
Por Aparecida Luzia Alzira Zuin, Felipe de Almeida Alvarenga, Gerusa Vidal, Raimunda Lucineide Gonçalves Pinheiro e Luciene Maria da Silva

Entre rios, escolas e saberes, a Amazônia reinventa o tempo de aprender e o sentido de pertencer.
Na Escola Indígena – Aldeia Mapuéra, as(os) alunas(os) aprendem, com as(os) mestras(es) da comunidade, saberes e tradições do povo.
Foto: Valney Wai-Wai
O Programa Municipal de Educação Integral no Contraturno (PMEIC) de Oriximiná, município localizado no Estado do Pará, constitui-se como uma política pública estruturante, que reafirma o compromisso da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) com o direito de crianças, adolescentes e jovens a uma formação integral, diversa e ancorada no território amazônico. Criado em 2022, o Programa nasceu da necessidade de consolidar, no âmbito municipal, uma proposta de tempo integral inspirada nas práticas do antigo Programa Mais Educação, ressignificando seus fundamentos e adaptando-os às realidades locais.
Atualmente, o PMEIC abrange 50 escolas da Rede Municipal — urbanas, rurais, quilombolas, ribeirinhas e indígenas —, envolvendo, aproximadamente, 5 mil estudantes em 250 turmas e cerca de 200 educadoras(es) e profissionais da educação. Sua implementação representa um marco na política educacional de Oriximiná, ao integrar o tempo, o espaço e o currículo à vida concreta do território, fortalecendo os laços entre escola, comunidade e natureza. Ao mesmo passo em que amplia o tempo educativo, o PMEIC também expande o sentido da escola pública como espaço de pertencimento, cidadania e criação coletiva.

À sombra da “Árvore da Leitura”, estudantes da Escola Municipal Professor Assunção transformam o pátio em um espaço onde floresce o gosto pela leitura, revelando a escola como lugar de imaginação e cidadania.
Foto: Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná (SEMED)
A iniciativa está alinhada às diretrizes da Lei nº 14.640 (Brasil, 2023), que institui o Programa Escola em Tempo Integral (PETI), e às Leis nº 10.639 (Brasil, 2003) e nº 11.645 (Brasil, 2008), e ao Plano Municipal de Educação (Oriximiná, 2015).
AS DIRETRIZES DO PMEIC ESTÃO ORGANIZADAS EM TRÊS PILARES
- Integração do tempo e do território: a escola amplia sua jornada e expande seus espaços de aprendizagem para praças, feiras, portos, aldeias e quilombos, reconhecendo a cidade como território educativo.
- Gestão democrática e participação social: conselhos escolares, famílias e comunidades participam das decisões, fortalecendo o pertencimento e a corresponsabilidade.
- Currículo vivo e contextualizado: o conhecimento nasce da experiência e retorna ao território em forma de transformação social, dialogando com os saberes tradicionais, ambientais e culturais.

