Por Amanda Carvalho, Dayane Holanda de Sousa, Iolene M. Lobato, Jamilla Salviano da Silva e Lucinha Alvarez

Mais do que seus espaços, a Escola da Terra é, sobretudo, um modo de ser e de ensinar. A natureza é seu livro aberto e as(os) alunas(os) são autoras(es) de suas próprias descobertas.

Sala de aula aberta, às margens da floresta da Escola da Terra.

Foto: Iolene Lobato

 

Entrada da Escola da Terra, em Cidade Ocidental (GO), em outubro de 2025.

Foto: Lucinha Alvarez

A Escola Municipal da Terra Professor Nicandro Hosano Batista, que aderiu ao Programa Escola em Tempo Integral, em 2025, tem como eixo formativo o Meio Ambiente. A experiência narra como o direito à educação é assegurado a crianças e adolescentes que fazem parte do Programa Escola da Terra, por meio de experiências sensíveis, carregadas de cheiros e sabores, que ajudam a desenhar e construir um projeto emancipador, em um território educativo limitado por uma cerca física, mas alargado por sonhos e potencialmente inspirado por forças sustentáveis.

A ESCOLA DA TERRA

No coração do Cerrado goiano, onde o vento sopra com cheiro de mato molhado e o canto dos pássaros se mistura ao barulho das folhas, nasceu uma escola diferente de todas as outras. A Escola Municipal da Terra Professor Nicandro Hosano Batista, localizada na Fazenda Garapa, a 24 quilômetros do centro de Cidade Ocidental, em Goiás, é mais do que um espaço de ensino — é um pedaço vivo da natureza que educa.

Sua história começa em silêncio, como as sementes que dormem sob o solo à espera da chuva. Por muito tempo, o lugar abrigou uma pequena escola multigraduada – onde estudantes de diferentes séries estudam em uma única sala, com a orientação de uma(um) professora(or) -, na qual gerações de crianças da zona rural aprendiam as primeiras letras entre o cheiro de terra e o barulho distante do córrego. Em 2017, as aulas cessaram. As portas se fecharam e, por um breve instante, a escola pareceu adormecer. Mas o Cerrado tem seus próprios ritmos e nada nele morre de verdade. Tudo se transforma, renasce e brota de novo.

Foi assim que, em 6 de novembro de 2018, o espaço voltou à vida. A antiga escola reabriu os olhos para o futuro, agora com uma missão renovada: tornar-se uma Escola de Educação Ambiental, um lugar onde aprender e preservar caminham lado a lado. Sob a gestão da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Cidade Ocidental, a Escola da Terra surgiu como uma resposta às urgências do nosso tempo: um chamado para cuidar, compreender e reconectar-se com o planeta.

Desde então, o som das vozes das(os) estudantes voltou a ecoar entre as árvores, e o chão da Fazenda Garapa transformou-se em laboratório vivo de aprendizado.

 

Cada canto da escola guarda um propósito. A Trilha na Mata convida à observação e ao respeito pela biodiversidade do Cerrado. O Sistema de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS) ensina, na prática, que sustentabilidade é fruto do equilíbrio entre cultivo e cuidado. O Meliponário, com suas pequenas abelhas sem ferrão, mostra a delicadeza e a importância dos seres que sustentam a vida. No Museu da Escola, o passado e o presente se encontram: exemplares da fauna local convivem com objetos antigos, despertando reflexões sobre o tempo, o consumo e o descarte.

“(…) A Escola da Terra, para nós, não era uma escola igual a qualquer outra. Era uma forma de provar que a Escola da Terra mudava pessoas. E era uma escola que o professor tinha vontade de ficar mais na sala de aula e o aluno não queria ir embora. Imagina, a escola dos sonhos, a gente ser professor e não querer ir embora da sala de aula? Que perfeição, era a escola do futuro, que enche o sonho. Aí, pensamos num Projeto dentro do Projeto e surgiu o Guardiões da Terra, para ficar na escola no contraturno e aprender a prática de Educação Ambiental, sobre alimentação saudável, sobre ecologia. E, a partir daí, surgiram os Guardiões da Terra, um celeiro de lideranças.”

Josiel Gonçalves Barbosa, um dos idealizadores do Projeto Escola da Terra

A pedagogia da escola não se encerra nas paredes, porque o aprendizado acontece a céu aberto, em meio à poeira, ao sol e à vida pulsante que habita o Cerrado. Ali, cada árvore vira docente, cada inseto é uma aula, cada sombra carrega um ensinamento.

