
Por Augusta Aparecida Neves de Mendonça, José Roberto de Oliveira Santos, Lorrany dos Santos Valeriano, Luciana Maciel Bizzotto e Maria Djanete Marques

As experiências se transformam em aprendizagem, ligando gerações e fortalecendo raízes na Educação Integral em Tempo Integral no Campo.
Espaço da horta da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral (EMEFI) Manoel Lourenço da Silva.
Foto: Assessoria de Comunicação da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) de Teotônio Vilela
Eu posso mudar, transformar, chegar aonde quiser.” As palavras de Mônica Maria da Trindade Batista, mãe e ex-professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral (EMEFI) Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista, simbolizam a esperança e a força transformadora da educação nas comunidades rurais de Teotônio Vilela. No município alagoano, que conta com 38.052 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), a Educação Integral em Tempo Integral tem promovido mudanças significativas na vida das(os) 7.637 estudantes da Rede Municipal de Ensino – da Educação Infantil aos Anos Finais do Ensino Fundamental – que hoje escrevem novas histórias dentro e fora da escola.
Nas escolas do campo, as vivências da Educação Integral revelam a integração entre escola e comunidade, com práticas socioambientais que tornam o território um espaço de aprendizagem. São apresentadas aqui ações contínuas que acontecem no cotidiano de nove das 16 escolas e um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI), a partir das orientações da Secretaria Municipal de Educação (SEMED). Nesses espaços, a(o) estudante é protagonista: planta, colhe, investiga, questiona e transforma o que aprende em ações que também mudam o lugar onde vive.
“A Educação Integral que vivenciamos aqui é algo muito especial: ela une o saber à terra e faz o estudante sentir que o aprendizado nasce do seu próprio chão. É maravilhosa a sensação de ver crianças que nascem e crescem aqui terem a possibilidade de estudar na sua própria comunidade. Claro que é importante vivenciar outras culturas, obviamente, mas aqui elas têm a oportunidade de valorizar a própria cultura, de aprender e de levar pra casa, e de trazer de casa pra escola os conhecimentos que elas adquirem. Então, isso nos inspira, diariamente, a acreditar que a educação é possível.”
Jane Cléia Pereira da Silva, coordenadora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Vereador Sebastião Lourenço
A Educação Integral do Campo, em Teotônio Vilela, articula os saberes tradicionais aos conhecimentos escolares para promover o desenvolvimento integral das(os) estudantes e para valorizar a cultura local. Desde 2012, o município tem ampliado a Educação em Tempo Integral, com um currículo integrador que reconhece o território como espaço de aprendizado e transformação social.
Sob a liderança da professora Noêmia Maria Barroso Pereira Santos, desde 2008, a SEMED tem buscado superar a precariedade das escolas do campo, investindo na infraestrutura das mesmas e propondo políticas pedagógicas como a Educação em Tempo Integral, Formação Continuada e Avaliação da Aprendizagem. Há investimentos em construções e reformas planejadas para atender com qualidade e equidade as(os) estudantes campesinas(os). São avanços expressivos, com escolas do campo alcançando nota 10 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Alunas(os) da EMEB João Delfino de Barro realizam reflorestamento com plantas nativas em área degradada.
Foto: Arquivo SEMED Teotônio Vilela
“É possível, sim, fazer educação com qualidade. Uma educação pública, que muitas vezes nem a rede privada garante.”
Noêmia Maria Barroso Pereira Santos, Secretária Municipal de Educação

“Para mim, é muito importante que as políticas públicas estejam presentes, pois somente assim os resultados no processo de ensino e aprendizagem podem acontecer. Sinto um orgulho enorme de ser professor do campo e ver, entre meus colegas de trabalho, ex-alunos que estão dando continuidade a um ensino significativo e transformador.”
Manfrini Manoel dos Santos, professor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista
As escolas do campo em Teotônio Vilela funcionam como portas de entrada para o acesso a direitos básicos, revelando uma visão política de centralidade da educação. Cada povoado conta com escola e posto de saúde lado a lado, evidenciando a intersetorialidade no cotidiano — como relata o diretor da EMEFI Jonas José dos Santos, Luciano Carlos dos Santos: “Quando tem aluna(o) com dor de dente, eu ligo pro diretor do posto”. A pressão popular por direitos também se fez presente quando crianças cobraram do prefeito “por que na cidade tem ginásio e no campo não tem?”, e a resposta veio como uma ação concreta. A SEMED conta ainda com equipe de Psicologia e Assistência Social para garantir o cuidado integral que transcende a sala de aula.

