Por Augusta Mendonça, Bárbara Nascimento, Bárbara Ramalho, Eliane dos Santos Rodrigues e Luciana de Oliveira Braga

O encontro entre Educação Escolar Indígena e a Educação Integral no território fronteiriço de Pacaraima (RR).

Estudantes reunidas(os) durante merenda na Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Quando criança, Tâmires Flores, moradora da Comunidade de Sorocaima I (RR), atual diretora da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way[1] Paula Bento, ouviu uma história contada por seu bisavô, Mário Roberto Flores. O propósito dele era aconselhar e alertar a bisneta sobre os cuidados que ela deveria ter com o futuro, por ser uma criança que já demonstrava interesse pelos
estudos.

A história remonta à construção da BR-174, rodovia federal, também conhecida como Manaus-Boa Vista, construída ao longo da década de 1970 sob o ideário de integração da Amazônia, colocado em curso pelo governo militar e combatido
pelos povos indígenas. Os receios, medos ou inseguranças relacionados aos potenciais efeitos produzidos pela BR eram extensivos à escola,
afinal, como as longas estradas, historicamente, a instituição escolar produziu um legado de
desterritorialização para essa população.

Aluna participa da aula de pesca, um componente que faz parte do currículo da Educação Integral.

Foto: Equipe de pesquisadoras do Projeto Experiências Inspiradoras

A compreensão de que as interações culturais existem em uma sociedade cujas relações de poder estão desigualmente distribuídas é complexa e assimétrica. E a adoção de uma postura intercultural capaz de reconhecer relações entre modos e existência de forma mais equilibrada parece ser a chave analítica imprescindível na construção da experiência de Educação Integral em Tempo Integral aqui compartilhada. É a partir deste lugar que se tem a chance de compreender como, na Comunidade Indígena de Sorocaima I, Educação Escolar e Cultural, ou “Intercultural” e “Integral”, passaram a se constituir partes de um “casamento perfeito”, como acredita Tâmires Flores.

“Ele disse: ´Daqui a alguns dias, vai chegar uma serpente negra que não tem fim, não tem cabeça e nem cauda. Essa serpente negra vai crescer e vai ter listras. Ela é muito perigosa. Quem souber andar com sabedoria, com inteligência, com o conhecimento que ela traz, ela não vai matar ninguém. Mas ela vai trazer doenças também, e pode até comer a língua de vocês. Vai trazer benefícios e, também, coisas ruins. E ela vai ser uma cobra grande, com sinalizações, mas vai entrar aqui de uma forma que vocês não vão perceber. Dentro dela vem a escola. E como a escola passa por dentro dela, eu tenho medo da escola entrar aqui e acabar com vocês.”

Tâmires Flores, diretora da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento

Mesmo com a existência de conflitos e uma postura de constante acompanhamento e vigilância das práticas educativas por parte das lideranças, “o giz parece ter sido amansado” (Xakriabá, 2020) – em referência às palavras da doutora em Antropologia e Deputada Federal, Célia Xakriabá – por aquela comunidade. E, nesse processo, a ampliação do tempo de permanência das crianças na escola tem se apresentado, de maneira surpreendentemente positiva, como uma importante estratégia de indigenização da escola.

“Hoje, a Escola de Tempo Integral traz uma nova visão do que é a educação para as nossas comunidades. Não é só pintar todo dia, mas também pescar, tomar banho de rio…”

Sandoval Pinto Flores, Tuxaua, liderança local

“UM GRANDE FLUXO DESSA IMIGRAÇÃO, QUE PERMANECEU NO MUNICÍPIO”

A Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento está localizada no município de Pacaraima – um local de muitas fronteiras e, portanto, de desafiadoras e potentes relações interculturais. A cidade repousa sobre o topo da Serra Parima, a mais elevada da Região Norte e a segunda mais alta do Brasil, há poucos quilômetros da Venezuela. Essa proximidade confere à cidade uma natureza singularmente plural: são vozes em vários idiomas, cheiros que misturam feiras e árvores, sabores indígenas e imaginários de quem atravessa, com certa naturalidade, a linha imaginária que separa os dois países.

 

“Então, aqui na sede do município, nós temos, hoje, metade de alunos venezuelanos e metade de alunos brasileiros. Temos escolas com 80% de venezuelanos. (…) Um grande fluxo dessa imigração, que permaneceu no município.”