O MITO E O TERRITÓRIO:
O ZANGÃO QUE ENSINA A VOAR
O mito indígena de Oriximiná, o “zangão marido da abelha”, não fala do zangão biológico literal, mas da relação sagrada entre o masculino e o feminino, entre o movimento e a criação, entre a energia e a fecundação da vida.
Conhecer o PMEIC de Oriximiná é adentrar uma história em que mito, território e educação se entrelaçam. Segundo a tradição, o nome Oriximiná tem origem no mito do zangão esposo da abelha, que cruzava rios não para colher pólen, mas para buscar sentido — um voo de entrega, não de posse. Dessa imagem, nasceu a palavra que hoje nomeia a cidade, um povo e um modo singular de aprender. Em Oriximiná, o território ensina: os rios tornam-se caminhos, as árvores são mestras silenciosas e o povoado é uma escola viva. Educar, nesse contexto, é expressar um gesto de vida, um modo de existir em comunhão com o mundo.
Inspirado na concepção de educação como prática viva e integrada ao território, o Programa Municipal de Educação Integral no Contraturno (PMEIC) emergiu do encontro entre saberes e lugares — entre cidade, rios, aldeias, quilombos e zonas rurais. O Programa se orienta pelo propósito de consolidar uma escola que ensina a voar, articulando-se a uma rede intersetorial composta por instituições culturais, associações comunitárias, organizações indígenas e quilombolas, além das Secretarias Municipais de Cultura, Esporte, Agricultura e Assistência Social. Essa teia de cooperação amplia o impacto do PMEIC e transforma a educação em vetor estratégico de desenvolvimento local e de fortalecimento da cidadania.
As formações continuadas e os circuitos pedagógicos, realizados de forma itinerante nas zonas urbana e rural, fortalecem a autonomia das escolas, a valorização das(os) educadoras(es) e a consolidação da Política Municipal de Educação Integral, assegurando coerência entre princípios, práticas e resultados.
Nas escolas de Oriximiná, professoras(es), educadoras(es), estudantes, famílias e comunidades transformam a rotina em descoberta e o desafio em criação. Cada aula representa um voo partilhado e, nessa colmeia de experiências, a Educação Integral ganha forma, sentido e identidade amazônica.
Assim como o zangão do mito, a Educação Integral manifesta um ato de inteireza: participar da vida comum, fecundar sonhos, despertar possibilidades e sustentar o movimento que contribui para futuros mais justos, criativos e harmoniosos.

Alunas(os) da Escola Municipal São Sebastião – Comunidade Salgado plantam uma árvore e aprendem sobre a importância da conservação ambiental e da sustentabilidade.
Foto: Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná (SEMED)

O TERRITÓRIO É HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E ENTRELAÇAMENTOS
Oriximiná é um território histórico-educativo. A presença indígena milenar antecede a colonização e sustenta modos próprios de aprender e viver. Desde 1815, quilombos se uniram aos povos indígenas, formaram territórios nas bacias dos rios Trombetas e Erepecurú e criaram redes de resistência nas chamadas “águas bravas”. Dessas travessias, nasceram comunidades que ainda hoje preservam a memória da luta e do saber, como Cachoeira Porteira, onde o currículo se liga ao território, à ancestralidade e aos direitos.
Localizada no coração verde da Amazônia, Oriximiná é um espaço em que o som das águas embala os dias e a educação floresce como semente guardada na terra úmida. A Prefeitura Municipal e as escolas mantêm viva essa memória, registrando suas experiências para que o tempo não as leve. Nesse cenário, o PMEIC transforma a cidade, as aldeias, os quilombos, o campo e a orla do Trombetas em territórios educativos.
O currículo, nesse contexto, sai da sala de aula e percorre os portos, as feiras e as praças; visita as aldeias para ouvir línguas e saberes ancestrais; dialoga com os quilombos sobre memória, trabalho e direitos; segue pelas estradas vicinais para compreender a ciência do campo e chega à orla para ler as marés, os fluxos e os mapas do rio
— em um aprendizado que nasce da convivência com a natureza e com a comunidade.
Aprender, em Oriximiná, é um movimento que pulsa nas ruas, nos bairros, nos roçados, nas cozinhas comunitárias, nas trilhas, nas festas, nas embarcações e nas rodas de histórias. O conteúdo escolar encontra o conteúdo da vida: estudantes reconhecem que o conhecimento habita as pessoas, os lugares e as práticas cotidianas. A escola, ao registrar e partilhar essas experiências, fortalece o sentimento de pertencimento, preserva a memória coletiva e projeta futuros possíveis.
Para sustentar essa “escola-colmeia”, foi adotada uma gestão democrática e participativa, com o Conselho Escolar atuante, formado por famílias, estudantes, educadoras(es) e representantes comunitárias(os). A Secretaria Municipal de Educação promove escutas pedagógicas e articula comissões temáticas que envolvem Cultura, Esporte, Leitura, Merenda e Meio Ambiente. O calendário pedagógico dialoga com os tempos do território: as cheias e vazantes dos rios, os períodos de colheita e os eventos comunitários. Decidir em conjunto gera pertencimento, reduz evasão e alinha o planejamento escolar às condições reais do espaço urbano-ribeirinho, quilombola, rural e indígena.