Inspirada em uma metodologia ativa e participativa, a escola valoriza a aprendizagem pela experiência. As trilhas ecológicas, as oficinas de reciclagem, os caminhos sensoriais e as aulas de campo transformam o conhecimento em vivência. Aqui, aluna(o) não é espectadora(or), mas agente e guardiã(o) em formação.

E é desse espírito que nasce o Projeto Guardiões da Terra, que, a partir de 2025, ganha uma nova dimensão com o Ensino Integral, garantindo a todas(os) as(os) estudantes um acompanhamento mais completo, humano e transformador.

OS GUARDIÕES DA TERRA

O Projeto Guardiões da Terra surgiu em 2019, com a visita de estudantes que desejavam colocar, literalmente, a mão na terra, à Escola da Terra. A partir dessa realidade, as educadoras Jamilla Salviano da Silva e Dayana Holanda de Sousa sentiram a necessidade de eleger uma turma fixa para estudar na unidade escolar, pois, até então, a escola era um lugar visitado semanalmente por outras escolas, que conheciam o espaço, aprendiam a cuidar da terra e das plantas e tinham contato com noções de sustentabilidade.

Foi então que surgiu o Projeto, inicialmente intitulado Guardiões do Cerrado, formado por estudantes que aprenderam sobre e cuidaram do bioma do Cerrado. Paulatinamente, nasceu também, na escola, o Museu do Cerrado, como um lugar formativo que reúne sua biodiversidade. Logo, surgiram as trilhas, nos arredores da escola, como forma de educar e fortalecer o conhecimento sobre os animais e as plantas do Cerrado. Assim, quando as(os) estudantes encontravam, por exemplo, um animal morto, o recolhiam e levavam para o museu, ocasião em que aprendiam tudo sobre o referido animal.

Com o tempo, o Projeto teve seu nome alterado para Guardiões da Natureza e, em seguida, para Guardiões da Terra, nome que carrega atualmente. De 2019 a 2023, três vezes por semana, o projeto atendeu estudantes do 7º ao 9º ano, oriundas(os) de uma escola municipal da Cidade Ocidental. Em 2025, contabilizando um total de 102 vagas, o projeto passou a atender, em período integral (35 horas semanais), também estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental.

Meliponário Flor de Mel na Escola da Terra.

Foto: Iolene Lobato

OBJETIVOS DO PROJETO GUARDIÕES DA TERRA

  • Formar estudantes protagonistas, corresponsáveis pelo espaço comum e capazes de levar para casa e para a cidade, práticas sustentáveis;
  • Nutrir pertencimento ao Cerrado, não como cenário, mas como casa;
  • Ampliar a proficiência leitora e a resolução de problemas;
  • Fortalecer autonomia, cooperação e responsabilidade;
  • Articular teoria e prática em projetos ambientais.

Antes da adesão ao Programa Escola em Tempo Integral, as(os) Guardiãs e Guardiões da Terra tinham uma carreira gradual na escola, na medida em que se desenvolviam, ganhavam medalhas pelos feitos prestados, como uma forma de motivá-las(os) no projeto, bem próximo do movimento de escoteiras(os). Atualmente, isso não existe. Todas(os) têm o título de Guardiãs e Guardiões da Terra e desempenham a mesma função, que é cuidar, proteger e defender o meio ambiente, e os saberes apreendidos devem ser ensinados a outras pessoas.

As(os) estudantes são protagonistas no Projeto e, com isso, se sentem motivadas(os), pertencentes, valorizadas(os), se enxergam como sujeitas(os). São elas(es) quem sugerem, fazem proposta, constroem, ficam atentas(os) a tudo que é ensinado pelas(os) educadoras(es), seja nas trilhas, no cuidado com a horta, na leitura de um conto sobre o Cerrado ou nas atividades lúdicas e culturais propostas. A postura ética e ambiental se forma paulatinamente e, com o tempo, não é necessário dizer o que precisa ser feito quando há visitantes na escola ou quando visitam outras escolas. As famílias também fazem parte do processo e sempre são convidadas a participar e conhecer o trabalho.

As(os) estudantes estão sempre atentas(os) ao manuseio de resíduos, ao cuidado em lavar as mãos ou os utensílios utilizados nas refeições, à água que é reaproveitada e ao cuidado com as plantas. Por se sentirem protagonistas, sabem como conduzir suas ações e tarefas, sem serem cobradas(os) para executá-las. Esse protagonismo também ajuda a entender por que na escola não há pixação e nem vandalismo.