Alsione Pereira de Alencar Sulbaran, Secretária Municipal de Educação de Paracaima

 

 

A sede do município se encontra no interior da Terra Indígena São Marcos, o que imprime à cidade uma configuração espacial peculiar, na qual o urbano e o tradicional convivem em um mesmo território, em constante negociação. Em Pacaraima, distribuem-se 68 comunidades indígenas entre a Terra Indígena Raposa do Sol e a Terra Indígena São Marcos.

A história da cidade, no entanto, remonta a tempos de demarcação e vigilância: durante a década de 1920, quando o Brasil consolidava suas fronteiras setentrionais, surgiu o primeiro núcleo populacional local, em torno de um Pelotão do Exército Brasileiro que, à época, estava instalado na fronteira. Nas décadas seguintes, o garimpo foi o grande motor da ocupação, atraindo migrantes e consolidando o pequeno grupo que, em 1995, conquistou autonomia administrativa ao se desmembrar de Boa Vista. Com mais de oito mil quilômetros quadrados de extensão e uma densidade demográfica rarefeita, Pacaraima é um território de vastidões e contrastes.

Os rios Cotingo, Parimé e Surumú, embora formem a base hídrica do município, correm distantes da sede, localizados nos vales e florestas da Terra Indígena São Marcos. No alto da serra (o planalto Parima apresenta as maiores altitudes do Estado e de toda Região Norte do Brasil, com 920 metros de altitude), a cidade vive apartada do som das águas, sustentando-se sobre o platô pedregoso e frio. Sua economia repousa, sobretudo, no setor de serviços e no funcionalismo público. Sob essas características, Pacaraima se afirma como um espaço de existências e resistências produzidas pelo encontro dos povos Yanomami, dos Taurepang, dos Macuxi – e de diversas outras etnias -, dos militares, dos comerciantes e dos que chegam em busca de refúgio.

 

A cidade respira fronteira e talvez seja justamente nesse limiar, entre o dentro e o fora, que resida sua força mais profunda: a capacidade de re(existir), sem perder de vista o chão indígena e a montanha que a sustenta.

 

Portão de entrada da Escola Municipal Indígena Integral Ko´ way Paula Bento.
Foto: Equipe de pesquisadoras do Projeto Experiências Inspiradoras

“TRAZER A(O) ALUNA(O), EM TEMPO INTEGRAL, TEM QUE SER UMA POLÍTICA DE CULTURA”

A Rede Municipal de Ensino de Pacaraima vem se estruturando, ao longo dos últimos anos, de forma progressiva para responder aos desafios de um território de fronteira, atravessado tanto pela diversidade cultural e linguística, quanto por um intenso fluxo migratório. Sob a coordenação da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desporto (SEMECD), Pacaraima tem investido na consolidação da Educação Integral em Tempo Integral como eixo prioritário da política educacional, em conformidade com a Lei Federal nº 14.640 (Brasil, 2023) e com a Lei Municipal nº 393 (Pacaraima, 2024). Embora complexos, esses desafios buscam ser superados pela gestão.

A Rede Municipal de Educação atende a cerca de 4.000 estudantes distribuídos em 13 escolas e uma creche conveniada, abrangendo desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental. O plano de expansão da jornada escolar prevê o atendimento de 25% das(os) alunas(os) da Rede em Tempo Integral até 2030, em seis unidades escolares. O processo começou em 2025, com a Escola Municipal Integral Indígena Ko´way Paula Bento.

“A Educação Integral em Tempo Integral foi um desafio para Roraima. Já como Secretária, o Governo Federal lançou esse desafio ao Estado e aos municípios. (…) A Região Norte não é simples de lidar, nós temos grandes desafios: a educação escolar indígena é uma, a ribeirinha é outra. (…) Trazer o aluno em tempo integral tem que ser uma política de cultura, principalmente na comunidade indígena.”

Alsione Pereira de Alencar Sulbaran, Secretária Municipal de Educação

A ampliação da jornada escolar tem como meta garantir, no mínimo, sete horas diárias de atividades pedagógicas, combinando formação acadêmica, expressões culturais e práticas corporais. Nesse contexto, a proposta pedagógica da Educação Integral, em Pacaraima, é fundamentada tanto na integração entre áreas do conhecimento, quanto nos saberes tradicionais. Busca, assim, o desenvolvimento não apenas das dimensões cognitivas, mas também emocionais, físicas, sociais e culturais das crianças atendidas pela Rede Municipal de Educação. Para tanto, o currículo adotado nas escolas municipais busca dialogar com o território e valorizar a cultura local, em especial no que se refere às tradições dos povos indígenas Taurepang e Pemon.

