Por Clêidna Lima, Kattianny Torres, Luana Campos e Silva, Maria Luiza de Araújo e Robson Almeida

Quando a arte se faz linguagem de encontro, o território vira escola, a cultura se faz presente e o dia a dia se escreve a muitas mãos.

Utilização de “bentocoin” para a troca por cartões postais produzidos pelas estudantes do 6º ano para a SEMA de 2024 na Escola de Referência em Educação Fundamental (EREF) João Bento de Paiva. Na foto estão as alunas: Isadora Galdino, Débora Vitória Gonçalves, Julia Vitória Bernardo e Sara Helena Victor Anastácio.
Foto: Angela Ferreira

“OS MENINOS DO MANGUE”

“Caranguejo uçá, caranguejo uçá,

Apanho ele na lama e boto no meu caçuá…”

Essa é a história de Tonho do Caçuá. Mas olha… cuidado onde pisa! No mangue, o chão é mole, e a esperança afunda fácil!

Tonho era um menino esperto, nascido no mangue, criado na lama e formado na faculdade da fome!

Todo dia, Tonho ia pro mangue catar caranguejo. Mas, às vezes… às vezes o caçuá voltava vazio…

Tonho dizia que um dia ia sair dali e virar doutor. Mas no mangue, o primeiro aprendizado é sobreviver, e o segundo… é não acreditar muito em sonho!

Lá, os caranguejos andam de lado. E os homens? Se arrastam atrás de comida, esperança e, às vezes, um fiado na venda do Seu Zé. Tonho arrastava seu caçuá, feito de cipó e teimosia, e vivia dizendo:

— Se a vida me dá lama, eu faço lamaçal gourmet! (rs)

Um dia, ele viu um político elegante visitar o mangue. O homem usava sapato de couro, perfume de rico e um sorriso de quem nunca sentiu o estômago reclamar. Disse:

— Vamos acabar com a fome!

Tonho respondeu:

— Vai acabar comendo tudo, é? Porque aqui ela só cresce!

O homem escorregou, perdeu o sapato e a dignidade.

O político saiu sujo de lama e ofendido na alma… mas o povo do mangue riu por três dias e se sujou mais do que ele.

O mangue é justo!

Tonho cresceu. Não virou doutor, mas virou mestre na arte de rir da própria dor.

Aprendeu com o povo do mangue que não se cura a fome com remédio, mas com justiça e um bom prato de feijão

Vou-me embora! E Tonho tá lá…

Rindo da fome.

Andando de lado.

E todo melado…

Texto redigido pela professora Carla Regina para a SEMA 2025 e inspirado na obra “Homens e Caranguejos”, de Josué de Castro (1967), inspirador do movimento Manguebeat, em Recife, e um dos maiores estudiosos da fome e da questão alimentar; e na música “O Vendedor de Caranguejo”, de Ary Lobo (1958).

Sítio de Sinho – Vila de pescadores que inspirou produções da Semana de Artes 2025 da EREF João Bento de Paiva.
Foto: Maria Luiza de Araújo Aleixo

A narrativa foi apresentada por Akilles Benjamim, 10 anos, estudante do 6º ano da Escola de Referência em Educação Fundamental (EREF) João Bento de Paiva.
Foto: Robson Almeida Monteiro de Farias

A sutileza da escuta do que é vivido pelos “Meninos do Mangue” e traduzido na narrativa do estudante Akilles Benjamim, 10 anos, estudante do 6° ano da Escola de Referência em Educação Fundamental (EREF) João Bento de Paiva, traz ecos de outros tempos e revela imagens da cidade e da região onde há muito para ouvir e contar. História semelhante pode ser lida em “Homens e Caranguejos”, de Josué de Castro. Isso porque, no ofício milenar de cada narradora(or) de histórias, pulsa a vida cotidiana: o “viver para ouvir contar e para recontar a escuta” constitui-se a partir de saberes sociais e memórias coletivas. É por essa rede de narrativas que os saberes se (re) constituem: “E, foi assim que, pelas histórias dos homens e pelo roteiro do rio, fiquei sabendo que a fome não era um produto exclusivo dos mangues” (Castro, 1967, p. 24).

