Por Ana Luiza Pereira Dias, Ana Maria Lobo Carvalho, Áurea Cristina Mendes Nogueira, João Paulo Mariano Domingues e Maria Clemência de Fátima Silva

Alianças múltiplas e potentes reafirmam o direito à educação, inaugurando diálogos, proporcionando múltiplas vivências sociais e culturais e redesenhando territórios da Educação Integral em Tempo Integral.
Orquestra de Berimbaus de estudantes.
Foto: Maria Clemência Silva
A cidade de Poços de Caldas, localizada no sul de Minas Gerais, apresenta uma série de indicadores econômicos positivos. Contudo, convive com desigualdades sociais, sobretudo nas regiões periféricas e em comunidades marcadas pela vulnerabilidade social, onde ainda há necessidade de equipamentos culturais, esportivos e de lazer. Essa realidade evidencia a importância de políticas públicas intersetoriais voltadas para a ampliação de oportunidades educativas, uma vez que tais contextos de exclusão expõem, especialmente crianças e adolescentes, a riscos de violência e de evasão escolar.
Nesse contexto, a política de Educação Integral em Tempo Integral se apresenta como uma estratégia para fortalecer a proteção social, ampliar as oportunidades de aprendizagem e reduzir desigualdades estruturais.


Estudantes praticando cricket.
Foto: Ana Maria Lobo Carvalho
A cidade vem, inclusive, construindo uma trajetória progressiva na implementação de políticas públicas de Educação Integral ao longo das últimas décadas, assentadas na concepção da formação humana e princípios da Cidade Educadora. Desde então, houve avanços notáveis na construção de experiências, programas, projetos e legislações para tal, inclusive na percepção das famílias sobre os propósitos da Educação Integral na formação de suas(seus) filhas(os).
Segundo a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2024, o município possui 171.533 habitantes. A cidade detém uma cultura e uma economia diversificada, com forte peso no setor de serviços (principalmente turismo e hotelaria), seguido pela indústria de minério. Apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,779, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), referente ao ano de 2010. Esse índice é considerado alto e coloca a cidade em sexto lugar entre os municípios de Minas Gerais com melhores indicadores sociais.
“Antes de tudo, foi necessário desmistificar o olhar sobre a Educação Integral. As famílias, muitas vezes, olhavam a Educação Integral como um tempo para o filho ficar a mais. Hoje, entendem como a formação do indivíduo, como a formação do ser humano.”
Marcus Vinícius Menezes Lemos, Secretário de Educação de Poços de Caldas
A TRAJETÓRIA DE IMPLEMENTAÇÃO DA POLÍTICA LOCAL
Desde a década de 1990, a cidade deu os primeiros passos com iniciativas voltadas ao contraturno escolar, como o Programa Recriança, que oferecia atendimento em núcleos socioeducativos e abriu caminhos para a articulação entre setores/secretarias, escolas, famílias e comunidade.
Em 2001, a promulgação da Lei Municipal nº 7.568 (Poços de Caldas) criou o Programa Municipal de Juventude (PMJ), instituindo um marco legal e político para ações continuadas voltadas a crianças e jovens de 6 a 16 anos. O PMJ não ficou restrito à ampliação de horários, assumindo desde o início uma proposta articulada entre as diferentes áreas – Educação, Cultura, Esporte, Saúde e Meio Ambiente — e buscando responder de forma integral às necessidades e potencialidades dos territórios onde atuava. Essa orientação intersetorial favoreceu a construção de práticas educativas que consideram o contexto local ao promover o protagonismo infantojuvenil e o fortalecimento de vínculos comunitários.
A relação do município com programas e experiências de âmbito nacional também marcou essa trajetória. Entre 2016 e 2018, Poços de Caldas participou do Programa Mais Educação, integrando recursos federais e diretrizes nacionais à política local. Quando o financiamento federal chegou ao fim, a prefeitura optou por manter os serviços com recursos próprios. Esse esforço financeiro e político demonstra o reconhecimento da Educação Integral como investimento estratégico para a promoção da equidade e melhoria das oportunidades educacionais.
Conheça mais sobre a Lei Municipal nº 7.568 (Poços de Caldas, 2001), que criou o Programa Municipal de Juventude (PMJ).