Entre o brilho do sol nas águas do Alto Rio Trombetas e a força da cultura quilombola, a Escola Municipal Tancredo Neves – Comunidade Quilombola revela que aprender também é fazer parte de um território de resistência.
Foto: Renata Cordeiro dos Santos
TROMBETAS: O RIO QUE ENSINA
O rio é o coração de Oriximiná. Chama-se Trombetas e suas águas azuladas concedem à cidade o título honroso de Princesa do Rio Trombetas. Às suas margens, a vida se organiza, a cidade cresce e se reconhece no espelho líquido que reflete sua história e identidade. Nascido no Escudo das Guianas e afluente do Amazonas, o Trombetas desce imponente, ora navegável, ora em corredeiras, formando um vasto laboratório vivo para o estudo da geografia, da história local e da Cultura Ribeirinha e Indígena.
Esse mesmo rio inspirou o surgimento do Museu da Escola Municipal de Ensino Fundamental Santa Maria Goretti, um espaço de memória e aprendizado criado no interior da escola. O museu nasce da compreensão de que o território é fonte de conhecimento e que preservar a história local é também educar para o pertencimento.
A professora de Artes, Socorro Monteiro, carinhosamente conhecida como “Help Baranda” — nome que evoca raízes familiares e vínculo afetivo com Oriximiná — idealizou e coordena o Projeto. Com sensibilidade e dedicação, planejou, limpou o espaço e restaurou objetos históricos até ver o museu tomar forma. Desde 2012, o espaço permanece vivo e atuante, integrando memória e educação.
O Projeto nasceu de uma vontade simples, mas profunda: guardar a história que começou com o rio e os povos indígenas para que as novas gerações a conheçam e a valorizem. A professora relata que o museu foi construído com a colaboração da comunidade escolar, que doou peças, documentos e fotografias, transformando o acervo em expressão coletiva da identidade local. O museu se tornou ponto de encontro entre passado e futuro, escola e território, tradição e inovação.

TERRITÓRIOS DA APRENDIZAGEM
Em Oriximiná, a aprendizagem dialoga diretamente com o território, expressando-se no ritmo do tambor, no aroma da floresta, no sabor do vatapá e no brilho das águas do rio Trombetas. Por meio dos itinerários formativos do PMEIC, a escola estabelece uma conexão viva com a cidade, que, por sua vez, devolve à instituição sua história e seus saberes.
Essa integração manifesta-se em diversas áreas curriculares:
- Linguagens: inclui a leitura de placas e mapas urbanos, bilhetes, cartazes públicos e a utilização da orla revitalizada como espaço de cultura e convivência;
- Matemática: trabalha com medidas no porto, preços na feira e estimativas de fluxo e consumo;
- Ciências e Geografia: estuda a qualidade da água, a vegetação urbana, o clima e o fenômeno das marés;
- História e Cultura: promove a valorização do trabalho no cais, das narrativas de antigos barqueiros, das festas e dos ofícios tradicionais.
“O PMEIC uniu sonho e responsabilidade, mostrando que é possível transformar desejo em ação concreta. Essa síntese de compromisso técnico e sensibilidade humana traduz o espírito da Política Pública de Educação Integral construída em Oriximiná.”
Iolene Castro Martins, diretora administrativa da Secretaria de Educação [SEMED] e presidenta do Conselho Municipal de Educação [COMEO]

