Por Bruna D’Carlo Rodrigues de Oliveira Ribeiro, Charliane Santos do Vale, Ítalo Diego Azevedo Muniz, Mara Catarina Evaristo, Moisés da Silva Antunes e Rosângela Ribeiro Almeida

Da Eletiva à Política Curricular Municipal de Codó (MA).
Roda de conversa sobre a MICA, com professoras(es), pesquisadoras(es) e estudantes da Escola Senador Archer.
Foto: Moisés Antunes

“Vimos a oportunidade de criar um espaço em que pudessem se expressar livremente, com orgulho de suas raízes e sem receio de afirmar: ‘eu sou do Candomblé’, ‘eu sou da Umbanda’, ‘eu amo o Terecô’.” A fala da professora Charliane Santos do Vale, da Escola de Tempo Integral Renato Archer (ETIRA), no município de Codó (MA), traz a essência e o ponto de partida para a criação da disciplina eletiva de Educação Integral, a “MICA – Memórias, Identidades, Culturas e Ancestralidades” na unidade escolar. Uma resposta pedagógica, articulada pela educadora em conjunto com estudantes, famílias e mestras(es) locais, diante do silenciamento imposto pelo racismo, e abrindo o currículo para as vozes e a cultura do território.
Havia, naquele momento, a percepção de que as(os) estudantes, apesar de participarem ativamente de práticas religiosas e culturais de matriz africana em suas comunidades, não se sentiam à vontade para expressá-las na escola, por receio do preconceito. Assim, a disciplina nasce da observação atenta do cotidiano escolar e da necessidade de serem criados espaços de pertencimento e acolhimento, tendo como temática central a Cultura Afro-Brasileira no território.
Ainda que a disciplina tenha sido efetivada no currículo, sua presença só foi garantida por meio do protagonismo das(os) estudantes, que ali se propuseram a colocar em primeira pessoa suas vivências extra-muros da escola. E, não por coincidência, tornou-se um espaço de afirmação positiva da identidade negra, partindo das características do próprio município.
No entanto, essa riqueza cultural convive com o peso de desafios históricos relacionados à intolerância religiosa e ao racismo, que comprometem a plena cidadania. Tais questões trazem desafios a serem enfrentados pela escola, que precisa garantir, sob o princípio da laicidade, o sentimento de pertença, a valorização e o reconhecimento de todas as manifestações da Cultura Africana e Afro-Brasileira, sem qualquer discriminação.
Com base nas práticas construídas coletivamente na Escola de Tempo Integral Renato Archer — tecidas por meio de sua forte identidade negra —, a MICA consolidou-se como componente da Educação Integral, articulando música, dança, oralidade, arte, cartografias afetivas e visitas de campo. Não se trata, então, de inserir a religião no contexto escolar, mas, sim, problematizar as afro-brasilidades enquanto elementos da construção da identidade negra em consonância com o que orbita no território. Seu percurso afirma o compromisso das escolas com a valorização das Culturas Afro-Brasileiras e com a formação de sujeitas(os) históricas(os), conscientes de sua ancestralidade.


