
Por Flávia Lucimar Batista da Luz, Julia Santos Soares, Juliana Batista dos Reis, Marcelle Triginelli Azzi e Paulo Felipe Lopes de Carvalho

Um programa que articula territórios escolares e museais como espaços vivos de formação integral.
Visita mediada ao Arquivo Público da cidade de Belo Horizonte.
Foto: Acervo Secretaria Municipal de Educação (SMED)
“Eu gosto do museu, mas eu também gosto de ficar olhando a janela, porque eu vejo o que as outras pessoas estão fazendo. Teve um dia que eu vi um monte de pessoas correndo, tipo uma maratona”.
Mikaelly Vitória Ferreira Costa, 10 anos, estudante do 5º ano da Escola Municipal [EM] Carlos Góis
“E o museu é um lugar de acolhimento. Eu não acho que museu é só lugar de memória, não. A memória tem que ser exercida todo dia”.
Márcia Andréa Nogueira Magalhães, professora da Escola Municipal Paulo Mendes Campos
O Circuito de Museus, experiência inspiradora da Educação Integral da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte, em Minas Gerais, se configura como uma proposta que se afirma pela perspectiva do caminho.
A breve narrativa da estudante Mikaelly revela a delicada tessitura que consiste em percorrer as ruas da cidade para chegar a um espaço museal. Ao observar pela janela do ônibus, durante o itinerário que a levou para uma visita, a menina transforma o que poderia ser um mero trajeto em exercício de curiosidade, observação sensível e descobertas. Sua fala sugere que também se aprende no movimento, no caminho, em uma experiência de Educação Integral que ultrapassa os territórios institucionais.
Estudantes se deslocam da escola e esse primeiro passo também é prática de uma formação integral. No caminho até o museu, o olhar também se educa. Afinal, “ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar” (Freire, 1997, p. 79).


Estudantes a caminho do Museu da Moda.
Foto: Vanessa Araújo
A estudante Mikaelly se encanta pelo caminho, a professora Márcia propõe uma visão dinâmica da memória. As narrativas das duas personagens têm em comum o fluxo. A memória não está fixa no passado nem é exclusividade dos museus. As práticas escolares e culturais são continuamente reconstruídas nas experiências cotidianas. Tais perspectivas potencializam os espaços museais como lugares de diálogo, escuta e construção coletiva de sentidos.
O Circuito de Museus nasceu como caminho e, ao ser trilhado por milhares de estudantes, traçou rotas e deixou pegadas que, hoje, fazem parte da paisagem educativa de Belo Horizonte. Cada visita, cada olhar curioso, cada encontro entre professoras, professores, educadoras e educadores de museus, crianças e adolescentes, pode ser compreendido como um gesto de apropriação da cidade.
O território urbano é também espaço de aprender e ensinar. A emblemática afirmação do geógrafo brasileiro Milton Santos (2006): “O centro do mundo está em todo lugar. O mundo é o que se vê de onde se está!” – inspira os deslocamentos e as visitas como modos plurais de observar e compreender o mundo. Ao possibilitar que estudantes, crianças e adolescentes vivenciem diferentes experiências em percursos urbanos e em espaços museais, o projeto amplia seus referenciais de leitura do território e da cultura, permitindo-lhes descobrir outros “centros” e reconhecer a pluralidade de olhares que compõem o mundo.
Os impactos do Circuito de Museus na Educação Integral não se expressam apenas em números, mas nos traços sutis das múltiplas experiências vividas, nos olhares que se ampliam, nas descobertas que se acumulam e nas sensibilidades que se formam ao longo do caminho. Observar, no silêncio, uma pintura; reagir com espanto ao se deparar com um fóssil; fazer ecoar, por uma sala ampla, a gargalhada coletiva, diante de um objeto cotidiano ressignificado como patrimônio são sinais de um modo sensível e significativo de se relacionar com o conhecimento.
Os espaços museais, as ruas, as avenidas, os percursos entre as escolas e os equipamentos culturais se constituem como territórios educativos. A cidade foi se deixando educar por seus próprios habitantes, ao mesmo tempo em que educava a comunidade.
O Circuito é, portanto, mais que um projeto. É um movimento da e na cidade, em que as pegadas das(os) estudantes e professoras(es) se sobrepõem às marcas da história preservada nos acervos. Esse rastro coletivo uniu políticas de educação e cultura que hoje são reconhecidas como legado.
HISTÓRICO DO CIRCUITO DE MUSEUS
O Programa Escola Integrada, implantado em 2007, na Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte, trouxe o desafio de ampliar a jornada escolar e de construir experiências de formação integral. Diante de tantas possibilidades de desenvolvimento de experiências, logo se percebeu que seria necessário ampliar o acesso das(os) estudantes aos espaços culturais e museológicos da cidade. Foi nesse contexto que o Circuito de Museus foi desenhado e implantado, em 2011, como resposta à necessidade de ocupar a cidade e explorar seu potencial educativo, democratizando o acesso aos bens culturais de Belo Horizonte. A proposta consolidou-se ao longo dos anos, estruturando percursos temáticos que permitem que cada estudante visite, ao menos, três instituições por ano, vivenciando diferentes oportunidades de aprender na e com a cidade.