Essa forma de educar, ao mesmo tempo inovadora e profundamente enraizada, possui um histórico na Rede Municipal. O PMEIC nasce do legado do Programa Mais Educação, instituído em 2007 e implementado em Oriximiná a partir de 2008. Mesmo com a descontinuidade da política em âmbito federal, o município manteve vivos seus princípios, transformando-os em uma Política Pública municipal estruturada, com norma própria, parcerias comunitárias e adequação curricular aos diversos territórios — urbano, quilombola, ribeirinho e indígena.
Essa continuidade assegurou identidade territorial, sustentabilidade pedagógica e resultados concretos na aprendizagem. Conforme relata Luciene Maria da Silva, articuladora da Educação Integral e representante da Rede Nacional de Articulação de Gestão e Mobilização do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (RENALFA), o Programa foi construído coletivamente, com a participação ativa de escolas, comunidades e instituições locais, como academias, associações, feiras e o porto da cidade. Tal mobilização fortaleceu os vínculos entre escola e território, convertendo cada espaço comunitário em uma extensão do currículo.
Nas escolas planaltinas, ribeirinhas, quilombolas e indígenas, as aulas se desenvolvem em diálogo permanente com o ambiente: o canto dos pássaros, o som das águas e as histórias de quem vive do e no rio tornam-se parte do processo educativo. Dessa maneira, o PMEIC transforma o tempo escolar em tempo social, reforçando a integração entre a escola e a vida comunitária.
“O Programa representa a retomada do sentido da escola e do prazer de aprender. É feito com o coração e com os pés no chão.”
Luciene Maria da Silva, articuladora da Educação Integral e da Rede Nacional de Articulação de Gestão e Mobilização do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada [RENALFA]

No cardápio da Escola Nova Betel, está presente a galinha caipira, incentivando a agricultura familiar local.
Foto: Osmael Barbosa da Silva
O currículo também incorpora práticas ribeirinhas e amazônicas, como a leitura das marés, o registro dos sons do rio Trombetas, a observação dos ciclos das águas e o reconhecimento das festas e tradições locais como valiosas expressões de conhecimento e identidade. O Círio de Santo Antônio, por exemplo, é festividade por todos os cantos: na escola e na cidade, atrai fieis de várias partes da região para este lugar encantado do zangão.
A coordenação do PMEIC, por sua vez, estruturou uma rede de confiança e escuta, na qual gestores(as), técnicas(os) e educadoras(es) constroem uma iniciativa essencialmente humana. Nesse modelo, cada decisão surge da realidade das escolas, e cada formação se converte em convite à partilha, à criação conjunta e à esperança de uma educação melhor.
“Em 2021, começamos com um papel em branco; hoje, ver as escolas cheias de vida é o maior presente.”
Laíse Siqueira, coordenadora da Seção de Programas e Projetos Educacionais da SEMED

“No processo de reconstrução administrativa foram noites dedicadas a equilibrar orçamento e sonhos, aprendendo a traduzir números em esperanças.” Iara Paulino, diretora técnica
No início de 2024, o coordenador geral do PMEIC, Felipe Alvarenga, realizou um circuito de visitas pedagógicas às escolas da área rural, com o objetivo de dialogar com as equipes, mapear demandas e fortalecer os vínculos formativos. Essas visitas confirmaram que a Educação Integral em Oriximiná é edificada no encontro entre pessoas, lugares e histórias — um processo coletivo que articula formação docente, protagonismo comunitário e valorização dos saberes locais.
O PMEIC tornou-se, assim, uma representação viva das dimensões da Educação Integral: um programa que transforma distâncias em pontes de solidariedade e cooperação, conectando escolas e comunidades em uma mesma travessia educativa pela Amazônia.
Nas escolas rurais, quilombolas e indígenas, a política assume formas situadas e culturalmente enraizadas: no campo, respeita os tempos da roça e da colheita; nos quilombos, valoriza a memória coletiva, as práticas culturais e a culinária tradicional; e nas comunidades indígenas, integra línguas maternas, manejo ambiental e cosmologias aos processos pedagógicos de linguagem, ciências e artes.
Em todas essas realidades, a gestão democrática e participativa — sustentada por Conselhos Escolares, escutas com famílias e parcerias locais — assegura que o currículo nasça do território e retorne a ele como ação transformadora, consolidando a escola como um espaço integral de desenvolvimento humano, social e cultural.
“O programa reacendeu o desejo de aprender, devolveu o brilho à escola, entusiasmo às crianças e orgulho à comunidade.”
Ivana Maria Pereira de Souza, Secretária Municipal de Educação
“Em muitas comunidades, crianças viajam horas de barco para chegar à escola e permanecem. A escola tornou-se lugar de viver, e não apenas de estudar.”
Regiane Ferreira, diretora de Educação Básica da Área Rural da Secretaria Municipal de Educação