A SEMED de Teotônio Vilela investe na criação de documentos orientadores que valorizam o território, a sustentabilidade e a autonomia pedagógica. O Referencial Curricular Municipal (RCM), já em sua segunda edição (2020), e a Política Municipal de Educação em Tempo Integral (PMETI, 2023) reforçam o compromisso com a gestão democrática e a participação coletiva na construção das práticas educacionais do município.
Conheça mais sobre as políticas locais:

Estudantes da EMEFI Odilon Florentino participam de pesquisa na comunidade sobre criação de porcos.
Foto: Arquivo SEMED Teotônio Vilela
CURRÍCULO VIVO E CONTEXTUALIZADO
O currículo das Escolas de Tempo Integral de Teotônio Vilela integra os componentes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) às Atividades Complementares, articulando saberes, natureza e tradições locais na promoção do desenvolvimento integral das(os) estudantes.
Atividades complementares curriculares são estruturadas de forma interdisciplinar, com planejamento conjunto, na perspectiva do desenvolvimento integral das(os) estudantes, com um desenho curricular diverso composto por atividades curriculares obrigatórias e por atividades de interesse, que promovem uma educação científica, humana, tecnológica, ambiental e lúdica.
Os eixos formativos para Anos Iniciais são:
I – acompanhamento pedagógico (oficinas de Língua Portuguesa e Matemática);
II – esportes e lazer;
III – jogos e brincadeiras;
IV – cultura e arte;
V – educação socioambiental;
VI – comunicação, uso de mídias, cultura digital e tecnológica e;
VII – experimentação e iniciação científica.
Os eixos formativos para Anos Finais são:
I – acompanhamento pedagógico (oficinas de Língua Portuguesa e Matemática);
II – estudos orientados;
III – esportes e lazer;
IV – cultura e arte;
V – circuito de aprendizagem territorial e cultural;
VI – educação socioambiental;
VII – educação socioemocional/projeto de vida;
VIII – comunicação, uso de mídias, cultura digital e tecnológica;
IX – experimentação e iniciação científica e;
X – robótica educacional.
“Acredito nas Escolas de Tempo Integral! Vejo o quanto meus filhos gostam das atividades que são desenvolvidas, porque o aprendizado é constante, acontece tanto nas aulas da Base quanto nas Atividades Complementares.”
Amanda Aquino dos Santos, mãe da estudante Ana Heloíse, do 6º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Manoel Lourenço da Silva
A expansão das matrículas na Educação Integral nas escolas do campo tem fortalecido o processo educativo e a integração entre escola e comunidade, promovendo vínculos afetivos e ampliando o alcance das ações pedagógicas. Para Mércia Santos Souza, coordenadora pedagógica da EMEFI Odilon Florentino: “É um trabalho que vai além da sala de aula, alcança o coração das pessoas e fortalece os laços entre escola e território”.

Atividade prática na horta da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista.
Foto: Assessoria de Comunicação da SEMED Teotônio Vilela

A Política Municipal de Educação Integral de Teotônio Vilela articula-se ao Programa de Educação Ambiental: Meio Ambiente, Saúde e Sustentabilidade (2025), que em conformidade com o RCM e o PME, visa a desenvolver, na comunidade escolar e local, a conscientização sobre temas ambientais, saúde e cidadania, promovendo hábitos de conservação, preservação ambiental e desenvolvimento sustentável.