As(Os) Guardiãs e Guardiões da Terra, assim, são consideradas(os) protetores do meio ambiente: elas(es) fiscalizam, limpam terrenos baldios como uma forma de ensinar a cuidar do território, e quando a limpeza é feita, retornam para conferir se o terreno permanece limpo. Mas, em algumas situações, percebem que a população não colabora com a limpeza do espaço e logo fazem uma reclamação.

“Eles costumam falar assim: ‘Gente, não acredito que jogaram lixo aí! A gente limpou isso ontem! Não, vamos pôr uma placa lá: Por aqui passou um guardião da terra… que era para as pessoas entenderem que quem fez aquela limpeza foi um menino que está sendo formado na Escola da Terra’.”

Jamilla Salviano da Silva, coordenadora pedagógica da Escola da Terra

O projeto Guardiões da Terra mostra que, na Escola da Terra, o direito da(o) sujeita(o) do campo está sendo garantido, no que tange ao conhecimento e aos saberes que trazem em sua bagagem e que aprendem no espaço escolar, bem como na valorização de sua cultura e diversidade, no fortalecimento de sua identidade e autonomia.

A cada dia, a Escola da Terra reafirma sua missão: formar cidadãs(ãos) críticas(os), conscientes e responsáveis, comprometidas(os) com a preservação ambiental e com a construção de um futuro sustentável. É um Projeto que une Educação, Artes, Ciências e emoção, um território no qual o aprendizado floresce como as flores do Cerrado: fortes, coloridas e cheias de significado.

E tudo isso é possível quando a gestão é democrática e articula ações intersetoriais que possibilitam à escola crescer em rede.

“Como nosso foco é a Educação Ambiental, quando a família visita a escola, se surpreende com tanta coisa que seus filhos fizeram. Os pais ficam maravilhados, a princípio pensam que vão receber o boletim escolar, e se deparam com os projetos desenvolvidos. Aí eles entendem porque os filhos chegam cansados, muitas vezes sujos de terra e felizes. Isso acontece porque a escola permite a eles experimentar e serem protagonistas de todo o processo formativo.” 

Jamilla Salviano da Silva, coordenadora pedagógica da Escola da Terra

GESTÃO E INTERSETORIALIDADE: A ESCOLA QUE CRESCE EM REDE

Se a história da Escola da Terra é um poema sobre renascimento, sua gestão é a prova viva de que a educação floresce melhor quando cultivada em conjunto. Desde sua reabertura, a escola adota um modelo de gestão democrática, que valoriza o diálogo, a participação e o compromisso coletivo.

A diretora Michely Arrais Dias, junto à coordenadora pedagógica Jamilla Salviano da Silva e à coordenadora de turno Karla Jaqueline de Sousa Silva, conduz o trabalho com sensibilidade e firmeza. Acredita que uma escola só se faz completa quando todas(os) têm voz — alunas(os), professoras(es), funcionárias(os) e comunidade. O planejamento é coletivo, as decisões são partilhadas e cada conquista é resultado da soma de esforços. A equipe da Escola da Terra não trabalha apenas com tarefas, mas com causas.

Essa gestão participativa se revela em cada detalhe. A pedagogia é articulada à administração, e o cuidado com o espaço físico dialoga com o cuidado humano. Tudo está conectado: o planejamento das aulas, a manutenção do viveiro, a organização dos projetos e a avaliação constante das práticas.

Mas a Escola da Terra não caminha sozinha. Ela se fortalece por meio da intersetorialidade, conceito que, na prática, se traduz em parcerias sólidas e transformadoras, sintetizando o que a escola representa para Cidade Ocidental — um espaço de conexão entre pessoas, saberes e sentimentos.

Conheça aqui as(os) parceiras(os) da Escola da Terra.

Agrofloresta na Escola da Terra.

Foto: Lucinha Alvarez

Na Escola da Terra, cada parceira(o) é um elo, cada aluna(o) é uma semente e cada projeto, um fruto que alimenta o futuro. A gestão compartilhada, baseada no diálogo e na corresponsabilidade, é o que mantém o projeto vivo e em constante renovação.