“A Escola em Tempo Integral (ETI) é um marco importantíssimo e diferente, porque você vê o quanto a Secretaria Municipal de Educação tem respeito pelas nossas comunidades indígenas. Como o nosso município não tem uma delimitação urbana (…) quando foi iniciada a política da ETI na comunidade indígena, nós falamos que é um município 100% indígena.”[2]

Erivaldo Messias da Silva, inspetor educacional da Secretaria Municipal de Educação

Além de assegurar a permanência das crianças na escola, o Programa tem como objetivos específicos: promover hábitos saudáveis por meio da integração entre educação e esportes, garantir alimentação balanceada, estimular a prática da língua materna e das artes e fortalecer a convivência social. Para que isso ocorra, há investimento na formação das(os) professoras(es) que, em conformidade com a legislação específica, são indígenas com cursos voltados para metodologias e abordagens interculturais.

O Projeto Saberes da Floresta, Saberes da Gente, desenvolvido na Ko’way Paula Bento, sintetiza a proposta municipal ao unir conteúdos escolares e experiências culturais em torno da vida comunitária. Oficinas de arte indígena, musicalização, atividades esportivas e aulas de língua materna são outros exemplos das ações que transformam o tempo escolar em tempo de convivência e, sobretudo, de pertencimento.

Com a implementação gradual da Educação Integral em Tempo Integral, Pacaraima tece uma Rede Pública orientada pela equidade e pela valorização do território. Dessa forma, a expansão planejada, até 2030, prevê que seis escolas ofereçam o Ensino Fundamental completo em Tempo Integral, fortalecendo o compromisso do município com uma educação pública de qualidade, inclusiva e culturalmente enraizada.

Parquinho da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento.

Foto: Equipe de pesquisadoras do Projeto Experiências Inspiradoras

“A ESCOLA E A COMUNIDADE ANDAM JUNTAS”

Vista da Comunidade Indígena Sorocaima I.

Foto: Equipe de pesquisadoras do Projeto Experiências Inspiradoras

A CENA: um dia comum em que escola e aldeia são uma só

Crianças e educadoras(es) caminharam sob o sol roraimense que, àquela hora, ainda não havia tornado o percurso à pé proibitivo até a entrada da comunidade. Ao chegar no tanque – o rio não seria adequado para crianças ainda tão pequenas -, as(os) estudantes começaram a pescaria, ora com vara, ora com cesto. Um, dois… muitos peixes e bons mergulhos.

A Comunidade Indígena Sorocaima I foi fundada na década de 1960 e, hoje, é formada por cerca de 170 famílias pertencentes às etnias Taurepang ou Pemon[3] e Makuxi. Atualmente, duas escolas atendem bebês, crianças e adolescentes da comunidade, sendo uma delas a Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento, primeira instituição de Educação Integral em Tempo Integral do município de Pacaraima e cujo nome é uma homenagem à avó da liderança local, o Tuxaua Sandoval Flores.

 

Para conhecer um pouco mais sobre as comunidades localizadas na Terra Indígena São Marcos, acesse aqui.

Com o início do atendimento das crianças em tempo integral, a partir do ano de 2024, a escola passou por importantes transformações no que diz respeito à sua organização e infraestrutura. Para atendimento diário das(os) cerca de 40 estudantes, das 7h30 às 14h30, o grupo de educadoras(es) é formado pela diretora, seis professoras(es), duas auxiliares de sala, uma cuidadora, duas merendeiras e duas auxiliares de limpeza e higienização, um coletivo engajado com o trabalho desenvolvido naquele lugar.

 

O espaço conta com duas salas de aula, sendo uma delas para a Creche e outra para a Educação Infantil, uma cozinha, dois banheiros, um parquinho e toda a aldeia.

O fortalecimento da relação das crianças com a comunidade e a cultura, materializada na apropriação da língua materna, é, aliás, o sentido atribuído pelas lideranças e moradoras(es) à entrada e permanência da educação escolar naquele território, como também à ampliação da jornada escolar diária das(os) estudantes.