OS PERCURSOS TEMÁTICOS
A aproximação entre museu e escola partiu do reconhecimento de que “museus são produtos culturais, o que os distancia de qualquer ideal universalista ou de neutralidade. Assim, entender como são formulados e como são construídas as narrativas expositivas e educativas faz parte dos fundamentos da educação em qualquer museu” (Cury, 2013, p. 14).
Cada percurso é como um caminho que se desenha, um convite para o desenvolvimento de novos olhares sobre os territórios, que amplia repertórios, aguça sensibilidades e promove a compreensão da cidade como um território educativo em constante transformação. Assim como quem caminha descobre novas paisagens, cada visita aos museus que compõem os percursos temáticos revela novas formas de ver e compreender o mundo. Um mesmo tema pode ganhar diferentes sentidos em cada trilha, mostrando que a cidade é feita de múltiplas vozes, memórias e interpretações.
As atividades de mediação trabalhadas pelas(os) educadoras(es) dos museus, ancoradas nos projetos de pesquisa desenvolvidos pelas(os) professoras(es) e monitoras(es), favorecem o diálogo entre Educação Formal e Não Formal, permitindo que a(o) estudante acesse os conhecimentos trabalhados em sala de aula sob novos pontos de vista e abordagens, favorecendo o desenvolvimento de círculos de aprendizagens significativos.

Tendo nascido desse diálogo necessário entre educação, território e cultura, o programa conta com mais de 30 instituições, entre museus, arquivos, centros de cultura, centros de memória e galerias, agrupadas em nove percursos temáticos. Cada percurso é como uma trilha aberta na cidade, e cada estudante, ao percorrê-la, deixa também sua marca. Os nove percursos temáticos foram concebidos para dialogar com as diferentes áreas do conhecimento e com as dimensões de uma formação integral.

Exposição “Clara Nunes: eu sou a tal guerreira”, no Museu da Moda.
Foto: Vanessa Araújo