Na oralidade, ressoa uma poética do social: “E quando cresci e saí pelo mundo afora, vendo outras paisagens, me apercebi com nova surpresa que o que eu pensava ser um fenômeno local, um drama do meu bairro, era um drama universal” (Castro, 1967, p. 24). Nesse enredo das paisagens humanas dos mangues, que perpassa várias épocas e lugares, a trama narrativa do vivido sobrevive às biografias, aos saberes e aos fazeres individuais, pois, ao serem recontadas, são reconstituídas coletivamente. A universalidade da condição humana revela, por si só, temas que atravessam e ecoam em todo lugar e podem se reproduzir no mundo inteiro.

É com centralidade na arte e na coletividade que destaca-se Itapissuma, cidade litorânea de Pernambuco, e a experiência da Escola de Referência em Ensino Fundamental (EREF) João Bento de Paiva. Dizem que há lugares que ensinam mais do que qualquer livro. Itapissuma é a prova viva disso. Com seu ritmo de maré, sua força de comunidade e sua riqueza cultural, o município é o grande livro que guia esta narrativa.

O chão que se pisa, o vento que sopra do mar, as histórias que moram nas vozes da comunidade, os trabalhos que se desenvolvem nas famílias e fora delas, tudo isso é aula, é arte, é escola. Sobretudo porque esta Escola de Tempo Integral se apresenta como uma sujeita coletiva, viva e aprendente. A Semana de Artes da EREF João Bento de Paiva (SEMA JB) pode traduzir-se como afeto, território e movimento, sob a ótica de suas idealizadoras.

Aluna da EREF João Bento de Paiva participando da construção coletiva da SEMA 2025.
Foto: Kattianny keddma Torres Lima Melo

A SEMA JB nasce do entendimento: aprender também é escutar o território, reconhecer a beleza que pulsa nas práticas cotidianas e transformar em movimento, gesto, cor, som e palavra o que cada pessoa é coletivamente. Cada criança, cada educadora e educador, cada artista é convidada(o) a partilhar uma porção de si. Porque a arte, quando nasce do lugar, costura pertencimentos e ensina a ver o comum com olhos encantados.

Já dizia Manoel de Barros (2018, p. 43) que “(…) a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”. A SEMA JB produz encantamentos e movimenta-se entre o saber e o sentir, entre o local e o universal, entre o que já se sabe e o que ainda é possível sonhar. O território não é só o espaço onde se vive, mas aquele que os habita, com suas referências socioculturais e com suas formas de celebrar e de vivenciar as culturas.

A SEMA JB surgiu em 2023, com a proposta de incluir a história de Itapissuma no currículo. Seu primeiro tema foi “E se Gabriela (de Jorge Amado) viesse em Itapissuma?” No ano seguinte, “Arte em movimento” destacou a identidade da cidade. O terceiro tema, “De andada”, faz uma referência ao termo popular dado ao movimento realizado pelo caranguejo em seu período de reprodução.
Inspirada também em Homens e Caranguejos, de Josué de Castro (1967), e no movimento Manguebeat de Chico Science e Nação Zumbi (1994), a SEMA JB articula cultura local, crítica social e criação artística. Essa combinação sustenta os trabalhos das(os) estudantes, que exaltam o território ao mesmo tempo em que reivindicam melhorias para sua comunidade.

Assim como os ciclos dos caranguejos mobilizam a cidade para proteção e cuidado, as(os) estudantes se envolvem intensamente na SEMA JB ao longo do ano, dedicando-se a um processo coletivo de criação. É um período de “esperançar”: transformar sonhos e realidades, começando por Itapissuma e pelo vínculo construído entre estudantes e suas(eus) professoras(es).

O Estado de Pernambuco é o berço do educador Paulo Freire, um homem que representa uma fonte de fé inesgotável no poder da educação. Lá, uma professora, que compartilha dessa mesma fé, sonhou uma experiência entre educação e arte. Junto a suas(eus) colegas e estudantes, decidiu

lutar pela realização de algo que, hoje, se mostra sagrado para este grupo. A Semana de Artes da EREF João Bento de Paiva é um exemplo do que se pode alcançar quando se dá uma chance ao potencial gerador da arte, tornando-a uma forte aliada na luta por um mundo melhor, “uma verdadeira boniteza”, como definiria Paulo Freire.