Estudantes da Escola Municipal Nova Esperança realizam coleta seletiva no Lago do Iripixi, unindo educação ambiental, cuidado coletivo e aprendizagem no território.
Foto: Diego Souza
EXPERIÊNCIAS INSPIRADORAS: ESCOLAS QUE SINTETIZAM O VOO DO ZANGÃO
ESCOLA MUNICIPAL NOVA BETEL: A ESCOLA QUE APRENDE COM O TERRITÓRIO
Na zona rural de Oriximiná, a Escola Municipal Nova Betel é um exemplo concreto de como a Educação Integral se materializa em práticas pedagógicas contextualizadas e transformadoras. Revitalizado e fortalecido pelo Programa Municipal de Educação Integral no Contraturno (PMEIC), o espaço consolidou-se como um ambiente de acolhimento, participação comunitária e pertencimento. Nesta escola, o Programa cumpre o seu papel no campo: proteger a infância rural, valorizar a cultura local e promover o desenvolvimento integral das crianças.

“A escola transcende a infraestrutura reformada, sendo um ponto de encontro e aprendizado coletivo, onde as famílias participam ativamente da vida escolar. O estudo agora é diferente. Elas retornam para casa comentando sobre música, esportes e leitura, vivências que ampliaram suas experiências culturais e emocionais.”
Antônio Anderson da Silva Andrade, ex-aluno e pai da estudante Ághata Luíza, de 6 anos, do Pré II da Educação Infantil e da estudante Yzis Kathariny, de 9 anos, do 4º ano do Ensino Fundamental
Na Nova Betel, a vida cotidiana — marcada pela produção de goma de tapioca, pelo artesanato e pelas dinâmicas da agricultura familiar — é reconhecida como fonte legítima de saber e de construção curricular. Assim, essas práticas inspiram experiências de aprendizagem que unem o conhecimento científico ao saber tradicional, fortalecendo o vínculo com o território.
Com o apoio do PMEIC, a escola conseguiu ampliar o tempo de permanência das crianças, organizar rotinas pedagógicas mais consistentes e aproximar o currículo da realidade local. A leitura, a Matemática e as Ciências passaram, então, a dialogar diretamente com os contextos da produção familiar, das feiras e dos saberes do campo.
A alimentação escolar, integrada a esse processo, assumiu um caráter pedagógico. O café da manhã e o almoço reforçado, elaborados com produtos regionais e provenientes da agricultura local, garantem nutrição adequada, segurança alimentar e estabilidade às famílias, contribuindo diretamente para a frequência e o desempenho escolar.
No coração da escola, a horta escolar transformou-se em uma sala de aula viva e interdisciplinar, na qual o aprendizado ultrapassa os livros e se conecta diretamente à natureza. Entre canteiros de legumes, hortaliças e ervas medicinais, as crianças observam o ciclo da vida, compreendem o valor da alimentação saudável e resgatam saberes transmitidos entre gerações.
Cada planta cultivada se converte em conteúdo pedagógico: a Matemática mede o crescimento; as Ciências explicam o solo; a Língua Portuguesa registra o processo em diários de campo; e a História reconecta o presente aos modos de vida do campo e das comunidades ribeirinhas. A horta consolidou-se, portanto, como símbolo da integração entre sustentabilidade, cidadania e aprendizagem.
“Vejo nos olhos das crianças o brilho da autoconfiança renovada. O programa devolveu às infâncias o prazer de aprender e o sentimento de pertencimento.”
Adenil Albuquerque, diretora de Educação Básica da Área Urbana da Secretaria Municipal de Educação