Visita ao Muquifu – Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos.
Foto: Acervo Secretaria Municipal de Educação (SMED)
PERCURSOS TEMÁTICOS
- Ciências – as origens e as transformações do universo e da humanidade configuram exposições e atividades que tematizam o corpo humano, as réplicas de dinossauros, os planetários, os fósseis, as composições minerais, entre outros temas que são composições desse percurso científico.
- Esporte, lazer e memória – busca despertar o (re)conhecimento da história dos esportes e das práticas de lazer, valorizando suas dimensões culturais e sociais. Essas práticas atravessam o cotidiano de crianças, adolescentes e jovens, manifestando-se na escola e em diversos outros espaços e tempos. Nelas, revelam-se múltiplas formas de expressão e diferentes narrativas sobre as práticas esportivas e de lazer, em conexão com a cidade.
- Território negro – a perspectiva é de valorização das Culturas Africana e Afro-Brasileira, reconhecendo suas histórias, saberes, produções intelectuais, científicas, tecnológicas e estéticas como fundamentais para a constituição da sociedade brasileira. Este percurso possibilita atividades interdisciplinares e tem como ponto de partida a memória social e coletiva do Brasil, país multicultural e pluriétnico.
- Arte brasileira – realiza-se o encontro com a diversidade da arte nacional, do barroco ao modernismo, da cultura popular à contemporaneidade. O percurso convida ao conhecimento de diferentes expressões, linguagens e artistas que marcaram a história do país. Ao percorrer essas manifestações, crianças, jovens e adolescentes reconhecem que a arte brasileira é feita de muitos territórios, vozes e temporalidades.
- Artes visuais – as(os) estudantes vivenciam a experiência de aproximação com múltiplas manifestações artísticas, em diálogo com a arte contemporânea nacional e internacional. As visitas e atividades propiciam reflexões sobre as diferentes formas de expressão, materiais e técnicas, ampliando o repertório estético e sensível diante da diversidade de produções artísticas visuais.
- História de Belo Horizonte – desenvolve-se o olhar crítico sobre a cidade e suas origens. Por meio dos documentos e das narrativas das exposições visitadas, são discutidas a origem da capital de Minas Gerais e as transformações urbanas ao longo do tempo.
- História de mulheres – são realizadas reflexões críticas sobre feminilidades e masculinidades, assim como as representações e protagonismos femininos na História e na Arte. Há um reflexivo trabalho pedagógico com a história das mulheres no Brasil, em diferentes campos, das artes plásticas às práticas culturais e cinematográficas, até a presença feminina na política e na educação.
- Imagem em movimento – propõe a ampliação da visão de mundo por meio das linguagens audiovisual e cinematográfica, considerando o importante diálogo entre cinema e educação. Incentiva-se, assim, as criações audiovisuais de estudantes, prática, em alguma medida, cotidiana nas experiências infantis e juvenis.
- Pampulha – convida as(os) estudantes a conhecerem a história da região e de seu emblemático conjunto arquitetônico modernista, reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). O percurso é uma oportunidade de reconhecer a cidade como patrimônio vivo, em constante construção e reinvenção.
O Circuito é, antes de tudo, um exercício de gestão compartilhada. A escola provoca o currículo a sair dos muros e a ganhar múltiplos territórios citadinos. O museu traduz seus acervos em experiências sensíveis, abrindo-se ao olhar inquieto das(os) estudantes. A Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, por sua vez, costura a política pública, garantindo mediação, formação de professoras(es) e setores educativos de museus, em outras palavras, conectando e promovendo o diálogo entre as instituições. Essa tríade faz do Circuito uma política viva e uma rede de corresponsabilidade.
Clique aqui para ver a lista dos espaços museais que fazem ou já fizeram parte do Circuito de Museus.

RASTROS VISÍVEIS:
A AÇÃO QUE TRANSFORMA

Museu Casa Kubitschek recebe estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em visita noturna.
Foto: Ricardo Laf
Ao olhar para trás, é possível ver uma cidade com rastros visíveis deixados pelo Programa. Professoras(es) que ampliaram seus repertórios didáticos, museus que transformaram suas mediações para receber novos públicos, famílias que descobriram novos espaços de convivência e encontro com a cultura.
O Circuito de Museus deixou em Belo Horizonte não apenas trilhas percorridas, mas um legado de pertencimento no presente e projeções de futuro.
Afinal, as cidades são territórios de memória, guardados nos espaços museais, mas também vividos nas ruas, becos, avenidas, gestos, palavras, cheiros e pessoas. Aprender na cidade e com a cidade, por meio do Circuito de Museus, é caminho para uma Educação Integral que constrói a memória como um “sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si” (Pollak, 1992, p. 204).
Nessa relação entre museus, escolas e Secretaria Municipal de Educação, a Educação Integral é compreendida como um conhecimento atravessado pela memória e pela experiência, construído nos diversos percursos desbravados pela cidade. Esse conhecimento se materializa tanto na circulação pelos espaços urbanos, na vivência e apropriação das ruas, praças e museus, quanto na contemplação das paisagens que se revelam pelas janelas, como ensinado pela estudante Mikaelly.
Em uma via de mão dupla, a cidade também se transforma ao receber crianças, adolescentes, jovens e educadoras(es) como sujeitas(os) ativas(os) na produção do território urbano, integrando-o com seus corpos, trajetórias, identidades e saberes. Assim, aprender e ensinar tornam-se modos de caminhar e de tecer, conjuntamente, a própria cidade. Memória e conhecimento estão em constante trânsito.