“Minha história se confunde com a própria história da Educação do Campo. Sinto um orgulho imenso de fazer parte desse movimento que transforma vidas e valoriza nossas raízes. Eu escolhi ser professor. Poderia ter seguido qualquer outro caminho, mas a minha paixão é estar na sala de aula, convivendo com meus alunos, aprendendo com eles todos os dias. Eu sou, com muito orgulho, um agente do campo.”
Natanael dos Santos, professor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista
O coordenador do Programa de Educação Ambiental na SEMED, professor João Bosco de Jesus, parceiro das escolas do campo, considera que: “essa questão ambiental que a gente leva, transcende a escola e o aluno. A criança tem o poder de influenciar a própria família. Então, a gente observa que o que está sendo feito está obtendo resultado.”
As escolas tornam-se, assim, espaços onde o conhecimento que nasce do território, em diálogo com a Educação Socioambiental, reafirma a identidade e o sentimento de pertencimento das(os) estudantes do campo e valoriza a cultura local.
“Essa proposta curricular veio amarrar a Educação do Campo, para trabalharmos com gosto. Antes, sentíamos vergonha de dizer que éramos professores do campo quando íamos a Maceió; hoje, somos felizes em afirmar que somos professores do campo de uma escola nota 10!”
Maria dos Anjos, professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista

Professoras se reúnem durante Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC), da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Mízia Bezerra de Farias.
Foto: Arquivo SEMED Teotônio Vilela
As práticas pedagógicas são adaptadas às necessidades locais, valorizando os processos de ensino e aprendizagem. Segundo a professora Cecília Duarte, da EMEFI Maria Idalina da Costa, “nós somos rede!”, destacando a autonomia das escolas em desenvolver suas atividades a partir das orientações da Rede. A coordenadora pedagógica Cristiane Barros Vicente, na EMEFI Manoel Lourenço da Silva, também confirma: “Cada escola tem suas próprias realidades e especificidades, e é justamente isso que torna o trabalho tão rico. O que realmente me motiva é ver cada aluno se reconhecendo, sentindo-se pertencente à sua cultura e à sua comunidade.”
Conheça mais sobre a Pedagogia Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (PEADS) em artigo produzido pela professora Verônica dos Santos Lima, para a Revista Interseção, da Universidade Estadual de Alagoas.
A professora Verônica dos Santos Lima, Coordenadora da Educação do Campo na SEMED, explica como a incorporação da Pedagogia Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (PEADS) ao currículo da Educação Integral fortaleceu os saberes locais e o protagonismo estudantil, na direção de uma Educação Integral do Campo transformadora, que valoriza as comunidades campesinas, promovendo equidade e respeito à diversidade. Tal metodologia tem como etapas: a pesquisa, o desdobramento, a devolução e a avaliação.
O senhor José Romão, pai e estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e parceiro da EMEFI Mízia Bezerra de Farias, compartilha como a escola transforma a comunidade. A partir de discussões em sala, ele desenvolveu quintais produtivos e um jardim rentável em casa, gerando uma nova fonte de renda familiar. Para ele, a escola promove transformação social, cultural e sustentável, fortalecendo vínculos e o sentimento de pertencimento, e destaca o quanto é gratificante ver ex-estudantes retornarem às comunidades valorizando suas raízes e a cultura local. O currículo ganha sentido também nas experiências das(os) estudantes, que percebem o quanto os aprendizados transcendem os conteúdos tradicionais.
“Aprendo a viver a vida, a ser do jeito que eu sou.”
Tailan Demério dos Santos, estudante do 8º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Manoel Lourenço da Silva
“Aprendo a respeitar meus colegas, professores e funcionários.”
Ana Julya, estudante do 5º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Manoel Lourenço da Silva

Assim, a escola torna-se mais que um espaço de transformação, com currículo do campo pautado em Educação Integral contextualizada: é território no qual o ensino se constrói de forma significativa e com qualidade.