“A SEMA, pra mim (…) realiza sonhos. Ela realiza meu sonho de fazer arte, de trabalhar com arte, de proporcionar às pessoas: arte! A arte muda a vida das pessoas, assim como a educação. E quando podemos atrelar uma à outra, nas diversas modalidades, acho que a gente tem um combo de sucesso! (…) Essas crianças e adolescentes vivenciam com a gente aqui, no dia a dia! (…) Isso aqui é a pontinha do iceberg do que acontece. (…) É um sonho que realiza sonhos!”

Kattianny Torres, professora de Artes da Referência em Ensino Fundamental João Bento de Paiva e uma das idealizadoras da SEMA JB

A dinâmica “Escolha sua palavra”, à respeito da SEMA 2025, movimentou a roda de conversa entre professoras(es) e alunas(os) na EREF João Bento de Paiva.
Foto: Robson Almeida Monteiro de Farias

Na força de sua obra, Freire legou a certeza de que sonho e realidade se retroalimentam, como artefatos necessários à transformação do mundo. Para a concretização dos sonhos, diz ele, é necessária a atuação consciente das(os) sujeitas(os), em sua realidade histórica. É indispensável ter lealdade às condições históricas do “contexto do sonhador” (Freire, 2000, p. 54).

A EXPERIÊNCIA DA SEMA JB TRADUZ-SE NAS VOZES DO TERRITÓRIO

Ao proporcionar experiências de apreciação artística no ambiente escolar, cada docente, das diferentes áreas do conhecimento, reafirma sua lealdade à formação crítica e indaga a realidade histórico-cultural a partir da sensibilização artística.

“(…) Não tinha brilho, era tudo apagado! Se não tiver dança, como ia ser? Tem que dançar, tem que se expressar! E o olhar? (…) Tem que ter o olhar… tudo isso representa a SEMA!”

Maria de Jesus, monitora da Inclusão – Atendimento Educacional Especializado da Referência em Ensino Fundamental João Bento de Paiva

“(…) Para mim, ela acolhe todos os sentimentos, todas as possibilidades, todas as criatividades dos meus alunos. É a possibilidade de se expressar, já que, muitas vezes, eles têm vergonha (…): ‘tia, eu vou conseguir?’ ‘Vai, você consegue!’ Então, a SEMA (…) é acolhimento em tudo: perspectiva, tristeza, alegria, determinação, arte, diversão… é tudo.”

Ângela Ferreira, professora de Língua Portuguesa da Referência em Ensino Fundamental João Bento de Paiva

“(…) Aqui eu me experimentei, deixei ser experimentado por outras áreas. Então, aqui, eu consegui ver que as ciências exatas são construídas por seres humanos. Deveria ser apresentada por um momento como um caminho para seres humanos, não ser aquela coisa sólida. E foi com isso que eu me identifiquei: (…) a SEMA é, de fato, uma experimentação (…) um momento em que as ideias se misturam e se deixam acontecer. A gente tem um produto social com um impacto muito forte à partir das experimentações! (…) É o que é a SEMA nesse pequeno contexto.”

Robson Almeida, professor de Ciências da Referência em Ensino Fundamental João Bento de Paiva

De acordo com a professora Kattiany Torres, uma das idealizadoras da SEMA JB, o evento advém de um passo corajoso e de uma vontade genuína de mostrar que a arte pode atravessar o cotidiano escolar e se tornar uma ferramenta de transformação, sensibilidade e integração entre todas(os) as(os) envolvidas(os) no processo educativo. A proposta nasceu pequena, mas com grandes intenções: aproximar a arte das(os) estudantes e das(os) professoras(es), valorizando o protagonismo e a expressão de cada uma(um). Com o tempo, a SEMA JB ultrapassou os limites do evento e se consolidou como um movimento cultural dentro da escola.

Esse passo inspirou outras ações pedagógicas. Oficinas, mostras, feiras e vivências culturais que ocorrem na Escola de Tempo Integral João Bento de Paiva trazem, em sua essência, o mesmo espírito da SEMA JB, de acreditar que a arte é capaz de mover pessoas e despertar novos olhares sobre o mundo. Cada passo dado com propósito transforma o espaço em que se pisa. E a SEMA JB, nascida desse impulso criativo e educativo, continua sendo o passo que faz o mundo e a escola saírem do lugar, pelo alargamento dos repertórios culturais.

Mas o evento não surge isoladamente: já existia um movimento pulsando nos corredores da escola. Assim como o Clube de Ciências e o Clube de Robótica, ela despertou um modo de pensar e agir que conecta o conhecimento escolar às experiências cotidianas das(os) estudantes. Os projetos científicos que emergem dessas ações pedagógicas nascem de problemas reais, vividos e observados pelas(os) próprias(os) estudantes, em seu entorno.