Caminhada conjunta que demanda um diálogo constante entre educadoras(es), famílias e Tuxaua – denominação para liderança na cultura Taurepang.

 

“A gente tem tempo suficiente para que as crianças possam aprender, de fato, o que é a vivência, a cultura dentro da comunidade. Então, a escola e a comunidade andam juntas”.

 

Orlando Alves Franco, professor da Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento

“A diretora do Departamento Indígena de Roraima sentou comigo e disse assim: ‘Por que vocês aceitaram essa escola em tempo integral? Vocês vão desmamar as crianças dos pais!’ Naquela época, nós também não tínhamos certeza se realmente queríamos isso. Aí, eu fiquei refletindo e fui falar com o Tuxaua: ´(…) Será que isso não vai, depois, deixar esse vazio desse afeto?´ Aí ele disse: ´(…) Isso aí não vai tirar afeto de ninguém, não. Ao contrário, os pais vão se sentir seguros, sabendo que, ao invés de estar, assim, brincando soltos, eles vão estudar, vão pescar… ´”

 

Tâmires Flores, diretora da Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento

Educador da Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento faz uma explicação teórica durante uma atividade de pesca.

Foto: Equipe de pesquisadoras do Projeto Experiências Inspiradoras

Além dos dilemas relacionados à institucionalização da infância indígena, a implementação da Educação Integral em Tempo Integral foi atravessada por desafios relacionados à ausência de infraestrutura potencializada, vale dizer, pela ampla adesão da comunidade à proposta e pelas incertezas que algo desconhecido costuma carregar.

 

Se, como a educadora sugere, o divino tem parte na superação das adversidades, ou no sucesso vivenciado hoje, também o tem o cotidiano trabalho de entrelaçamento de escola e comunidade, o que se materializa nas práticas cotidianas e no currículo. Conforme destaca Sandoval Pinto Flores, Tuxaua, liderança local: “Com uma educação indígena dentro da comunidade, a escola vai crescer junto com a comunidade, não deixando de lado a convivência indígena.”

“Eu já trabalhava aqui, porém não era em Tempo Integral. E aí, com essa mudança, veio aquela insegurança, porque nunca trabalhei numa Escola de Tempo Integral. Como vai ser? As crianças vão se adaptar? Nós vamos nos adaptar? (…) A comunidade recebeu bem, as crianças receberam bem e os funcionários também! Deu tudo certo, graças a Deus!”

 

Sheila Amorim Araújo, professora da Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento

“O INTEGRAL É INTEGRAR”

A adaptação das crianças ao tempo integral foi cuidadosamente acompanhada pelas(os) educadoras(es). Como acolher as crianças da Educação Infantil considerando que, a partir dos três anos de idade, elas terão uma rotina de sete horas na escola? Além de organizar uma rotina que ultrapassasse o espaço da sala de aula, a equipe pedagógica procurou promover o já mencionado “casamento” entre interculturalidade e integralidade, sob a compreensão de que “o integral não é o horário de sete horas dentro da escola”, mas o que se escolhe fazer dentro deste tempo, como destaca a diretora Tâmires Flores.

 

A partir deste entendimento, com mais tempo na escola, o currículo passou a incluir de forma mais efetiva os conhecimentos culturais da Comunidade Indígena Sorocaima I, como língua, música, danças, artesanatos e vivências, em especial, a pescaria e as visitas a artesãs(ãos) e anciãs(ãos) da comunidade.

Estudante da Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento realiza atividade de pesca.

Foto: Equipe de pesquisadoras do Projeto Experiências Inspiradoras

“Isso para que depois os pais não digam: Meu filho, que estudou integral, perdeu a língua, perdeu o costume de ir para a roça, porque ele estava dentro de uma escola.”

 

Tâmires Flores, diretora da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento

“ME GUSTA QUE MEU FILHO ESTUDE AQUI”

Na Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento, a primeira língua é a Taurepang, uma vez que a maioria da população da comunidade pertence a essa etnia. Depois, em consonância com a política municipal decorrente da imigração venezuelana, vem o Espanhol, sendo o Português a terceira língua falada naquele território. As três línguas circulam de maneira orgânica na escola, sendo objeto de ensino das(os) professores, que se comunicam, prioritariamente, em Taurepang.