ESCOLA MUNICIPAL MARIA DE QUEIROZ DE SOUZA: ESCUTA, CORRESPONSABILIDADE E COOPERAÇÃO

Na Escola Municipal Maria Queiroz de Souza, os(as) estudantes exploram ritmos e sons em atividades de iniciação musical, desenvolvendo atenção, coordenação e sensibilidade artística.
Foto: Aparecida L. A. Zuin
Localizada em um território urbano marcado pela diversidade cultural e pela intensa vida comunitária, a escola é uma das expressões significativas do Programa Municipal de Educação Integral no Contraturno (PMEIC), em Oriximiná. Consolidou-se como referência de gestão democrática, inovação pedagógica e integração entre currículo, arte, corpo e alimentação saudável.
O espaço escolar foi reorganizado para acolher múltiplas linguagens e experiências formativas, reconhecendo a arte, a cultura, o esporte e a sustentabilidade como dimensões essenciais da aprendizagem integral. A gestão pauta-se na escuta, na corresponsabilidade e na cooperação entre professoras(es), estudantes e famílias, princípios que fortalecem vínculos e asseguram o pertencimento, com projetos integradores que compõem a vida da escola.
- O som das letras: a metodologia aproxima a leitura e a escrita do universo sonoro das crianças. As palavras tornam-se melodias; os fonemas, ritmos; e o território, repertório. As placas das ruas, as cantigas de roda e o som da feira se transformam em textos vivos de alfabetização e pertencimento. O canto, o ritmo e a escrita se entrelaçam, tornando cada descoberta uma experiência de criação e de pertencimento.
- Ballet na pontinha dos pés: a dança é incorporada ao currículo como linguagem pedagógica de expressão e equilíbrio, integrando movimento, ritmo, coordenação e consciência corporal.
- Jiu-jítsu na escola: a iniciativa, desenvolvida em parceria com uma academia local, exemplifica a força do esporte como prática educativa e formativa. No tatame, meninas e meninos treinam juntas(os), aprendendo autocontrole, empatia, disciplina e mediação de conflitos.
- Educação alimentar e segurança nutricional: o programa de quatro refeições diárias — café da manhã, lanche, almoço e reforço da tarde — é uma estratégia pedagógica e de equidade social, que garante às crianças energia, nutrição e bem-estar. O cardápio escolar, elaborado com produtos da agricultura familiar local, respeita os ciclos da terra e das águas, fortalecendo a economia comunitária. As(os) profissionais da alimentação escolar são reconhecidas(os) como educadoras(es) da cultura alimentar, guardiãs(ões) de receitas e tradições.
Essas experiências, que articulam saberes da arte, da música, do esporte e da alimentação saudável transformam o cotidiano em matéria viva de aprendizagem. Como resultados, há maior engajamento estudantil, autoestima elevada, fluência leitora ampliada e maior participação das famílias. A avaliação formativa fecha o ciclo de aprendizagem, valorizando protagonismo, colaboração e responsabilidade social.
Como modelo de gestão para a Educação Integral, a Escola Municipal Maria de Queiroz de Souza evidencia cinco estratégicas: acolhimento como política – escuta e cuidado como práticas institucionais; territorialização do currículo – cidade e rio como fontes de conteúdo; integração de linguagens – dança, música, leitura, esporte e alimentação saudável; inclusão efetiva – ações consistentes para diferentes perfis e realidades; parcerias comunitárias – articulação com academias, feiras, associações e agricultura familiar.

