Hiepole, da Aldeia Canadá. O primeiro aprendizado vem da história da mudança do nome da escola, revelando a busca de uma conexão dos valores ancestrais com a educação escolar no território, valorizando a cultura e a identidade.
“Antes a escola se chamava Tiradentes. Foi em um encontro de educação escolar indígena, aqui mesmo na calha do Rio Içana, que começamos a pensar na mudança de nome. (…) Pensamos em nomes com outros significados e falamos: será que não é bom colocar ‘origem’, ‘buraco de origem’, ‘umbigo’? E escolhemos: ‘Enoo Hiepole’, que significa: ‘umbigo do mundo’. (…) Nós nascemos aqui, nossa história e nossos conhecimentos. Então, registramos isso no nome da escola, porque ela vai ser origem de conhecimentos para nosso jovem e para nossas crianças. Vai ser o centro do mundo e dos conhecimentos que vão ser transmitidos dentro da escola.”
Eliseu Antonio, professor da Escola Baniwa Eeno Hiepole
Esta conexão com a cultura e o território está presente na organização curricular e na prática pedagógica das(os) professoras(es) Baniwa. Os Projetos Integradores fazem parte do currículo escolar e estão direcionados para solucionar problemas reais da aldeia. Desenvolvidos por educadoras(es) e educandas(os), no Tempo Integral, estes Projetos buscam dar respostas a questões enfrentadas pela comunidade, como a questão da água e da energia. Todos os dias, estudantes da escola se dividem em grupos e acompanham os Projetos da Trilha de Ciências. E, para isso, lançam mão de conhecimentos, que tanto podem ser acadêmicos, aprendidos na escola, como conhecimentos locais, aprendidos com as(os) mais velhas(os). A aldeia toda se transforma em uma grande sala de aula e é comum encontrar grupos de alunas(os) estudando embaixo de árvores ou percorrendo a aldeia para pesquisar plantas, pedras ou animais.
A escola é definida como uma escola/aldeia pois, tanto a escola faz parte da vida da comunidade, como a comunidade participa da vida da escola. Uma escola/aldeia traz também a dimensão comunitária da experiência.
“A gente é coletivo, esse é nosso mundo de vivência. A partir daí, nós mentalizamos com eles que nós temos que estar sempre unidos, coletivos, sempre.”
Eliseu Antonio, professor da Escola Baniwa Eeno Hiepole
É muito comum que todas as pessoas da aldeia façam sua refeição coletivamente no centro comunitário. Cada família prepara seu café da manhã em casa e depois o leva para ser compartilhado com as(os) outras(os). Ali, as panelas se misturam e todas(os) provam o alimento de todas(os). Esta prática se repete na hora do almoço e do jantar, num exercício coletivo de partilha.

Estudantes participam de atividades dos Projetos Integradores.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
A Educação Integral, na experiência da Escola Baniwa Eeno Hiepole, é realidade e não apenas um discurso. Nesta escola/aldeia, não há uma divisão rígida entre tempos de aprender e tempos de viver. A vida em comunidade é fonte de aprendizagens, que são ampliadas e sistematizadas com as reflexões e conhecimentos construídos na escola. Não há lugar para conhecimentos descontextualizados e sem vida. A organização do tempo e do espaço acompanham o ritmo da vida da comunidade. Não há muros separando a escola de outros locais da aldeia, nem há portões trancados impedindo a circulação de estudantes pela aldeia e de moradoras(es) pelo espaço da escola.
A relação que se estabelece entre adultas(os) e crianças é de respeito e de confiança. As(Os) professoras(es) acompanham as crianças ao longo do dia, nos horários de aula e também fora desse horário. São elas que organizam os times e as partidas de futebol, vão com as crianças no igarapé para o banho, ajudam na hora da alimentação. As crianças são livres e aprendem brincando, se relacionando com a natureza, acompanhando e observando as(os) adultas(os) em seus afazeres diários.
A natureza faz parte do dia a dia de todas(os). O rio Ayari é a porta de entrada e saída da aldeia. Durante a seca, suas praias são o lugar preferido para descansar no fim de tarde e passar o dia, nos fins de semana. O igarapé é lugar de nadar, lavar roupa e vasilhas, buscar água pura para beber. É chamado de “igarapé sagrado”. As árvores e os pássaros são companheiras(os) de toda hora e fazem parte da vida da aldeia. O Sol e a Lua regem os ritmos de toda a existência pois, na aldeia, os tempos da vida são regidos pela natureza e não pelo relógio.
“Nós estamos criando um Projeto de Lei do município para incluir o mestre, o sábio, como um professor indigena. Eles são os nossos professores da tecnologia indígena, que fazem a cestaria, a canoa. Eles são bons para isso, mas não têm habilitação. (…) Precisamos de uma legislação que reconheça que na escola indígena existe a categoria professor indígena. (…) Esse professor vai ser um cargo indicado pela vontade da comunidade.”
A espiritualidade, longe de ser ignorada, permeia o respeito pela natureza, os rituais de passagem e a compreensão de que o conhecimento vem não apenas da mente, mas também do coração e do espírito. A presença das(os) pajés e das(os) conhecedoras(es) tradicionais, como profissionais de “notório saber” dentro da escola, é, talvez, o símbolo mais potente desta interculturalidade. Suas aulas são sobre o uso das plantas medicinais, os ciclos da Lua, que regem a plantação, e as histórias originárias, que explicam o mundo. A criação do cargo de professora(or) indígena, por notório saber, é prioridade para o atual Secretário de Educação de São Gabriel da Cachoeira, Nelson Baniwa:

A Educação Integral, com a presença dessas(es) sábias(os) na escola, mostrou às(aos) estudantes que sua identidade cultural não é um adereço folclórico, mas um sistema de conhecimento tão complexo e válido quanto qualquer outro. Esta, talvez, seja a maior força inspiradora dessa experiência: fazer da escola um território onde as crianças e os jovens possam, simultaneamente, fortalecer suas raízes e projetar seus voos. É a semente da Educação Integral, regada pelo diálogo de saberes, crescendo forte e frondosa como as castanheiras da floresta que a abraça.

Desenho produzido por estudante durante uma atividade escolar.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Conheça aqui a história de Dzoodzo Baniwa, um educador e líder indígena que une educação escolar e cultura ancestral.


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