O curso de Formação Continuada de Secretárias(os) e Equipes Técnicas das Secretarias de Educação, no âmbito do Programa Escola em Tempo Integral, foi relevante para ampliação do conhecimento sobre Educação Integral localmente. À frente da Política de Educação em Tempo Integral de Poços de Caldas, Ana Maria Lobo Carvalho, coordenadora do Programa Municipal de Educação e Escolas em Tempo Integral (PMEI) de Poços de Caldas, e Áurea Cristina Mendes Nogueira, pedagoga da equipe gestora do PMEI, organizaram uma rede de possibilidades concretas de articulação intersetorial para a efetivação das atividades, buscando articular as demandas da comunidade escolar e as possibilidades institucionais. Elas são responsáveis pela escuta atenta das(os) diversas(os) sujeitas(os) atendidas(os) e atravessadas(os) pela política e pela construção/articulação de possibilidades pedagógicas e institucionais.
Nas visitas e rodas de conversa que realizam, semanalmente, nas unidades do PMEI, como metodologia para a construção de uma gestão democrática e intersetorial no município, é possível observar alguns exemplos dos diálogos estabelecidos que traduzem saberes do “chão da escola” e que alcançam as(os) sujeitas(os) a partir da identificação, da escuta, do diálogo aberto e comprometido.

Um desses exemplos é a conversa entre o professor de Educação Física, Luiz Henrique de Sousa, e o diretor da Escola Municipal Alvino Hosken. Luizinho, como ficou conhecido, é mestre de capoeira e idealizador do Projeto Orquestra de Berimbaus, na escola. O diretor pergunta ao professor se a “capoeira ainda é muito discriminada.” No diálogo, o professor Luizinho afirma: “É no passo a passo. Os berimbaus já estão aí. É que foi uma luta, né? Agora, falou que é capoeira, é qualquer coisa. Agora o judô, o jiu-jitsu, aí… já tem até a roupa, né? Então, tem que refinar o olhar. A gente também está em parceria”. O professor sugere que existe uma abertura atual importante quando lembra que “os berimbaus já estão aí”. Reconhece a parceria com a atual gestão e que o Projeto no qual está inserido é resultado dessa abertura. Mas o educador não deixa de observar que a discriminação ainda existe quando menciona o pouco investimento em relação a outras atividades. Luizinho apresenta uma demanda, a partir da realidade vivida.
É importante destacar que o município oferece formações sobre o tema por meio do Projeto Formação de Educadores na construção de uma convivência democrática: o estudante na sua integralidade, promovido pela Secretaria Municipal de Educação com recursos recebidos pelo Governo Federal, em parceria com o Programa Escola em Tempo Integral.

O diálogo aberto com a comunidade escolar aparece como cerne do projeto de gestão democrática e intersetorial da administração municipal. O educador fez a observação, porque o diálogo com as(os) diversas(os) atrizes(ores) da comunidade escolar fazia parte da metodologia de trabalho adotada, havia uma parceria e uma gestão comprometida com as demandas e alertas da comunidade. A gestão democrática implica deslocar decisões tomadas dentro do modelo das hierarquias tradicionais para processos amplos de participação.
Outro tema acolhido pela Secretaria de Educação foi a inclusão, tendo em vista os desafios significativos neste campo, que vão desde a formação das(os) profissionais, currículo escolar e relação com a família, até a estrutura física local. Uma das iniciativas para atender a esta demanda foi a criação da Singular – Centro Municipal de Atendimento Especializado, que oferece apoio a todas as etapas de ensino.

A criação da Singular visa a atender à necessidade de acompanhamento, diagnóstico e intervenção precoce de crianças e adolescentes neurodivergentes (Transtorno do Espectro Autista [TEA], Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade [TDAH], Transtorno Opositivo Desafiador [TOD], Deficiência Intelectual [DI] e Dislexia), com treinamento individualizado para famílias e profissionais da escola, com o intuito de ampliar as oportunidades de aprendizagem para este público. Atualmente, são cerca de 850 estudantes em toda a Rede Municipal de Ensino que necessitam de algum atendimento especializado desta natureza. O Centro de Atendimento Especializado também será um espaço de formação continuada para professoras(es) regentes, docentes das salas de recursos e gestoras(es) escolares, oferecendo apoio na elaboração dos Planos Educacionais Individualizados (PEI).