ESCOLA PROFESSORA IRACEMA GIVONI: INOVAÇÃO E PROTAGONISMO NA EDUCAÇÃO INTEGRAL
Por meio de suas práticas pedagógicas, como o PMEIC, a escola impulsiona a autonomia, a criatividade e a responsabilidade social com iniciativas inovadoras e integradoras.
- Bom de escola, bom de bike: a iniciativa estimula o uso da bicicleta como meio de transporte sustentável e educativo. Por meio dessa prática, crianças e adolescentes desenvolvem noções de mobilidade urbana, segurança no trânsito e responsabilidade coletiva.
- Xeque-mate: utiliza o xadrez como ferramenta essencial para o desenvolvimento cognitivo e social. As partidas ampliam a capacidade de planejamento, concentração e tomada de decisão, estimulando o raciocínio lógico e a criatividade das(os) estudantes.
- Vozes da escola: transforma o espaço escolar em um palco de expressão e protagonismo estudantil. Com o canto coral e com as atividades de musicalização, as(os) estudantes exercitam a escuta, a sensibilidade e o trabalho coletivo, desenvolvendo a autoconfiança e a capacidade de comunicação.

Desenho da aluna Jorlyane da
Silva, do 6º ano da Escola Nova Betel. A aluna representa, em traços simples e cores vivas, a vida em harmonia com a natureza: o rio, a pesca, as árvores e o cotidiano amazônico.
Foto: Gerusa Vidal
POR UMA EDUCAÇÃO QUE ENSINE A VOAR
O Programa Municipal de Educação Integral no Contraturno (PMEIC) consolidou a Educação Integral em Oriximiná como um modo de existir, no qual o currículo se territorializa. O rio Trombetas, as feiras e as praças tornaram-se extensões do aprendizado, estabelecendo um ciclo virtuoso: a escola aprende com o território, e o território, com a escola.
Os resultados dessa integração são concretos e visíveis: maior permanência estudantil, melhoria do desempenho escolar, elevação da autoestima e fortalecimento da identidade amazônica. O PMEIC, que deixou de ser um iniciativa para se tornar um modo de existir, espalhou-se como um rio em época de cheia, por toda a Rede, transformando o chão batido em território vivo de aprendizagem. Nos pátios, a Ciência, o Esporte e a Arte se entrelaçam em uma rede de experiências que fazem a escola pulsar como um organismo vivo.
O Programa é o emblema de um tempo em que Oriximiná converteu desafios em pontes de solidariedade, unindo escolas e comunidades em uma mesma travessia educativa. Assim, entre o som dos remos, a chuva que renova a floresta e o riso das crianças, o PMEIC continua a fluir — como o zangão do mito, que ensina a voar. É o horizonte que se amplia, sem perder a essência: Oriximiná na Amazônia, em travessia viva.

Estudantes da Escola Municipal Santa Maria Goretti vistam o museu da escola, para um mergulho na história, na cultura e nas memórias.
Foto: Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná (SEMED)

REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro- Brasileira”, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, [2003]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm. Acesso em: 17 dez. 2025.
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília: Presidência da República, [2008]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm. Acesso em: 17 dez. 2025.
BRASIL. Lei nº 14.640, de 31 de julho de 2023. Institui o Programa Escola em Tempo Integral; e altera a Lei nº 11.273, de 6 de fevereiro de 2006, a Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017, e a Lei nº 14.172, de 10 de junho de 2021. Brasília: Presidência da República, [2023]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/Lei/L14640.htm Acesso em: 17 dez. 2025.
ORIXIMINÁ. Lei Municipal nº 8.764, de 24 de junho de 2015. Aprova o Plano Municipal de Educação (PME) para o decênio 2015-2025. Oriximiná: Câmara Municipal, [2015]. Disponível em: https://www.cmoriximina.pa.gov.br/leis/193 Acesso em: 22 dez. 2025.
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ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:
EMEF Iracema Givoni
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EMEF Maria Queiroz de Souza
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EMEF Nova Betel
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EMEF Santa Maria Gorethe / Museu Samago
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ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:
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