Estudantes da EMEFI Vereador Sebastião Lourenço participam de atividade de reflorestamento com plantas nativas.
Foto: Arquivo SEMED Teotônio Vilela
“Aprendo a cuidar da natureza.”
Eduardo Vieira dos Santos, estudante do 8º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Manoel Lourenço da Silva
“Aprendo também várias maneiras de cuidar do próprio corpo, fazendo exercícios.”
Emanuelly Janice dos Santos Silva, estudante do 9º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Manoel Lourenço da Silva

O “TEMPO DA(O) PROFESSORA(O)”:
VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL E FORMAÇÃO CONTINUADA
Desenvolver a educação no contexto campesino exige políticas públicas que promovam igualdade, respeitando as diferenças e incluindo a formação de professoras(es) voltada para essas especificidades. O trabalho pedagógico deve considerar a realidade sociocultural do campo e estruturar a educação como um processo emancipatório.
A diversidade das ações escolares sustenta-se em base sólida: valorização profissional e formação continuada em serviço. O Programa Municipal de Formação Continuada reafirma a formação como política pública consolidada, garantindo que todas(os) as(os) profissionais — professoras(es), gestoras(es) e equipe de apoio — tenham acesso a oportunidades formativas. Um terço da carga horária é destinado à formação, realizada em dias fixos quando a(o) professora(o) não está em sala, evidenciando que o investimento na formação não é complemento, mas essência da política educacional do município.
“Nós, professoras do campo, somos felizes, porque fazemos da educação um processo emancipatório, que transforma vidas e fortalece nossas raízes. Eu acredito, profundamente, que a organização do trabalho pedagógico nas escolas do campo precisa respeitar a especificidade da nossa educação e dos sujeitos camponeses. Cada planejamento, cada atividade e cada projeto que desenvolvemos faz parte da realidade do nosso povo, dos seus saberes e dos seus modos de viver e produzir.”
Maria dos Anjos, professora do 5º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista
A formação acontece quinzenalmente com equipe dedicada a esse propósito, composta por profissionais experientes, que dialogam com a prática, demonstrando o caráter investigativo da(o) professora(or) enquanto pesquisadora(or). Como relata o educador Natanael dos Santos: “A formação continuada é de suma importância, pois tem como centralidade o desenvolvimento da minha prática docente, tornando-me um agente transformador e multiplicador.”
Os encontros formativos realizados reúnem professoras(es) da Base Nacional Comum Curricular e das Atividades Complementares para estudo do currículo fundamentado na BNCC, além de formação para coordenadoras(es) pedagógicas(os) e gestoras(es) escolares. Já os itinerários formativos abrangem discussões sobre currículo contextualizado do campo, Educação Socioambiental, Educação em Tempo Integral e temáticas étnico-raciais e inclusivas. Outro elemento inspirador dessa política é o Centro de Formação Continuada Professor David Daniel Silva Pereira, espaço físico pensado para acolher os encontros formativos.

Turma multisseriada da EMEFI Maria Idalina da Costa.
Foto: Arquivo SEMED Teotônio Vilela
Há respeito ao “tempo do(a) professor(a)”, garantido por meio do Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) na carga horária docente. Esse momento é essencial para planejamento, estudo e reflexão coletiva, fortalecendo a prática pedagógica e assegurando condições reais de preparar aulas com qualidade e intencionalidade.
A coordenadora escolar Ameires dos Santos Lima complementa destacando o trabalho interdisciplinar com ênfase no planejamento, monitoramento e estudo, como espaço de desenvolvimento de práticas integradoras na Educação Integral em Tempo Integral do Campo.
“Os momentos de HTPC são riquíssimos, pois discutimos coletivamente o currículo integrado, as orientações da rede, compartilhamos ideias e construímos projetos, num diálogo articulado entre Professores da Base e das Atividades Complementares.”
Cícera Célia Lima Santos, professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Manoel Lourenço da Silva
“LAMBUZAR-SE NA PRÁTICA”:
ATIVIDADES CONTEXTUALIZADAS
Para a professora Verônica dos Santos Lima, “uma educação contextualizada possibilita melhor
e maior aprendizado nos alunos, visto que o conhecimento ganha significado.”
A principal chave do sucesso das Escolas de Tempo Integral do Campo vai além de um currículo alinhado à PEADS, mas está nas práticas contextualizadas que dão vida ao que se aprende. Essas práticas, cuidadosamente organizadas na escola e difundidas nos diversos territórios de aprendizagem, transformam o conhecimento em experiência viva. São estratégias que permitem às(aos) estudantes e professoras(es) “lambuzarem-se na prática”, como define o professor Manfrini Manoel dos Santos.
Entre muitas práticas, destacam-se: as hortas escolares e as farmácias vivas, o Seminário e a Mostra Ambiental Saberes e Sabores do Campo, o Projeto Papa-Pilhas e pesquisas de campo sobre agricultura familiar, piscicultura, pecuária e reforma agrária; os quintais produtivos, o reflorestamento nas áreas nascentes, o jardim rentável, as oficinas de sabão ecológico, entre outras.