Orquestra de Berimbaus de estudantes.
Foto: Maria Clemência Silva
PRÁTICAS, PARCERIAS E FINANCIAMENTO PARA UMA JORNADA ESCOLAR AMPLIADA
“O legado que ele (professor Emerson) deixou não acaba nunca. Parece que ele mudou tanto a vida das pessoas que, hoje em dia, os moradores e as crianças têm esse cuidado com a escola. Teve uma mudança no jeito de ser mesmo.”
Aurélio Ferreira Carvalho, agricultor e morador do Assentamento Agrovila Marisa Lula
“O professor Emerson nos ensinou: ‘Quando a gente consegue educar bons seres humanos, a gente, naturalmente, vai conseguir ter bons estudantes’. O contrário talvez não seja verdade, mas nessa linha a gente consegue.”
Camila Satéro, diretora pedagógica da Educação Infantil
“O Emerson teve essa visão e o Sandro, que também é professor, está dando continuidade a esse belíssimo trabalho, com muita responsabilidade.”
Valdivan Braga, gestor da Educação do Campo
A implementação da Educação Integral em Poços de Caldas tem se fortalecido como uma política pública contínua e colaborativa, fundamentada na cooperação entre escolas da Rede Municipal e unidades do Programa Municipal da Juventude (PMJ).
A abordagem metodológica é fundamentada em um currículo integrado e interdisciplinar, que conecta os componentes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) às experiências presentes no território. As atividades são realizadas durante a ampliação da jornada escolar, com uma carga horária diária de sete horas, garantindo momentos de descanso, alimentação, convivência e lazer. Os espaços públicos da cidade — como praças, centros culturais, bibliotecas, parques e instalações esportivas — são aproveitados como extensões da escola, proporcionando experiências variadas, que enriquecem o processo de formação.
As escolas e unidades do PMJ elaboram anualmente seus Planos de Ação, contemplando a oferta de pelo menos seis dos oito eixos definidos pelo Referencial, de acordo com as características e possibilidades locais.

Luizinho, educador e mestre de capoeira de Angola, conduz a Orquestra de Berimbaus.
Foto: Ana Maria Lobo Carvalho
Atualmente, há 14 escolas municipais e sete centros do PMJ distribuídos de forma estratégica por todas as regiões do município, atendendo 1.737 estudantes nos Anos Iniciais e 518 nos Anos Finais do Ensino Fundamental em jornada ampliada. Esse atendimento corresponde a 20,6% das matrículas da Rede Municipal em Tempo Integral. A proposta é guiada pelo Referencial Pedagógico da Educação Integral, que estrutura as práticas educativas com base em oito eixos orientadores: Cultura de Paz; Direito à Cidade; Arranjos Culturais; Expressão, Corpo e Movimento; Leitura e Escrita; Raciocínio Lógico; Educação Científica; e Aprender para Empreender.
Esses eixos estabelecem os fundamentos para o planejamento e execução de experiências pedagógicas relevantes, conectadas à realidade das(os) estudantes e aos desafios atuais.
Para saber mais, conheça o documento Referencial Pedagógico da Educação Integral. Acesse aqui.