A produção da biocerâmica, a partir da casca de ostras, é um exemplo desse processo: um experimento que nasceu da preocupação com o descarte desse resíduo localmente e se tornou uma resposta concreta à questão ambiental, unindo Ciência, responsabilidade social e inovação. Essas experiências revelam como as Ciências Exatas e Naturais podem dialogar com a Arte e com a vida, tornando visível a capacidade criativa, crítica e investigativa das(os) estudantes: é mais do que uma prática experimental, é uma forma de ler o mundo e transformá-lo. Este processo reforça a convicção de que cada passo dado nesse percurso, cada ideia, cada descoberta, move o mundo um pouco mais. São expressões de um mesmo impulso: o de fazer o conhecimento sair do lugar e ganhar vida no cotidiano escolar, como um instrumento de transformação social e humana.

Equipe Clube de Ciências da EREF João Bento de Paiva expõe durante a SEMA 2025 a produção de biocerâmica feita da casca de ostras no formato de azulejos.
Foto: Robson Almeida Monteiro de Farias

A criação da biocerâmica garantiu o 1º lugar nacional no Desafio Liga Jovem 2025 do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em Pernambuco. Como campeã, a equipe levará a ciência do território para uma apresentação em Barcelona, na Espanha, em 2026, reafirmando o potencial do Projeto e a força da pesquisa científica na escola pública. Essa conquista simboliza o potencial da Educação Integral, que amplia o tempo de aprendizagem e transforma curiosidade em investigação, projetos em soluções sustentáveis. O protagonismo das(os) estudantes é central nesse processo: são elas(es) que observam o território, identificam problemas e propõem alternativas inovadoras. Cada conquista confirma que a Educação Integral não se limita ao tempo ampliado, mas à vivência criativa que estimula investigação, autonomia e transformação social.

SEMA JB: ARTE, CULTURA, INTEGRAÇÃO E VALORIZAÇÃO DA CULTURA LOCAL

A educação, como formação humana, pulsa dentro e fora da escola, no reconhecimento do território educativo constituído na, e pela, cultura. Como processo humano e sociocultural, educar-se acontece nas comunidades, nas famílias, nas ruas, nas trocas intergeracionais e em cada experiência de vida na qual se constrói conhecimento e sentido.

No decorrer do ano e durante a Semana de Artes João Bento, as(os) jovens compartilham saberes de uma escola que se faz a partir de vários olhares e tempos re-vividos. Aprendizado coletivo de gente que trilha, escolhe e abre caminhos, deixando suas marcas: sonhos, certezas, superações e um desejo crescente de que o tempo não pare de se reinventar pelos movimentos das(os) aprendizes. Como reconhece Freire (2010), a “escola é, sobretudo, gente.”

Durante a SEMA JB, cria-se uma moeda própria: a “bentocoin”, batizada da união entre Bento, nome da escola, e coin, moeda em inglês. O valor da arte é posto em pauta, mas logo fica evidente que toda a SEMA JB é pensada e arquitetada por gente que respira arte e funciona com um capital cada vez mais raro: a formação humana. As vivências culturais da SEMA JB foram gestadas no cotidiano do percurso escolar, no diálogo entre áreas de conhecimento e aprendizados de terras, águas, mangues, mulheres e homens e caranguejos. “Foi o rio o meu primeir o professor de história do Nordeste, da história desta terra quase sem história” (Castro, 1967, p. 18).

Na SEMA JB realizada em 2025, as(os) estudantes criaram o audiovisual “Família Barbosa — JB NEWS”, um documentário abordando as inquietudes e alegrias das(os) catadoras(es) de caranguejo e pescadoras(es), unindo pesquisa, memória e cultura local em uma produção que ultrapassou a técnica e se afirmou como exercício de pertencimento e valorização da identidade de Itapissuma. A experiência envolveu desde a coleta e transcrição de falas, até a construção coletiva da narrativa visual, mobilizando múltiplas competências da Educação Integral: pensamento crítico, comunicação, repertório cultural, empatia, cooperação, responsabilidade cidadã e protagonismo estudantil. Registrar essas histórias traduziu o encontro entre arte, ciência e cotidiano, revelando a escola como espaço de investigação, expressão e transformação social.