As famílias relatam a importância de a escola ensinar a língua materna sob a perspectiva da recuperação de muitas raízes culturais do povo, que se perderam com o passar dos tempos.

As crianças, que vão se tornando bilíngues ou trilíngues, passam a atuar, muitas vezes, como “tradutoras(es)” para suas famílias, que, por sua vez, sentem gratidão pela iniciativa da escola e se beneficiam dessa relação intercultural.

 

“Meus filhos, os pequenos, não falam o dialeto do Taurepang. E isso foi perdido. Mas aqui, a escola abriu as portas. Eu agradeço aos professores que ensinam a falar o nosso idioma, que é o Taurepang.”

 

Yubismar Perez, mãe do estudante Angel David Daniels Peres, 6 anos, da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento

“Aqui somos espanhóis, falamos Espanhol, Português, Taurepang… Então, pra gente é bom, porque é pluralidade e é muito emocionante. Porque minha filha tem que falar três idiomas. O espanhol, que é nativo da mãe; com o pai é Taurepang; e, na escola, é Português. E ela nos ensina. Ela é nossa guia, nossa tradutora.”

Mariangela Rivilla, mãe da estudante Angela Elena Rivilla Pérez, 5 anos, da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento

“E eu me dediquei ao meu filho para que ele aprendesse a falar Português. E está falando… Ele já está aprendendo a falar Português! Eu pergunto lá em casa: ‘o que aprendeste?’ E ele me diz: ‘los colores’. Pergunto de novo: ‘que cores pensas?’ E ele fala em Português: ‘Eu ainda não sei, eu estou estudando.’ Mas ele já está aprendendo! Ele já aprende Português, graças aos professores que estão educando. E me gusta que meu filho estude aqui e que siga más adelante.”

Romel Lopez, pai do estudante Roman Antônio Lopez Castro, 4 anos, da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento

É O “RECHEIO” QUE JÁ VEM LÁ DE FORA

Na escola Ko’way, há um movimento de atenção relativo aos conhecimentos que circulam na comunidade. As(os) educadoras(es) e as lideranças não querem que o tempo integral faça com que as crianças percam as suas vivências tradicionais, que fiquem sem aprender a pescar, a fazer farinha ou manejar a roça. Assim, a busca pelo “recheio” do currículo da Educação Integral em Tempo Integral se apoia, mais uma vez, na interculturalidade e na integralidade.

Durante a semana, há momentos destinados à busca dos saberes do território (ou “recheios”) pelas crianças. Dentro ou nas proximidades da escola, são desenvolvidas as brincadeiras referenciadas na Cultura Indígena, realizadas nas atividades de Arte e Movimento, os momentos no parquinho e a realização de atividades no campo de futebol.

Há, também, as aulas de campo: às vezes, uma visita a uma anciã(ão) ou artesã(ão); outras vezes, uma visita ao Centro Cultural da comunidade ou, ainda, a prática da pescaria, já que próximo à escola há um açude utilizado pelas(os) professoras(es) para a pesca tradicional junto com as crianças. Além do ensino do manejo dos instrumentos e da tradição, a pescaria tem se configurado como um momento de convivência entre as crianças e as(os) mais velhas(os).

 

“Eles têm os conhecimentos, então, já entram aqui com eles. Quando se fala do tempo integral, é rechear os componentes curriculares e o recheio é o que vem lá de fora.”

 

Tâmires Flores, diretora da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento

Estudantes da Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento caminham para uma atividade de pesca.

Foto: Equipe de pesquisadoras do Projeto Experiências Inspiradoras

A “FARINHA DE VERDADE”

A merenda escolar é, igualmente, atravessada pela interculturalidade, cuja complexidade é revelada no conflito entre os costumes da comunidade, os gostos das crianças e as proposições do setor de nutrição do município.

Diariamente, a escola oferece café da manhã, almoço e lanche da tarde, mas, muitas vezes, as crianças não são receptivas ao cardápio previsto pelo município, demandando que as cozinheiras realizem adaptações e a própria revisão do mesmo. Aquela comunidade e outras do entorno são conhecidas pela qualidade da farinha de mandioca produzida, mas que, nem sempre, é aquela enviada para consumo, considerando as exigências do Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE). Há, por parte das crianças, mas não apenas, protestos contra a “farinha de mentirinha” que, dada a textura, “parece leite”.