As oficinas ofertadas nas unidades são organizadas por faixas etárias e áreas do conhecimento, abrangendo as dimensões cognitiva, social, corporal, cultural e emocional das(os) estudantes. Entre as atividades Culturais e Artísticas, destacam-se: artes visuais, pintura em telas, artesanato, teatro, coral, musicalização, capoeira, dança, street dance, escultura, maquetes, restauração, grafite, natação, cricket, murais, arte pública, além da produção de vídeos e mídias digitais.
As Oficinas Corporais e Esportivas incluem modalidades como esporte solidário, capoeira, artes marciais, ginástica olímpica, ginástica rítmica, yoga, atividades físicas orientadas, caminhadas guiadas, jogos cooperativos e expressão corporal, promovendo o fortalecimento da consciência corporal e o bem-estar físico.
No campo do Conhecimento e da Leitura, as(os) estudantes participam de oficinas de leitura literária, produção textual, contação de histórias, biblioteca móvel, inclusão digital, democratização do uso da informática, laboratórios de ciências, pesquisa científica, robótica educacional e feiras de ciências ao ar livre, estimulando o pensamento crítico e a investigação científica.
As oficinas de Cidadania e Protagonismo abordam temas como juventude e cidadania, direitos humanos, justiça restaurativa, sustentabilidade, cultura de paz, educação patrimonial e histórica, empreendedorismo juvenil, formação de líderes e fortalecimento dos vínculos com as famílias.
Esses projetos são construídos de maneira colaborativa por professoras(es), gestoras(es) e parceiros das áreas de Cultura, Esporte e Saúde, promovendo uma Educação Integral em suas múltiplas dimensões.
Essa ampla gama de atividades ofertadas se torna possível devido à articulação financeira da rede, sobretudo por meio das Leis de Incentivo Municipal das diversas Secretarias, proporcionando recursos adicionais e direcionados para expansão e aprimoramento da Rede Pública de Ensino no município.
Essa articulação permite fortalecer a Rede Pública de Educação, promovendo maior autonomia do setor público, reduzindo a dependência de recursos externos e ampliando sua capacidade de planejar e implementar políticas de educação de forma mais eficiente e alinhada às necessidades locais. Assim, os recursos provenientes de Incentivos Fiscais contribuem para a consolidação de uma Educação Integral mais abrangente, inclusiva e de qualidade, promovendo o desenvolvimento social e econômico do município. Alguns exemplos são o Projeto Poços Ativa, que atende as modalidades: futebol, voleibol e judô e possui como fonte de financiamento a Lei de Incentivo ao Esporte; o Projeto Viola na Escola, que possui financiamento do Fundo da Infância e do Adolescente; e os Projetos Coral na Educação, Arte em Feltro e Hip Hop, que tem como fonte de financiamento recursos vinculados ao Programa Escola em Tempo Integral.
A gestão pedagógica da Educação Integral, em Poços de Caldas, é acompanhada por uma equipe técnica da Secretaria Municipal de Educação, responsável por oferecer formações continuadas, visitas orientadoras e encontros temáticos com os diferentes espaços escolares e núcleos. A atuação das(os) educadoras(es) é pautada na escuta ativa da comunidade escolar, reconhecendo seus interesses, saberes e contextos de vida, o que fortalece o processo de aprendizagem e desenvolvimento integral.

“Hoje, a gente tem muito projeto social, igual natação e basquete. Eles fazem aula de violão, de teatro, de circo, de atletismo e de cricket. Então, são vários pólos que se uniram para fazer para todo mundo.”
Lucelaine Leite de Oliveira, funcionária administrativa hospitalar
A ARTICULAÇÃO DA EDUCAÇÃO INTEGRAL
EM TEMPO INTEGRAL NA ESCOLA: SUJEITAS(OS) E TERRITÓRIOS NA TRAMA DE NOVOS CAMINHOS
Esse conjunto de arranjos (inter)setoriais ganha cores, formas, movimentos, sabores, sons, cheiros, atitudes, ações nas escolas e no Programa Municipal de Juventude (PMJ) de Poços de Caldas. A intensidade e mobilidade desta articulação intersetorial não é despercebida à escola, às comunidades, às(aos) estudantes e suas famílias, que reconhecem sua importância no trabalho realizado na Educação Integral.
É comum identificar nas falas de estudantes, professoras(es) e educadoras(es) – que experienciam diariamente a Educação Integral – as situações de aprendizagem, novos conhecimentos, relações sociais, sensações e diferentes pontos de vista que valorizam as ações educativas e as experiências vividas. Neste portfólio de aprendizagens, há amigas(os) para vida toda, a importância do brincar, a convivência com as diferenças, o prazer desmedido proporcionado pelas práticas esportivas, pelo canto e pela música, pelo manuseio de instrumentos musicais “de verdade”, o despertar da gentileza, do espírito colaborativo e coletivo, dentre outros.