Visita ao Museu Histórico Abílio Barreto.
Foto: Acervo Secretaria Municipal de Educação (SMED)
TRILHAS DE UMA CIDADE QUE EDUCA:
ENTRE A ESCOLA, O MUSEU E A CIDADE
O Circuito de Museus inspira a compreender que, quando a cidade é apropriada no fazer educativo, ela se torna um repositório de conhecimentos e saberes, com elementos vivos que se presentificam em seus múltiplos territórios. Assim, cada um dos nove percursos do Circuito de Museus se torna uma travessia trilhada coletivamente pelas escolas, de modo que museus se tornam caleidoscópios, que descortinam novas formas de ver a cidade e aprender com ela, em movimento.
Nessas travessias entre museus, no cotidiano da cidade, estudantes, professoras(es) e mediadoras(es) culturais vão tecendo uma cultura urbana, ressignificando o espaço e criando pertencimentos a partir da territorialidade e da corporeidade.
As práticas educativas em espaços fora da escola, assim como as suscitadas pelo Circuito de Museus, podem influenciar crianças, adolescentes e jovens a criarem laços de pertencimento e apropriação cultural no ambiente urbano. Quando pessoas em atividades escolares circulam e se apropriam da cidade, “se desenvolve, neste tempo-lugar, um sentimento de pertencimento, que se processa na comunhão com uma estética e uma ética que passa pela paisagem, pela apropriação corporal do espaço-parque, pelo movimento do skate, pela moda, pelos desejos de consumo, pelo comportamento de grupo” (Bernardi, 2011, p. 109).
A reflexão detalhada sobre a relação entre escolas e museus proporciona a percepção de que os espaços museais e seus acervos, tão ricos em sua diversidade, possibilitam às(aos) estudantes um encontro com o passado, ao mesmo tempo em que inspiram a reinvenção do presente e as formas de sonhar o futuro, por meio da memória. A ampliação do repertório cultural, possibilitada pelo Circuito, também se destaca como importante contribuição na trajetória escolar das(os) estudantes, pois marca uma expansão do olhar sobre o tempo, sobre o espaço, sobre o saber, sobre a cidade.
O Circuito de Museus também tem gerado um movimento de encontro entre as(os) professoras(es), para planejamento coletivo e construção da interdisciplinaridade, uma vez que os nove percursos do Circuito agregam saberes múltiplos e conhecimentos das diversas áreas, além de saberes populares.