E, assim, a cada amanhecer na Fazenda Garapa, a escola reafirma seu propósito: ser um espaço de aprendizagem e de pertencimento, onde o ser humano reconhece que faz parte da terra — e que cuidar dela é, no fundo, cuidar de si mesma(o). A Escola da Terra não é apenas uma escola, é um laboratório de vida e um exemplo de que a educação, quando enraizada na coletividade, tem o poder de transformar o mundo. Um jardim de saberes, movido, necessariamente, por atividades e ações inspiradoras.

Horta PAIS (Programa Agroecológico
Integrado e Sustentável).

Foto: Jamilla Salviano da Silva

ATIVIDADES E AÇÕES INSPIRADORAS:

APRENDER PELA VIVÊNCIA

As manhãs e as tardes da Escola da Terra são preenchidas por atividades que unem mente, corpo e emoção. As(os) alunas(os) estudam em uma Escola Municipal e, no outro período, dedicam-se às atividades na Escola da Terra — um intercâmbio de saberes e vivências que amplia horizontes. As oficinas de música, teatro, empreendedorismo, informática, reforço escolar e Educação Ambiental fazem parte desse universo de descobertas.

A proposta do tempo integral não se resume a ocupar horas, mas a preencher vidas. Cada oficina, cada projeto e cada trilha são caminhos para o desenvolvimento integral da(o) aluna(o) — cognitivo, emocional e social. Ali, as crianças aprendem que o planeta não é um recurso, mas uma herança, e que o futuro se constrói com pequenas atitudes. No período complementar ao ensino regular, a horta vira sala de aula, o museu se transforma em livro vivo e o trabalho coletivo desperta a consciência de que aprender é também conviver.

A metodologia nasce do território e volta a ele, em um ciclo de “investigar – planejar – executar – refletir”. É aprendizagem que se suja de barro, que mede o vento e que anota o voo de um passarinho no caderno de Ciências, porque aprender, nesta escola, é estar inteira(o).

São muitos os Projetos desenvolvidos pela Escola da Terra e os Eixos que sustentam essa travessia, como se pode inferir.

Em cada semestre, é definida, ao menos, uma oficina por eixo. Na prática, elas se entrelaçam como cipós de um mesmo galho: o que se lê em Língua Portuguesa ganha forma na Arte; o que se mede em Matemática se explica em Ciências; o que se registra em Tecnologia vira memória e mobilização da comunidade. O resultado é simples e profundo: as(os) estudantes aprendem cuidando — e, ao cuidar, aprendem.

Conheça aqui os diversos Projetos que são desenvolvidos na Escola da Terra.

VOZES DO TERRITÓRIO, VOZES DA TERRA

A voz da Escola da Terra é a voz de quem está no território, dando vida e sentido a essa prática, a começar pelas(os) estudantes, unânimes em ressaltar a força da coletividade e a importância da experiência.

“Minha atividade preferida na escola é a Trilha da Jabuticaba. Me sinto uma exploradora e essa é uma ótima forma de aprender. Aqui posso ser eu.”

Ana Beatriz Montalvão Santos, 13 anos, estudante do 8º ano

Maria Yasmin da Cruz, 12 anos, estudante do 5º ano

“Minha relação com a Escola da Terra é muito ótima demais! Fica todo mundo junto, ninguém fica de fora.”

Larissa Alves Corte, 12 anos, estudante do 5º ano

“As aulas práticas, como as de culinária, são as minhas prediletas, pois usam o território como espaço de aprendizado, valorizando os nossos saberes.”

As estudantes ressaltam que, depois de fazer parte da Educação Integral, as relações delas com a cidade onde moram mudaram. Hoje, observam o descarte de resíduos e a importância da preservação e plantio de árvores. Também se preocupam com a sua alimentação e com o que estão consumindo. Antes, todas essas reflexões não faziam parte da rotina de aprendizado das(os) Guardiãs e Guardiões da Terra.

“A escola é um lugar que traz muita felicidade. Me inspirou na alimentação, na culinária, a aprender a cozinhar.”

Ana Beatriz Montalvão Santos, 13 anos, estudante do 8º ano

“É um lugar muito legal e muito incrível, tem muitas brincadeiras legais e ensina a estudar. Me inspirou a ter mais plantação em casa e na cidade.”

Larissa Alves Corte, 12 anos, estudante do 5º ano

Maria Yasmin da Cruz, 12 anos, estudante do 5º ano

“Um lugar onde nós cuidamos da natureza e a natureza cuida de nós, trazendo o som dos passarinhos cantando. Aprender é divertido, me inspira a aprender com diversão.”

Estudantes participam de aula de culinária na Escola da Terra.