A SEMA JB possibilita diferentes dimensões da Educação em Tempo Integral: a escola como espaço de proteção social, a valorização da(o) docente como sujeita(o) orientadora(or) da política e a construção de vínculos de pertencimento entre estudantes, escola e território.

“Itapissuma é um território de muita vulnerabilidade: a escola aqui não é só lugar de ensinar conteúdos, mas de proteger, alimentar e dar perspectiva de vida. Educação em Tempo Integral não é só aumentar o tempo de aula, mas criar uma rede de vínculos que mantenha o estudante conectado à escola e ao seu território.” 

Jesanias Rodrigues de Lima, Secretário Municipal de Educação

OS SABERES DA CALDEIRADA NA SEMA JB:

DO TEATRO LAMBE-LAMBE AO PATRIMÔNIO IMATERIAL DA CIDADE

A caldeirada é o prato típico de Itapissuma, personagem inspirador do tema da SEMA JB de 2025, Projeto da EREF João Bento de Paiva.

Foto: Maria Luiza de Araújo Aleixo

O letramento territorial ganha sentido na relação entre escola e comunidade. É dessa integração que os saberes da cidade, do campo, do mangue, do rio e do mar se conectam, revelando o território como currículo vivo, integrado e contextualizado. Na Educação em Tempo Integral, esse letramento é central por reconhecer bairro e cidade — em suas urbanidades e ruralidades — como espaços educativos que ampliam repertórios, fortalecem identidades e permitem às(aos) estudantes se reconhecerem como cocriadoras(es) de sua história.

Nesse movimento, a EREF João Bento de Paiva constrói, no âmbito da SEMA JB, um currículo articulado entre diferentes linguagens, práticas e experiências, estimulando a participação cidadã e a preservação da história coletiva. Exemplos dessa identidade viva aparecem na caldeirada e no teatro lambe-lambe. A caldeirada, prato típico e memória afetiva local, foi homenageada em mais de uma edição da SEMA JB, reafirmando o orgulho das(os) itapissumenses e a força da oralidade na transmissão de saberes.

“Dona Irene era uma moradora daqui e tinha um bar nessa região. Já no final do expediente, depois das 3 horas da tarde, chegou um grupo de turistas e ela não tinha mais quase nada de tiragosto, nada. E aí eles perguntaram se ela tinha alguma coisa. Ela pensou: ‘meu Deus, o que é que eu vou fazer? Eu não posso perder esses clientes’. Aí pegou o que ela tinha de crustáceo pronto, os restinhos das panelas, misturou tudo e adicionou mais leite de coco, né, para ficar bem – o que a gente chama de – apurado. Aí ela ofereceu, né, colocou lá na mesa, aí perguntaram: ´como é o nome desse prato?’ Ela nem sabia, aí, na hora ela fez, é caldeirada. Pronto, aí ficou, eles gostaram, aí foi de boca em boca. Aquela história da oralidade.”

Kattianny Torres, professora de Artes e uma das idealizadoras da SEMA JB

O teatro lambe-lambe é de berço nordestino, um teatro de animação em miniatura, apresentado dentro de uma caixa cênica. Em geral, suas apresentações são rápidas, duram de um a três minutos, e comportam um espectador por vez. Os participantes da SEMA JB produziram, em 2025, o espetáculo “A história da caldeirada” em formato lambe-lambe, homenageando e demonstrando o interesse em apresentar as tecnologias artísticas de seu território, o prazer em compartilhar sua cultura e a vontade de honrar e preservar suas histórias por meio da arte. Transmitir um saber tradicional por meio da oralidade, de diversas formas, é algo que demonstra a consolidação do propósito da SEMA JB.

O CANTO E A DANÇA PIAXAXÁ: RITMOS DE ITAPISSUMA NA SEMA JB

Essa dimensão cultural de Itapissuma se expressa também na tradição local. Para a estudante Luna Soares, de 13 anos, do 7º ano do Ensino Fundamental, o Piaxaxá é uma onomatopeia do bater das asas do beija-flor. Ela diz “eu vi um beija-flor beijando a flor do ingá. Eu vi um beija-flor beijando a flor do ingá. Eu vi um Piaxaxá, um Piaxaxá, um Piaxaxá.” Dançar o Piaxaxá, então, torna-se um ato de memória e pertencimento.