Encontro de professoras(es) na praça.
Foto: Flávia Luz

“(…) Isso é interessante, porque as professoras, quando a gente foi no museu, foram juntas. E aí eu falei com elas: ‘Olha! Coloca seu conteúdo de Ciências à prova, lá!’. Então, elas foram alertando os estudantes do conteúdo de Ciências. A Julia ensinou pra gente sobre vários animais que estavam lá empalhados, com o conteúdo de Ciências. Então, o que aconteceu? Eu dava aula de História e as professoras davam aula de Ciências no museu.”
Eduardo de Morais Brum, professor da Escola Municipal Carlos Góis
O ato de sair da escola torna-se potente na experiência do Circuito de Museus, ao suscitar a reinvenção da prática docente, incentivando o trabalho coletivo no cotidiano escolar. Nesse sentido, o Circuito de Museus engloba instituições que, além de favorecer intervenções pedagógicas na cidade, têm objetivos pedagógicos preestabelecidos e buscam construir pontes entre escola e território.
Assim, aprender passa a ser um movimento coletivo entre escola, espaços da cidade, vizinhança, educadoras(es) e gestoras(es). A educação, nessas trilhas urbanas e culturais, vai entendendo que a construção do conhecimento se potencializa quando é partilhada e quando a instituição escolar caminha lado a lado com o território que a cerca, bem como com os múltiplos e diversos espaços da cidade.
“Defendo muito a educação fora do espaço escolar, acho que é muito importante pra esses meninos. Quando a gente sai da escola, a atenção, o foco e até mesmo as dúvidas deles são outras. E a gente gosta muito de fazer… Muitas vezes, quando a gente dá uma informação em sala ou mesmo no livro, não tem a atenção e o interesse que eles têm quando estão vendo. (…) Quando passa pro concreto, passa pro palpável, o interesse muda, é outra coisa!”
Júlia Carla Silva, professora da Escola Municipal Carlos Góis
São várias as dimensões que desvelam Belo Horizonte como cidade que educa, mas que também se educa nessa experiência. O Circuito nos ajuda a reconhecer que a diversidade de expressões culturais e sociais são inerentes às relações da cidade, ou seja, são partes constituintes desse território, por isso, também, devem ser abarcadas e valorizadas nos projetos educativos escolares. A proposta reitera a importância de uma intenção educativa que priorize investimento cultural e formação permanente da população, o que pode alargar as funções da cidade (econômicas, sociais, políticas, de prestação de serviços, dentre outras).
Nesse alargamento de funções, escola e museus assumem uma intenção educativa conjunta, de forma potente, oferecendo uma contribuição para a garantia do direito à cidade e um enfrentamento à segregação social urbana, que é forte nas grandes cidades brasileiras. Ao propiciar a circulação de estudantes das periferias, considerando suas etnias, suas mais diversas formas de expressão cultural, de gênero e social, marca-se uma concepção de cidade que lida com seus corpos-territórios, demarcando na paisagem urbana a multiplicidade de sujeitas(os) que dela fazem parte, porém ainda são rechaçadas(os) por determinadas instituições e espaços sociais.
Ao participar do Circuito, vivenciando as temáticas desveladas no exercício de se encontrar com a cidade, as(os) educadoras(es) levam importantes discussões para o ambiente escolar, construindo, no processo de ensino-aprendizagem, uma percepção crítica sobre o território urbano, considerando as realidades que estão presentes nesse território.
Diante da potência existente no diálogo entre museus e escolas, o Circuito, ao abarcar e promover o direito à cidade, tem a força de produzir “culturas da síncope”. As culturas da síncope rompem com normatizações de modos de ser de crianças, jovens, homens e mulheres e desestabilizam mecanismos de segregação de corpos na cidade, que impõem ritmos e vivências desumanas nos meandros da metrópole, já que “algumas mentaIidades insistem em ler o mundo em dicotomias, teimando na superação de um lado pelo outro, o poder da síncope se inscreve no cruzo” (Simas; Rufino, 2018, p. 19).
“Foi muito legal o trabalho. E nós trabalhamos também a questão das protagonistas negras no Brasil. Nós falamos de mulheres para uma maioria que são filhos de ‘pães’, mulheres que não têm companheiros e que tem que se virar. Então, foi muito boa a experiência.”
Júlia Carla Silva, professora da Escola Municipal Carlos Góis
Ao favorecer que crianças, adolescentes, jovens estudantes e educadoras(es) vivam experiências significativas nos museus, considerando a diversidade e a diferença dessas(es) sujeitas(os), o Circuito abre brechas para a inserção de novas perspectivas de cidadania, de viver a cidade, se apropriar dela, de construir efetivamente a pólis. As “culturas da síncope”, produzidas nas ações empreendidas pelo Circuito de Museus, têm sido potentes ao gerar “gente feliz, escrevendo, batendo tambor, dando pirueta, imitando bicho, fazendo ciência e gingando com gana de viver” (Simas; Rufino, 2018, p. 19).
Chegando no final dessa Trilha, construída no território belo-horizontino, é possível refletir sobre suas potencialidades, tendo em vista a parceria entre educação e cultura. O Circuito de Museus é um território de circulação de ideias, conhecimentos, sensibilidades e encontros. É um mapa vivo e dinâmico percorrido por várias(os) sujeitas(os), e cada parada, cada museu, é um convite ao conhecimento e um lócus propulsor de cultura e memória.
Ao circularem pela cidade, as pessoas vão transformando suas pegadas em identidades, em saberes, nas ruas, praças e muros, e vão desvelando as riquezas do encontro entre o saber escolar e os saberes da cidade. Nos vestígios da memória, nas pegadas afetivas, nos conhecimentos ecoados e nas descobertas cotidianas nascem possibilidades para uma nova perspectiva urbana, mais acolhedora e diversa, mais plural.
O Circuito gera rastros nos museus e na cidade, frutos de parceria com escolas públicas, tornando-os, tanto as escolas quanto os museus, espaços mais inclusivos e humanos. Além disso, constrói-se um território educativo e, a cada bairro, rua, museu, parque visitado, vão se criando novas formas de olhar e aprender com a cidade e, principalmente, novas formas de pertencer a ela.
Conheça aqui, uma publicação especial do Circuito!

REFERÊNCIAS
BERNARDI, Andréa Menezes de. Dimensões do processo de apropriação cultural: a educação na cidade. 2011. 147 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011.
CALIBAN PRODUÇÕES. Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá. Silvio Tendler. Brasil: 2006. YouTube. 89 min. Disponível em: https://youtu.be/ifZ7PNTazgY?si=Z-tYrcHlhtAwVe4t. Acesso em: 31 out. 2025.
CURY, Marília Xavier. Educação em museus: panorama, dilemas e algumas ponderações. Ensino em Re-Vista, Uberlândia, v. 20, n.1, p. 13-28. jan./jun. 2013.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-212, 1992.
SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.
PREFEITURA DE BELO HORIZONTE:
www.instagram.com/prefeiturabh
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO:
prefeitura.pbh.gov.br/educacao