Foto: Jamilla Salviano da Silva

Estudantes realizam a coleta de amora para a desidratadora de alimentos.

Foto: Amanda Carvalho

As opiniões das estudantes coincidem com a de Semaias Santos do Nascimento, ex-estudante, que faz estágio na escola com o objetivo de se tornar professor, possibilidade que surgiu, segundo ele, pela forma metodológica e didática de ensinar na Escola da Terra, que o encantou. A maneira diferenciada de educar, “bem distante da escola regular”, chamou sua atenção e o fez olhar para a educação de outra forma. Ele vê a escola como um lugar que tem possibilitado a ele realizar seus sonhos de ser trilheiro e bombeiro militar.

“Eu entrei e a gente teve algumas aulas com os bombeiros que vinham do Distrito Federal… e eu me apaixonei. Principalmente, pelo local. (…) Depois que mudou para Escola de Tempo Integral, teve mudanças até no comportamento deles. A gente já percebe a diferença. Antigamente, em sala de aula, tinha muita conversa, ficavam muito dispersos, mas, de um tempo para cá, dá para ver diferença no comportamento, na questão disciplinar, e agregou demais o ambiente, o local, os ensinamentos das atividades e tudo mais. Você consegue ver, perceptivamente, a mudança deles.”

Semaias Santos do Nascimento, 21 anos, estagiário de Educação Física da Escola da Terra

Estudantes fazem a Trilha da Jabuticaba da Escola da Terra.
Foto: Amanda Carvalho

O que Semaias identificou, assim como os familiares das(os) estudantes, foi a mudança no comportamento de suas(seus) filhas(os), com a adesão ao Programa Escola de Tempo Integral.

“Ela gosta muito de estar na Escola da Terra, não só por aprender sobre o meio ambiente, mas pelo acolhimento que recebe, pela forma como é inserida nas atividades propostas, ajudando a limpar a horta, auxiliando a professora a dar aula, no cuidado com as plantas e no plantar… Ela fala muito no jabuti, na galinha. A escola melhorou a vida da Rafaela e a minha também. Eu aprendo muito com a minha filha… vejo que ela está em tudo, em todas as atividades, socializando com todos os outros coleguinhas.”

Maria Sebastiana da Silva, mãe da estudante Rafaela Mariana da Silva Rodrigues, 11 anos, do 5º ano da Escola da Terra

As vozes da equipe gestora também ecoam no território e destacam a força inspiradora da Escola da Terra.

“A gente vê o aluno com tanta vontade de fazer, com tanta vontade de mostrar o que ele é capaz de fazer e, às vezes, ele não tem essa oportunidade. E aqui, a gente consegue trabalhar de uma forma mais leve, mais tranquila. O aluno aprende feliz. Não é aquele aprendizado forçado e decorado. Ele nasce do amor pelo que está fazendo. Então, acho que é esse o propósito que me motiva a fazer o que eu faço.”

Jamilla Salviano da Silva, coordenadora pedagógica da Escola da Terra

“Ver que, realmente, eles estão se adaptando e levando cada sementinha que eles aprendem aqui para a vida. A gente consegue notar isso. A forma como eles falam é diferente. Às vezes, chegam e já abraçam a gente, porque querem ser acolhidos. E aqui na Escola da Terra eles conseguem ser acolhidos, de várias formas. Então, a educação ambiental consegue fazer isso.”

Michely Arrais Dias, diretora da Escola da Terra

“Estou na Escola da Terra desde o começo de 2024. Faz cinco anos que entrei na prefeitura e eu fiquei sabendo desse espaço e eu fiquei doidinho: poxa, eu quero ir pra lá, eu quero ir pra lá, só que demorou porque aqui não têm muitos alunos, agora a gente tá recebendo mais. Então, para vir para cá, foi um ano e meio tentando. Não tinha vaga. Porque aqui é o sonho de todo biólogo, dar aula ao ar livre, com uma mata do lado.”

Diego Alves de Lima, professor da Escola da Terra

De todas as vozes, a de Gessé Brito da Silva, auxiliar de serviços operacionais, é a que melhor representa o território da escola. Seu Gessé é a memória viva da Escola da Terra e está no Projeto desde o início. Quando chegou, não havia nada. Fez tanque para armazenar água e peixes, plantou árvores frutíferas, como jabuticabeira e amoreira, fez o viveiro de mudas, fez o galinheiro, abriu trilhas. Ele é alguém que sabe muito sobre a natureza e sobre como cuidar da terra. Sabe que cuidar de planta é um aprendizado importante, pois elas sentem. Mas, além de ser conhecedor da terra, Seu Gessé também é um excelente educador, respeitado por estudantes e pela equipe de professoras(es). E, para ele, a Escola da Terra é quase sua casa.