Estudantes da Escola Wilson Hedy Molinari Molinare em treino de bicicross no BMX.
Foto: Maria Clemência Silva
“É um privilégio poder ter, na nossa cidade, um projeto dessa magnitude, que está atendendo cada vez mais crianças em tempo integral. Quando eu vim morar aqui em Poços, em 2008, era bem polarizado. Agora já é bem abrangente, tanto que eu morei em outros bairros que também tinham o projeto. As aulas de canto, por exemplo, acontecem em outras escolas em tempo integral. É um projeto que tende a melhorar, a crescer sempre, mas que já está num ponto que atende super bem a gente, enquanto família.”
Zeliane Maria de Ávila Vieira, mãe da Luisa de Ávila Vieira, 10 anos, estudante do Colégio Municipal Doutor José Vargas de Souza
Os familiares também apontam os impactos das práticas educativas na vida das(os) filhas(os) e de suas famílias, percebendo a Educação Integral de forma mais ampla do que a possibilidade de ser apenas um lugar onde deixar a(o) filha(o) enquanto trabalham, ou de ocupar o tempo ocioso de crianças e jovens. A Educação em Tempo Integral é lugar de educar, de conviver, de aprender, de brincar, de escutar e dialogar e de se ter esperança. Ressaltam valores, relações construídas, protagonismo das(os) estudantes, segurança, confiança e cuidado, demonstrando que educar e cuidar são coisas entrelaçadas e indissociáveis.

“A gente vem de uma época de muito pessimismo e negatividade, dizendo que a educação não tem mais jeito, que a juventude não tem mais jeito. Mas, não é assim. Essa influência da arte, da cultura, do esporte, encanta muito. Hoje, ver eles (estudantes) tocando um violino ou viola numa apresentação é sinal de que amanhã, se quiserem ser músicos renomados, eles podem. Ou se, simplesmente, quiserem tocar em casa para a família, também podem.”
Betânia Aparecida de Oliveira, professora referência da Educação Integral no PMJ Vilas Unidas
“Na escola, eles aprendem com tanto amor e carinho que acabam levando isso para fora. Então, eles acabam sendo educados aqui também, não só em casa.”
Ludiane Ciacci Oliveira, mãe dos estudantes João Lucas Ciacci Oliveira, 8 anos, e da Maria Julia Ciacci Oliveira, 12 anos, do Colégio Municipal Doutor José Vargas de Souza
“Pra gente, foi fundamental o PMJ, porque a educação é transformadora. E aqui eles se transformam. Os alunos entram de um jeito e saem completamente diferentes.”
Juliana Moura Oliveira, mãe da estudante Lorenza Donini Moura Pelegrino Souza, 9 anos, do Colégio Municipal Doutor José Vargas de Souza
“Além da questão educacional, aqui faz a interligação com a parte cultural e artística, que é muito importante.”
Jéssica Nuevo da Silva, mãe das estudantes Maria Vitória Nuevo D’onofrio, 8 anos, e Yasmin Nuevo D’onofrio, 11 anos, do Colégio Municipal Doutor José Vargas de Souza
“A minha filha Iara fez o projeto. No começo, eu coloquei realmente porque preciso trabalhar e não teria onde deixar ela. Mas, as atividades que ela aprende aqui, eu não teria condições de colocar em outros lugares. É essencial para o dia a dia dela ter contato com as outras crianças, com exercícios físicos e basquete.”
Geni Luciana Nascimento dos Reis, mãe da estudante Iara Valentina Nascimento dos Reis, 7 anos, da Escola Municipal Wilson Hedy Molinari
“Eu acho que o ponto-chave, o diferencial da Educação Integral, é a convivência. A gente fala de inclusão, de todas as diversidades. E aqui é onde eles realmente se deparam com crianças diferentes, idades diferentes e escolas diferentes.”
Zeliane Maria de Ávila Vieira, professora, mãe da estudante Luisa de Ávila Vieira, 10 anos, do Colégio Municipal Doutor José Vargas de Souza
“Eles adoram estar aqui. Lógico que, às vezes, têm algum questionamento de que estão cansados, porque aqui tem várias atividades. Se ficar em casa, vai ficar assistindo à televisão. E aqui eles têm muito aprendizado, muito tipo de aulas que atende em vários sentidos: teatro, atividade física etc. Então, para mim, e lá para a minha casa, o projeto é essencial.”
Ludiane Ciacci Oliveira, mãe dos estudantes João Lucas Ciacci Oliveira, 8 anos, e Maria Julia Ciacci Oliveira, 12 anos, do Colégio Municipal Doutor José Vargas de Souza
Em geral, as crianças e jovens estudantes valorizam muito a ampliação do tempo escolar, ressaltando benefícios de toda ordem. Entretanto, a falta de tempo para lidar com os interesses pessoais e o cansaço são elementos destacados por algumas(os) estudantes. Ainda assim, emerge na voz dessas(es) alunas(os) grande entusiasmo com o cotidiano educativo vivido na Educação Integral, especialmente quando se referem às relações afetivas, às trocas e às práticas culturais proporcionadas pelos espaços e tempos educativos.