Roda de conversa sobre a MICA, com professoras(es), pesquisadoras(es) e estudantes da Escola Senador Archer.
Foto: Moisés Antunes
CONTEXTO LOCAL:
UMA CIDADE MARCADA POR MANIFESTAÇÕES AFRO-BRASILEIRAS
O município de Codó, localizado no interior do Maranhão, na região Nordeste – situado a cerca de 290 quilômetros da capital, São Luís – possui mais de 400 terreiros ativos e uma tradição espiritual marcada pelo Tambor de Mina, Terecô e outras manifestações afro-brasileiras. Essa diversidade cultural convive com desafios históricos de racismo e intolerância religiosa, sendo foco da Secretaria Municipal de Educação o mapeamento de ações educativas que busquem a superação destes desafios. Atualmente, a Rede Municipal reúne 156 escolas, sendo aproximadamente 90 rurais, com boa parte delas localizadas em comunidades quilombolas.
A iniciativa MICA vem se expandindo gradualmente como política pública, integrando o currículo da Educação Integral e inspirando diretrizes municipais no escopo da igualdade racial e valorização da diversidade cultural. A transição da MICA de disciplina eletiva à componente curricular da Rede Municipal de Educação abre espaço para discussão da participação das comunidades tradicionais na construção de um currículo vivo e que não se descola da realidade e da cultura vivenciada pelas pessoas que fazem parte do processo educativo.
“A MICA não inventa algo alheio a Codó; ela dá vazão à nossa criatividade e ao pertencimento às Culturas Afro-Brasileiras e Indígenas. Por isso, foi bem recebida: fala daquilo que somos. Mas, toca feridas e isso exige coragem, diálogo e cuidado.”
Ricardo Torres, Secretário Municipal de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação [SEMECTI]
“Eu disse assim: ´ Mãe, lembra daquele desfile que eu participei na escola? Pois é, virou uma atividade de sala de aula agora.´ Eu acho que ela ficou feliz com isso! (…) Lá no meu terreiro também, as pessoas sabem desses momentos e eu ainda vou comentar com eles essa parte. Eu já sou do terreiro, é parte da minha vida. E a minha vida, até que enfim, entrou para a escola. E virou agora uma atividade de sala de aula. A minha cultura está na escola. E salve as forças dos vovôs!”
Layza dos Santos Muniz, 16 anos, estudante do 9º ano da Escola de Tempo Integral Renato Archer, em 2024
Diante dos resultados expressivos obtidos pela experiência inicial, a MICA foi expandida, em 2025, para mais cinco Escolas de Tempo Integral da Rede Municipal de Ensino de Codó, localizadas em diferentes contextos urbanos e rurais, fortalecendo seu caráter de política pública inclusiva e representativa. Essa ampliação foi realizada às vistas de ampliação de abrangência e impacto cultural e educacional da ação, por meio da efetivação das Leis n° 10.639 (Brasil, 2003) e n° 11.645 (Brasil, 2008).
MICA EM AÇÃO:
CARTOGRAFIAS E DIRETRIZES PARA A EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
A força desta iniciativa encontra sua metáfora no coco babaçu, um símbolo da resistência e da riqueza cultural de Codó. A experiência transformou o contexto escolar, criando ambientes de valorização cultural, e representou um avanço na política educacional, ao buscar conectar a escola ao território e valorizar as memórias locais, atuando diretamente em alinhamento com a diretriz da Política de Educação Integral em Tempo Integral – educação pela equidade, antirracista e contra todos os tipos de discriminação.
A METÁFORA DA RESISTÊNCIA: O COCO BABAÇU COMO SÍMBOLO DA MICA
CAMINHOS QUE SE ENREDAM:


Mural da Escola Senador Archer.
Foto: Moisés Antunes
Registro de atividade feita por aluna durante visita da equipe de pesquisadoras(es) do Projeto na Escola de Tempo Integral Renato Archer (ETIRA)
Foto: Bruna D’Carlo