Grupo de estudantes do 7º ano da EREF João Bento faz apresentação da dança regional Piaxaxá, durante a SEMA 2025.
Foto: Robson Almeida Monteiro de Farias

É na escuta do corpo, em movimento coletivo, que se dança o Piaxaxá — dança típica das(os) pescadoras(es), de origem portuguesa, com influências do Coco, da Ciranda e do Maracatu, mistura de fé e brincadeira. Ligado às casas caiçaras, aos mangues e ao litoral, o Piaxaxá expressa o modo de vida de Itapissuma e suas especificidades, como o canal de Santa Cruz e os manguezais. É dança que conta histórias, reza que se dança, riso que se canta. O corpo acompanha o chão, o vento e o som do mar, pois em Itapissuma corpo e território caminham juntos.

Sem registros em cidades vizinhas, o Piaxaxá é exclusivo do município e necessita ser preservado. Esse pertencimento também aparece entre as(os) estudantes da EREF João Bento de Paiva, que demonstram desejo e responsabilidade em manter vivas suas raízes.

O Piaxaxá ensina a partir da vida: o trabalho nas marés, o ritmo das festas, a alegria das ruas e os saberes que circulam no convívio comunitário. bell hooks (2017) lembra que a escola, muitas vezes, separa mente e corpo, como se apenas o pensamento estivesse presente. Uma Educação Integral rompe essa cisão e reconhece um corpo que lê, dança, sente e cria. Nessa perspectiva, o Piaxaxá articula conhecimento, tradição, gesto e ancestralidade, afirmando que cada território produz seus próprios saberes e que educar é também celebrar quem se é.

A arte, ao reconectar cada pessoa à sua identidade mais profunda, forma com a força da própria vida. Histórias recontadas e reimaginadas ressignificam experiências e reivindicam vozes diversas. Assim, a Semana de Artes JB amplia processos formativos ao promover reflexão sobre contextos e realidades, sustentando uma escola que dialoga com a vida por meio de múltiplos olhares e expressões artísticas.

GESTOS DO OFÍCIO DE MESTRE NA EXPERIÊNCIA SEMA JB

A união entre professoras(es) é vista pelas(os) estudantes como um diferencial no processo educacional desta escola, refletindo na capacidade de trabalhar em grupo. A maneira como as(os) professoras(es) articulam o cotidiano escolar coletivamente favorece o aprendizado sobre a importância de respeitar e a diversidade de ideias, ao trabalhar com pessoas diferentes, preparando as(os) estudantes para relacionamentos na vida pessoal e na vida profissional.

A percepção das(os) estudantes sobre o papel docente dialoga com Miguel Arroyo (2002), quando este define o “ofício de mestre” como construção social e política que ultrapassa os muros da escola. Na EREF João Bento de Paiva, a docência afirma-se como prática coletiva que sustenta um currículo ampliado e integrado, fortalecido pelo investimento na carreira e pela dedicação exclusiva.

“Eu acho que o João Bento foi uma escola que me ensinou muito… porque, antes do João Bento, eu já estudei em escola particular e em escola pública, que não fez muita diferença na minha vida. O João Bento foi tipo a libertação (…) pelos professores. Os professores são ótimos! (…) São muito unidos! E isso encoraja a gente a continuar fazendo os projetos, a continuar estudando e seguindo o caminho dos estudos.”

Charlison José Marinho da Silva, 14 anos, estudante do 9º ano do Ensino Fundamental

Maria Eloiza Ferreira dos Passos, 15 anos, estudante do 9º ano do Ensino Fundamental

“Eu acho que o professor, o profissional que vai além da sala de aula, sabe? Ele mostra para a gente, realmente, se a gente quer continuar vivendo essa vida da nossa cidade que, querendo ou não, é rica, mas é uma cidade pequena e que pra abrir o nosso horizonte a gente precisa sair dela, sabe, se desprender de tudo. Muitas vezes, é uma coisa que a gente não leva de casa, a gente não aprende isso em casa e os professores… eles mostram isso pra gente!”

Essas vozes também evocam Freire ao revelar como pequenos gestos docentes — um olhar de reconhecimento, uma escuta atenta — tornam-se forças formadoras que alimentam confiança e pertencimento. Na escola, educandas(os) e educadoras(es) constroem relações marcadas por respeito mútuo e por uma aprendizagem que se tece no coletivo, em uma rede viva de (re) educação cotidiana.