Aula de judô na Escola Municipal José Mamud Assan.
Foto: Áurea Cristina Mendes Nogueira
NOVAS POSSIBILIDADES DE ARTICULAÇÃO
A presença dos projetos provenientes de leis municipais de incentivo à Cultura e ao Esporte na Educação Integral contribui para aproximar escolas e comunidades. Em geral, os projetos também são abertos às comunidades, muitas vezes, contemplando filhas(os) durante o dia, e mães e pais e demais membros da comunidade à noite, ou até mesmo compartilham os mesmos locais e horários nos quais estudantes e educadoras(es) vivenciam a Educação Integral. Ginástica, natação e música estão entre as atividades, abertas às famílias e às comunidades, bastante procuradas.
Na Escola Municipal Alvino Hosken de Oliveira, localizada no bairro Jardim Santa Rita, por exemplo, as crianças estudam e praticam a capoeira de Angola na Educação em Tempo Integral, com o mestre Luizinho e, à noite, o mestre faz esse mesmo trabalho com a comunidade.
O reconhecimento do potencial educativo dos territórios na realização da Educação em Tempo Integral tem possibilitado às escolas constituírem parcerias nas próprias comunidades. A mesma Escola Municipal Alvino Hosken de Oliveira, que atende a 100% das crianças matriculadas do 1o ao 5o ano na Educação em Tempo Integral, está entre aquelas que mobilizam alianças e parcerias dentro do próprio território, não só pela necessidade de expandir espaços para acolher a Educação Integral, mas, principalmente, para ampliar o repertório da experiência vivida, integrando saberes e práticas culturais do território.

Reunião com educadoras(es) na Escola Municipal José Avelino de Melo.
Foto: Áurea Cristina Mendes Nogueira
“Com estrutura ou sem estrutura, aqui a Educação Integral acontece de qualquer jeito. A gente aproveita o que tem de melhor na comunidade para a Educação Integral: as festas de São Benedito, a congada e o carnaval… A escola tem muito pouco espaço, então, a gente ocupa as praças. Se tiver espaço vazio na comunidade, a gente vai lá e ocupa.”
Cleonice Souza Neves dos Santos, professora referência da Educação Integral da Escola Municipal José Mamud Assan
Outro espaço que articula parcerias com o território é a Escola Municipal José Avelino de Melo, na Fazenda Lambari, zona rural de Poços de Caldas, que atende estudantes de 27 comunidades. Cerca de 70% dessas(es) estudantes permanecem na escola, em jornada integral, participando de atividades educativas na própria escola, já que esta detém um espaço privilegiado, de grande extensão, arborizado, com instalações amplas, bem conservadas e ventiladas.
Atenta às transformações no campo, a direção da escola está à frente de um projeto, que vem sendo realizado num espaço organizado na comunidade, composto de uma casa e um pequeno terreno adjacente, no qual se desenvolve, coletivamente, a construção de um apiário, a reciclagem de materiais e o cultivo de uma horta comunitária, possibilitando retorno financeiro e de alimentos às famílias envolvidas no projeto.
Ao empreender parcerias com as comunidades, as escolas permitem que estudantes e professoras(es) vivenciem experiências significativas, demonstrando que território é pertencimento. Logo, pessoas e território se pertencem, são intrínsecos.
Pautas sociais de inclusão, abraçadas por organizações não-governamentais, também aproximam escola e território. Essas instituições atuam nas comunidades procurando fortalecer identidades e promover direitos. No PMJ João Monteiro, no bairro Parque Esperança, o espaço é compartilhado com o Centro Integrado de Desenvolvimento do Esporte Paralímpico (Cidep), organização que, além de impulsionar o esporte paralímpico, tem um projeto de articulação com as escolas, responsável por envolver estudantes e familiares para que, juntas(os), participem de atividades paralímpicas.
Assim, crianças e jovens, que não têm deficiência, praticam esportes paralímpicos junto com um(a) familiar com deficiência, participando inclusive de festivais e competições, com a intenção de estimular a pessoa sem deficiência a se pôr no lugar da outra(o) e contribuir para uma melhor qualidade de vida da família como um todo.