Assim, com estreito diálogo com as lideranças e a comunidade, recheando o currículo com línguas, práticas culturais e espaços do território, e buscando garantir uma alimentação tradicional, a equipe pedagógica da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento cria práticas educativas que encantam as crianças e já não geram tanta desconfiança nas pessoas. As famílias tiram proveito do tempo que suas(eus) filhas(os) ficam na escola para trabalhar, na certeza que estão em segurança, sendo bem cuidados(as) e aprendendo sobre a sua cultura.

“LEVANDO AS(OS) ALUNAS(OS) PARA VIVER”

“Uva, maçã, côco, melancia, jambú, ingá, água, sorvete, parquinho, árvore, rio, cavalo, arco-íris…”: um pouco do muito que as crianças desejam ver, experimentar, vivenciar mais intensamente na Ko’way Paula Bento. Pistas, portanto, a serem perseguidas na caminhada de educação ou criação dessas(es) estudantes que, embora esteja mais aprazível do que no início, permanece inspirando cuidados. Afinal, além da escola, cujo amansamento tem demandado vigilância e esforços, a serpente transportaria aquilo que nem sequer era conhecido, à época por, Mário Roberto Flores.

 

“A internet chegou já tem dois anos. (…) Antes, na verdade, o maior medo foi ao chegar a energia, há três ou quatro anos. (…) Primeiro, ligavam só à noite, mas quando chegou a de 24 horas, todos os pais tiveram medo. Inclusive, até hoje, eles não aceitaram a pracinha. (…) A gente ainda está articulando se, realmente, quer essa praça, essa quadra. Tem seus benefícios, mas como é que vão ficar as crianças? Vão querer morar no campo, jogando futebol à noite?”

 

Tâmires Flores, diretora da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento

 

“Em relação ao que pode ser levado, é a vivência na prática. Tem muita teoria, mas o professor, realmente, tem medo de colocar o aluno para viver. Então, outras escolas podem estar fazendo isso também: levando os alunos para viver. Porque a criança vai aprender muito mais na prática, do que apenas em sala de aula.”

 

Osvaldo Pinto Flores, pai do estudante Adailson Marino Pinto Rodriguez, 4 anos, da Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento

Assim, se os históricos desafios da desigual interação intercultural, no que diz respeito à educação das novas gerações, se atualizam na Comunidade Sorocaima I, com a chegada da energia elétrica e da internet, também ali tecnologias ancestrais comparecem como uma inspiração para escolas das florestas, do campo, dos quilombos e, claro, das cidades, que seguem enfrentando, ainda que resguardadas as devidas proporções, dilemas semelhantes: a articulação entre educação e vida.

 

A Escola Municipal Indígena Integral Ko´way Paula Bento inspira, portanto, a construção de uma Educação Integral e de Tempo Integral profundamente comprometida com as pessoas e a cultura na qual se insere. Um compromisso que deve estar materializado no currículo formal e naquilo que é praticado.

EXPLICAÇÕES CITADAS NO TEXTO:

  1. Em tradução livre: Vovó Paula Bento.
  2. A ocupação desta terra está, segundo interlocutores locais, em apreciação pelo Supremo Tribunal Federal.
  3. Denominação atribuída a um mesmo povo, respectivamente, no Brasil e na Venezuela.

Aluno da Escola Municipal Indígena Integral Ko’way Paula Bento realizando atividade de pesca.
Foto: Equipe de pesquisadoras do Projeto Experiências Inspiradoras

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 14.640, de 31 de julho de 2023. Institui o Programa Escola em Tempo Integral; altera a Lei n.º 11.273, de 6 de fevereiro de 2006, a Lei n.º 13.415, de 16 de fevereiro de 2017, e a Lei n.º 14.172, de 10 de junho de 2021. Brasília: Presidência da República, [2023].

 

PACARAIMA. Lei nº 393, de 1º de julho de 2024. Dispõe sobre a criação da Escola Municipal Indígena Integral Ko’Way Paula Bento, na Comunidade Indígena Sorocaima I, e dá outras providências. Pacaraima: Prefeitura Municipal, [2024].

 

XAKRIABÁ, Célia. Amansar o giz. Piseagrama, Belo Horizonte, n. 14, p. 110- 117, 2020.

SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE PACARAIMA:

Instagram: @semecd_pacaraima