“Desenvolvemos em nossa escola um trabalho interdisciplinar com ênfase no planejamento, monitoramento e estudo, discutindo a teoria alinhada à prática e tendo como referência os documentos norteadores e a metodologia da PEADS, trazendo um trabalho interdisciplinar com práticas e integradoras na Educação Integral em Tempo Integral do Campo.”
Ameires dos Santos Lima, coordenadora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral José Venceslau da Costa
“Tenho a satisfação de estudar, desde os meus três anos, nesta comunidade. Aqui, aprendi coisas que eu nem imaginava que existiam. Conhecemos os quilombos, a culinária, suas culturas. Isso é muito importante, pois temos esse privilégio de termos diversas culturas aqui no nosso distrito.”
Ederlayne Maria dos Santos Silva, estudante do 9º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Manoel Lourenço da Silva
São práticas carregadas de profundos significados de pertencimento e identidade, como as atividades pedagógicas, culturais e formativas que a EMEFI Mízia Bezerra de Farias realiza junto à comunidade quilombola Birros, que reconhecem e valorizam a ancestralidade negra e a resistência quilombola.
O estudo e uso das plantas medicinais, tradição passada entre gerações, são incorporados às práticas escolares para resgatar e honrar saberes ancestrais.
“Sou estudante do 7º ano e posso dizer que uma das coisas que mais gosto nas aulas são as pesquisas de campo. É diferente sair da sala, observar o que está ao nosso redor, fazer anotações e perceber que o aprendizado também acontece fora dos livros. Quando a gente vai a campo, parece que o conteúdo ganha vida — eu começo a entender melhor o que antes era só teoria. Depois, quando voltamos para a sala e fazemos a roda de conversa, é o meu momento preferido.”
Rayane Beatriz dos Santos, estudante do 7º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista
“Antes de vivenciar esse processo na escola, eu sentia vergonha de me reconhecer como mulher preta e quilombola. Hoje, a escola me ajudou a compreender, a aceitar e me orgulhar da minha identidade. Foi aqui que aprendi a me ver de verdade, a entender que minha cor, minha história e minhas raízes são motivo de orgulho.”
Valderez dos Santos Bispo, professora quilombola