Entorno da Escola Municipal José Avelino de Melo, na Fazenda Lambari.
Foto: Maria Clemência Silva
UM DIÁLOGO QUE SEGUE ABERTO
A experiência de Poços de Caldas com a Educação Integral em Tempo Integral mostra que políticas públicas inspiradoras nascem da combinação entre histórico local, protagonismo de sujeitas(os) comprometidas(os) e capacidade de articulação intersetorial. A cidade construiu, ao longo de décadas, uma trajetória consistente na Educação Integral, que revela compromisso político e investimento municipal sustentado.
A intersetorialidade aparece como condição necessária para tornar efetiva a Educação Integral. A articulação com Saúde, Assistência Social, Cultura, Esporte, Habitação e Organizações da Sociedade Civil (OSC) amplia as possibilidades formativas, potencializa recursos e aproxima escola e comunidade. Projetos financiados por leis de incentivo municipais, convênios e parcerias criam uma teia de oportunidades que diversifica oficinas, amplia a oferta de atividades e fortalece vínculos comunitários, contribuindo para processos de inclusão e protagonismo infantojuvenil.
Os relatos de familiares, professoras(es) e estudantes atestam ganhos concretos: ampliação de aprendizagens, fortalecimento de vínculos afetivos, maior segurança e cuidado, desenvolvimento artístico, esportivo e científico, além de experiências que fomentam solidariedade e convivência com as diferenças. Esses resultados apontam para uma educação que educa além do currículo estrito: também cuida, protege e forma pessoas capazes de atuar criticamente em seus territórios.
Contudo, desafios ainda persistem, como a superação das desigualdades de infraestrutura em algumas unidades, o enfrentamento sistemático ao racismo e às discriminações, o aprofundamento das práticas inclusivas e a ampliação da cobertura da jornada integral exigem investimentos contínuos, formação profissional especializada e políticas públicas articuladas em horizontes mais amplos.
Por fim, a experiência de Poços de Caldas reafirma que uma cidade educadora se constrói por meio de políticas que reconhecem a centralidade da escola no tecido social, valorizam o conhecimento produzido no cotidiano escolar e apostam na participação democrática. A consolidação da Educação Integral aqui descrita demonstra que é possível transformar direitos em práticas concretas quando há compromisso político, gestão qualificada, escuta permanente e articulação intersetorial. Esses elementos, combinados, não apenas ampliam oportunidades educativas, como também contribuem para a construção de comunidades mais justas, solidárias e capazes de projetar coletivamente futuros mais inclusivos.

Estudantes do PMJ Vilas Unidas se manifestam sobre estar na Educação Integral .
Foto: Ana Maria Lobo Carvalho
REFERÊNCIAS
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: Ministério da Educação/Consed/Undime, [2017]. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 2 dez. 2025.
POÇOS DE CALDAS. Lei nº 7.568, de 26 de dezembro de 2001. Dispõe sobre a criação do Plano Municipal da Juventude (PMJ) e dá outras providências. Poços de Caldas: Câmara Municipal, [2004]. Disponível em: https://leismunicipais.com.br/a/mg/
Acesso em: 2 dez. 2025.
PREFEITURA DE POÇOS DE CALDAS:
- Site: www.pocosdecaldas.mg.gov.br
- Instagram: www.instagram.com/prefeituradepocos
- Facebook: www.facebook.com/share/1BBEbASww8
- Youtube: www.youtube.com/c/PrefeituradePoçosdeCaldasMG
PREFEITURA DE POÇOS DE CALDAS:
• Site: www.pocosdecaldas.mg.gov.br
• Instagram: @prefeituradepocos
• Facebook::
@prefeituradepocosdecaldas
• Youtube: youtube.com/c/