SEMA JB EM ITAPISSUMA: ONDE O TERRITÓRIO FALA E A ARTE ESCUTA

“Quando a maré seca, a verdade aparece!” Essa frase foi criada pelas(os) estudantes durante a SEMA e mostra que, entre o mangue e o mar, a cidade ensina a caminhar de “andada”, a ler o espaço, a decifrar a natureza e a transformar o viver em criação.

Leia o conteúdo completo acessando o texto aqui!

Placas produzidas pelas(os) estudantes da EREF João Bento de Paiva, com frases que refletem sobre o mangue e sua influência na vida das(os) moradoras(es) da região.
Foto: Kattianny Torres

A cidade de Itapissuma e seus arredores são centrais na dinâmica da SEMA JB, integrando o processo educativo e fortalecendo a identidade das(os) estudantes, que reconhecem e valorizam sua cultura, suas famílias e sua história. Com esse vínculo, preservam elementos simbólicos do território — como a caldeirada e o Piaxaxá — e mobilizam sua memória local nas produções artísticas, incluindo os documentários sobre o mangue.

Essa relação aparece nas paisagens, nas tradições e no cotidiano, marcados por tensões sociais, beleza e resistência, elementos que inspiram a estética da SEMA JB e dialogam com referências como o Manguebeat. As(os) estudantes demonstram leitura crítica do território e maturidade política pouco comum para a faixa etária, construindo esse repertório por meio da arte como expressão e investigação.

“Eu estudei em quatro escolas, duas públicas e duas particulares. Sem dúvida, essa é a melhor de todas que estudei, e a segunda melhor foi a outra escola pública. As particulares são mais rígidas, aqui a gente é mais livre. Lá não tem essa ideia de grupo, é sempre a mesma coisa toda semana. Aqui dá vontade de aprender, eu amo passar o tempo aqui na escola. Eu gosto muito de ir pra quadra, das aulas práticas e da comida.”

 

Gabriela Larissa, 13 anos, estudante do 7º ano do Ensino Fundamental

A culminância da SEMA JB em maio homenageia a emancipação política do município, reforçando a centralidade de Itapissuma nas narrativas criadas ao longo dos últimos anos. As referências nordestinas — autoras(es), músicas(os), danças e saberes locais — alimentam autoestima e pertencimento. Quem vivencia a SEMA JB percebe que o território é o fio condutor do Projeto: cada gesto, paisagem e maré revela saberes que brotam da história coletiva e sustentam a potência formativa da experiência.

Apreciar a experiência da SEMA JB na Escola de Tempo Integral requer uma concepção de Educação Integral constituída por olhares diversos de sujeitas(os) de direito. Como afirma hooks (2017), a paixão tem sim lugar na sala de aula, é necessária uma pedagogia que ouse subverter a cisão entre mente e corpo, permitindo a cada pessoa estar presente, por inteiro e com todo o coração, na sala de aula ampliada por olhares múltiplos.

A partir da leitura do mundo como fundamento da leitura da palavra, a SEMA JB volta-se aos saberes sociais construídos coletivamente para dialogar com os espaços de pertencimento reconhecidos e reivindicados pelas(os) estudantes e pela comunidade escolar. Pela ótica da leitura do mundo, a territorialidade e a equidade se fazem presentes, pois o mundo se amplia e a escola abre mão de seus muros. Ler o entorno escolar aponta para a urgência de transformar a palavra-mundo em instrumento de luta e de formação humana.

REFERÊNCIAS

ARROYO, Miguel. Ofício de mestre: imagens e auto-imagens. 5ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.


BARROS, Manoel de.
Memórias inventadas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2018.


CASTRO, Josué de.
Homens e caranguejos. São Paulo: Brasiliense, 1967.


CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI. A cidade. In: CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI.
Da lama ao caos. Rio de Janeiro: Chaos; Sony Music, 1994. 1 CD. Faixa 4.


FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000.  


FREIRE, Paulo.
A escola. Rizoma Freireano [S.I]. Instituto Paulo Freire de España, 2010. Disponível em: https://www.rizoma-freireano.org/poema0808/a-escola-paulo-freire. Acesso em: 22 dez. 2025.


hooks
, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 2ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.


LOBO, Ary.
O Vendedor de Caranguejo. Compositor: Gordurinha. Rio de Janeiro: RCA, 1958. 1 disco sonoro (78 rpm).