Seu Gessé no “seu cantinho” na Escola da Terra.
Foto: Jamilla Salviano da Silva

“Eu chego aqui às 8h e saio às 16h50. Aqui já virou minha família. Passo mais tempo aqui do que em casa. Minha esposa também gosta daqui. Sempre que tem curso, ela vem ajudar. Eu chamo os alunos pra ajudar também. Pra aprender mesmo, a gente tem que colocar a mão na massa, na terra mesmo. Alguns dizem que vão beber água e não voltam mais. Mas tem alguns que ajudam direitinho. Já sei aqueles que eu quero pra me ajudar. Para aprender, tem que ter um pedacinho de cada coisa e mostrar pra eles como cuidar do meio ambiente, da terra e da natureza. Acho que sem a natureza a gente não é ninguém. Tem que plantar árvore, quanto mais árvore, melhor.”

Gessé Brito da Silva, auxiliar de serviços operacionais da Escola da Terra

APRENDIZAGENS CONSTRUÍDAS À SOMBRA DE ÁRVORES

A experiência da Escola da Terra é potente e inspiradora. À sombra das árvores, com os pés no chão, com as mãos na terra, sentadas(os) em bancos feitos de madeira pelas(os) educandas(os), se aprende a cuidar da natureza.

O currículo é pautado pela transversalidade do território, dos saberes locais, do desenvolvimento sustentável, da produção agroecológica e do meio ambiente. Rompe-se, portanto, com o padrão hegemônico que insiste na centralidade do cognitivo, nas aulas de reforço, na matriz do pensamento colonial, e foca em um currículo sustentado “na” e “pela” formação democrática, inclusiva e cidadã, que respeita o tempo e os ritmos de aprendizagem, bem como os saberes de educandas e educandos.

O projeto coletivo desenvolvido “na” e “pela” Escola da Terra viabiliza possibilidades criativas, retroalimenta o exercício da curiosidade e da pergunta, promove o diálogo e a escuta, o que amplia o interesse da(o) educanda(o), pois permite criar laços de pertencimento ao promover experiências diversas que, após apreendidas, são estendidas a famílias e a outros espaços sociais.

A aprendizagem alcançada não fica nas linhas escritas da tarefa da escola, mas ecoa em suas vozes quando dizem “não joguem lixo na rua” ou “a água da máquina de lavar pode ser reaproveitada”. Isso acontece porque a aprendizagem não aconteceu pela mera transmissão do conhecimento, nem tampouco foi metaforizada “na” e “pela” aula expositiva, mas experienciada “nas” e “pelas” ações ambientais fomentadas em espaços sustentados pelas problematizações e práticas dialógicas.

Viver a Escola da Terra é pensar em uma experiência que tem sua força inspiradora arraigada nas pessoas e no território, espaço que constitui as salas de aula da escola e o lugar das atividades. É a partir do território que o processo de ensino-aprendizagem é pensado.

Além disso, a Escola da Terra tem uma potência em trazer discussões pertinentes sobre o avanço do agronegócio no bioma Cerrado, onde a escola está localizada, podendo ser resistência e apresentar uma outra forma de trabalhar com a terra, em uma área em que o projeto do plantio de monocultura se faz hegemônico.

Assim, a força da experiência está em aproveitar a cultura e os saberes de todas(os) aquelas(es) que fazem parte da escola, não hierarquizando-os e desenvolvendo as atividades a partir do território.

No chão vermelho do Cerrado, onde cada pegada vira pergunta e cada folha acena em forma de resposta, a Escola da Terra ensina pela vivência. Na Escola da Terra, teoria e prática não são lados opostos: são palmas que se encontram para fazer o conhecimento ecoar.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a Educação Ambiental e institui a Política Nacional de Educação Ambiental. Brasília: Presidência da República, [1999]. Disponível em: https://www.planalto. gov.br/ccivil_03/leis/l9795.htm. Acesso em: 17 out. 2025.

 

GOIÁS. Projeto Político Pedagógico. Escola da Terra (Cidade Ocidental/ GO). Cidade Ocidental: Secretaria de Estado de Educação (SEE), [2025].

 

SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE CIDADE OCIDENTAL:

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