O professor Manfrini Manoel dos Santos defende que “tirar o aluno da escola envolve um risco, mas a gente tem que fazer isso”, destacando a importância da aprendizagem pelo contato direto com o território. Nas experiências práticas, os estudantes combinam brincadeiras tradicionais — como pega-pega, pular corda e futebol — com vivências culturais — como visitas à casa de farinha, onde conhecem o “salamin” (instrumento de medição usado na produção da farinha de mandioca), o fuxico das mulheres e a receita do “beiju grolado” (receita tradicional da culinária alagoana feita a partir do polvilho de mandioca hidratado) —, integrando memória, cultura local e aprendizado.
As pesquisas de campo realizadas pelas(os) professoras(es) tornam o aprendizado mais significativo e conectado à realidade das(os) alunas(os), permitindo que observem, experimentem e reflitam sobre o mundo ao redor. Esse processo transforma o ensino em um encontro de afetos, saberes e descobertas, fortalecendo aprendizagens múltiplas, valorizando a participação das(os) estudantes e aprimorando a qualidade das práticas pedagógicas.
O encantamento das(os) estudantes também envolve a comunidade. Maria Claudiene da Silva, mãe do estudante Nicolas dos Santos Silva, do 4º ano da EMEFI Manoel Lourenço da Silva, relata: “Meu filho chega em casa empolgado, falando das plantas e do cuidado com a terra. Foi ele quem convenceu a avó a fazer uma horta no quintal”. Para ela, a atividade socioambiental é a favorita do filho, pois desperta responsabilidade e amor pela natureza. Ela completa: “Hoje, ele ensina a gente a plantar, a regar e até a aproveitar o que colhemos. A escola está transformando não só ele, mas toda a nossa família.”
DIREITO À EDUCAÇÃO DO/NO CAMPO:
RELAÇÕES INTERGERACIONAIS E TURMAS MULTISSERIADAS
Em Teotônio Vilela, as escolas do campo em Tempo Integral valorizam o espaço rural como um lugar de vida, cultura e direitos, incentivando a pesquisa, ampliando a visão de mundo e fortalecendo a identidade e a cidadania coletiva das(os) sujeitas(os) locais.
A equipe local fortalece vínculos com a comunidade e compreende melhor a realidade das(os) estudantes, contribuindo para o trabalho pedagógico e a redução da evasão. Nesse sentido, Ameires dos Santos Lima, coordenadora da EMEF José Venceslau da Costa, defende: “a Educação do Campo exige de nós a militância por um mundo melhor.”
Seguindo esta linha de pensamento, o ensino valoriza a vida no campo, a cultura campesina e empodera as(os) estudantes, combatendo estigmas e mostrando que é possível sonhar e realizar.

“A gente não trabalha só dentro dos muros da escola. Isso é o que faz parte da política educacional integral. Aquele processo de levar o aluno para dizer ´essa planta é nativa´, ´essa planta é oriunda de outros locais´… Essa ida a determinado lugar faz com que o aluno ponha, realmente, a mão na massa: junta a parte científica com a parte dos saberes vividos naquele local. Assim, ele não precisa ir para outras regiões em busca de melhores condições de vida. E sabe que aqui, trabalhando de uma forma cultural, de uma forma científica, tem como sobreviver.”
Moacir Silva da Trindade, professor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Profª Márcia Neusilene da Trindade Batista
“Eu sou um dos professores pioneiros daqui e me tornei um professor orgânico, que é aquele que sai da comunidade, vai em busca de conhecimento, mas volta para contribuir com a comunidade, sem esquecer das suas raízes. A gente tem que trazer as nossas experiências para que os nossos alunos se espelhem e possam, mais tarde, também transmitir esses conhecimentos. Uma vez sendo no campo, já fomos taxados pelos outros de ´mandioqueiro´, ´papa-farinha´, ´papa-manga´, ´pé-rachado´. A gente sofreu muito isso durante a nossa trajetória. Eu passei por isso e nós temos o privilégio, hoje, de ver as nossas crianças, todas aqui. Então, eu acho que o nosso trabalho fortalece o nosso território, o nosso município.”
José Balbino da Silva, professor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista


Atividade pedagógica na Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral Mízia Bezerra de Farias da Comunidade Quilombola de Birros.
Foto: Arquivo SEMED Teotônio Vilela
Essa troca entre gerações fortalece a comunidade, enquanto atividades práticas estimulam o aprendizado e o compartilhamento com a família. Isso se revela na história da Girlene Ferreira Matias, mãe da estudante Lanna Cristiny de Oliveira Matias, do 6º ano da EMEFI Professora Márcia Neusilene da Trindade Batista, que refuta a ideia de que o horário integral seria apenas para brincadeiras e destaca seu papel no aprendizado efetivo: “No trabalho sobre plantas medicinais, a minha filha ficou responsável por uma planta que eu nem sabia para que servia. Ela fez o chá e falou: ´Mãe, esse tipo de chá tem que ser tomado logo, porque se demorar, ele acaba adquirindo uma substância que faz mal´. Ela aprendeu aqui na escola, junto com a professora. Então, o conhecimento deles não fica só aqui. Eles levam para casa e a gente também acaba aprendendo junto com eles.”
O direito à educação do/no campo vincula-se à permanência das escolas: no município, Escolas de Tempo Integral mantêm turmas multisseriadas, que reúnem estudantes de diferentes idades em uma sala, formato que os mantém em seus territórios e evita a nucleação ou transporte para zona urbana.
O sistema multisseriado oferece aprendizado colaborativo, valorizando as experiências de vida das(os) estudantes e promovendo desenvolvimento integral. A diversidade de níveis exige planejamento cuidadoso e formação continuada para atender às necessidades de todas(os). A professora Jane Cleia Pereira da Silva destaca o desafio de romper o preconceito de que “as crianças não aprendem” nesse modelo, afirmando: “A criança que está no primeiro ano também vê assunto do terceiro ano; é impossível ela não aprender alguma coisa ali junto.”
As professoras Célia Lira Simão da Silva e Juliana Albuquerque Barros, da EMEFI João Delfino de Barros, relatam que a experiência transformou medo em paixão: “Aqui não se ´divide o quadro´ por série, mas misturam-se atividades trabalhadas de forma integrada”. As atividades, além de integradas, são diversificadas, com estudantes mais avançadas(os) ajudando as(os) colegas, desenvolvendo empatia e cuidado mútuo. Para a equipe, a turma multisseriada é uma “solução”, garantindo aprendizado sem que as(os) estudantes precisem se afastar de sua comunidade.
SEMEAR FUTURO, COLHER TRANSFORMAÇÃO
A Educação Integral em Tempo Integral do Campo articula-se a um projeto de desenvolvimento local sustentável, no qual as(os) estudantes circulam pelos territórios, apropriando-se dos saberes locais e ampliando seu repertório sociocultural. O currículo vivo rompe com o formato tradicional do livro didático, articulando conhecimento acadêmico e prática, e explorando a interdependência entre rural e urbano sem comprometer a qualidade: as escolas mantiveram resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) pós-pandemia, provando que contextualização e excelência acadêmica são caminhos complementares.
No município de Teotônio Vilela, a implementação da política de Educação Integral se dá a partir do reconhecimento de que as pessoas do campo têm direito a uma educação que atenda suas especificidades, incentivando práticas pedagógicas contextualizadas e valorizando o campo como lugar de trabalho, cultura e produção de conhecimento.
Percorrer as escolas do campo no município alagoano revela mais que boas práticas, mas demonstra um modo de fazer educação com alma, no qual a(o) professora(or) é valorizada(o), tem voz, tempo e espaço para transformar.
De encontro em encontro, essa Rede escreve sua história com tinta de pertencimento e papel de futuro, provando que a verdadeira transformação começa na sala de aula, no olhar de quem acredita que ensinar é acender vidas e que investir em educadoras(es) é semear o futuro com o poder transformador da escola.


Atividade de construção de gráfico após aula prática sobre quantidade de árvores frutíferas
na comunidade da EMEFI José Venceslau da Costa.
Foto: Arquivo SEMED Teotônio Vilela

REFERÊNCIAS
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: Ministério da Educação/Consed/Undime, [2017]. Disponível em: http://basenacionalcomum. mec.gov.br. Acesso em: 12 fev. 2026.
TEOTÔNIO VILELA. Secretaria Municipal de Educação. Referencial Curricular da Rede Municipal de Ensino de Teotônio Vilela. 2ª ed. Teotônio Vilela: SEMED, 2020. Disponível em: https://www.teotoniovilela.al.gov.br/
noticias/referencial-curricular-municipal-%E2%80%93-rcm. Acesso em: 12 fev. 2026.
TEOTÔNIO VILELA. Secretaria Municipal de Educação. Política Municipal da Educação em Tempo Integral. 1ª ed. Teotônio Vilela: SEMED, 2023.
PREFEITURA MUNICIPAL DE TEOTÔNIO VILELA:
Site: teotoniovilela.al.gov.br
Instagram: @prefeituradeteotoniovilela
PREFEITURA MUNICIPAL DE TEOTÔNIO VILELA:
Site: www.teotoniovilela.al.gov.br
Instagram: www.instagram.com/prefeituradeteotoniovilela