Registro de atividade feita por aluna durante visita da equipe de pesquisadoras(es) do Projeto na Escola de Tempo Integral Renato Archer (ETIRA)
Foto: Bruna D’Carlo
CARTOGRAFIA METODOLÓGICA DA MICA: O TEMPO ESPIRALAR
O eixo metodológico da MICA estrutura-se a partir do conceito de tempo espiralar, formulado por Leda Maria Martins (2021), que rompe com a linearidade cronológica ocidental e aproxima-se das cosmopercepções africanas e afro-brasileiras. Nessa perspectiva, o tempo é compreendido como um movimento circular e contínuo.
A compreensão é que os corpos são políticos e que o movimento das vivências e saberes do território encena repetições, voltas e retornos de cantos, danças, culturas e memórias, atuando na manifestação de um tempo que se faz em espiral, onde começo, meio e recomeço se fundem em movimento constante e progressivo. É, como diz Martins, “um tempo que não elide as cronologias, mas que as subverte.” (2021, p. 42).
A experiência organiza-se em círculos de travessia, também chamados de rodas, núcleos da espiral ou oficinas, que simbolizam o aprendizado como processo de reconstrução constante. Cada escola inicia sua travessia pelo ponto que mais dialoga com sua realidade, permitindo que o percurso se desenhe conforme as vozes da comunidade, os saberes do território e as potências de professoras(es) e estudantes.
As seis forças da MICA — ou núcleos da espiral — representam dimensões complementares da experiência:
TERRITÓRIOS E MAPAS
Reconhecer-se nos territórios africanos e afro-brasileiros é compreender que a história da diáspora não se limita ao deslocamento forçado, mas à capacidade de recriar mundos. As mulheres e os homens africanos que cruzaram o oceano, mesmo em meio à dor e à violência, semearam caminhos, saberes e modos de existir que permanecem vivos nas palavras, nos corpos, nas formas de educar e celebrar a vida.
O racismo, em suas múltiplas formas, tenta apagar esses rastros — desmarcar territórios, silenciar línguas, interditar presenças. Ainda assim, os vestígios estão lá: nos gestos, nas festas, nos nomes e nas lembranças que o tempo não levou. A experiência explicita o que sempre esteve presente, convida as escolas a desenhar seus próprios mapas afetivos e a reconhecer o território como espaço de memória e resistência.
SABORES E SABERES
Partilhar o alimento é também partilhar conhecimento. Cozinhar, plantar, colher e narrar histórias sobre o que se come são gestos de memória e pertencimento. No chão das escolas de Codó, o milho, o arroz e o azeite se misturam aos frutos do território — como o coco babaçu, quebrado com paciência e força pelas mulheres das comunidades. Esses alimentos, cheios de história, tornam-se pontes entre o ontem e o hoje, revelando a resistência, a criatividade e a sabedoria coletiva das quebradeiras de coco, das famílias agricultoras e das cozinheiras escolares.
A iniciativa amplia essas vivências, transformando o ato de alimentar em prática pedagógica: os espaços de plantio e a merenda tornam-se lugares de aprendizado, e o alimento é reconhecido como memória e cultura viva.
MUSICALIDADES E MOVIMENTOS
A musicalidade é corpo e memória. Em Codó, ela pulsa nos toques do Tambor de Mina, nas cantigas do Terecô, nas rodas de capoeira e nas festas populares que atravessam as comunidades. Essas expressões, muitas vezes restritas aos terreiros e às casas, seguem resistindo — lembrando que o som, o canto e a dança são linguagens de fé, de luta e de pertencimento.
A MICA abre caminhos para que essas musicalidades cheguem à escola como experiências de escuta, ritmo e criação coletiva. Cantar, tocar e dançar são gestos que ensinam, porque o corpo que se move também pensa, sente, aprende e ensina.
BRINCADEIRAS E LUDICIDADE
Explorar as cores, os tecidos, tramas e símbolos é também reconhecer o direito de ser visível, de ocupar o espaço com as próprias cores e de afirmar identidades. As cores carregam memórias e anunciam pertencimentos. Em Codó, elas se expressam nas festas do Divino, nas bandeiras do Tambor de Mina, nos panos e adornos das celebrações quilombolas e dos terreiros.
A escola torna-se um ateliê de experimentações simbólicas, em que o bordado, a pintura e o tecido são tempo e tessitura. Nas oficinas da MICA, esses elementos tornam-se expressões artísticas que promovem reflexões sobre estética e pertencimento afro-brasileiro.
COSMOLOGIAS E MATRIZES
Codó é território de espiritualidades múltiplas — das tradições cristãs ao Tambor de Mina, do Terecô aos cultos aos encantados e às rezas dos caboclos. Essa diversidade forma uma paisagem espiritual que atravessa gerações e dá sentido à vida comunitária.
Durante muito tempo, o racismo religioso tentou silenciar esses saberes, marcando-os com estigma e medo. Ainda assim, eles seguem vivos — guardados por mães, pais, mestras e mestres, por suas filhas e seus filhos, que mantêm as tradições e as renovam no cotidiano.
A MICA reconhece o Candomblé, a Umbanda e as tradições africanas como expressões de ancestralidade e de fé presentes em Codó, valorizando-as como parte da história viva da cidade. As instituições educacionais se afirmam, assim, como espaços de acolhimento e respeito, onde o sagrado das(os) estudantes não é apagado nem silenciado, mas compreendido como parte essencial de suas vidas e das vidas de suas famílias.
MEMÓRIAS E NARRATIVAS
As infâncias e as adolescências de Codó convivem com o rio Itapecuru, com a terra, com as árvores e com os quintais das comunidades. As brincadeiras e jogos são modos de aprender, de sonhar e de existir no território. A experiência resgata o brincar como linguagem de potência e expressão, na qual o corpo é livre para criar, correr, cantar e experimentar o mundo. A ludicidade, compreendida como força vital, ensina que o conhecimento se constrói com curiosidade, alegria e encantamento.
Atividade cultural promovida pela MICA na Escola Renato Archer.
Foto: Charliane Santos do Vale


Escuta das mais velhas na Escola Municipal Rosalina Zaidan.
Foto: Moisés Antunes
CONHECENDO AS RODAS/NÚCLEOS DE ESPIRAL/OFICINAS
RODA DA ORIGEM – TERRITÓRIOS E COSMOLOGIAS
- Produção de mapas afetivos e mapas do bairro, com histórias de formação, nomes e famílias.
- Rodas de conversa sobre as origens africanas, quilombolas e religiosas da comunidade.
- Exposições de fotos e painéis com retratos e memórias das(os) estudantes.
- Visitas e caminhadas mediadas pelo território (terreiros, festas, marcos históricos).
RODA DOS SONS – SONS E MOVIMENTOS
- Apresentações musicais com instrumentos locais (tambor, atabaque, pandeiro).
- Criação de músicas autorais inspiradas em ritmos afro-brasileiros (Tambor de Mina, Terecô, Capoeira).
- Corais e grupos de percussão com coreografias inspiradas em festas locais.
- Oficinas sobre música e tradição, articulando canto, oralidade e corporeidade.
RODA DOS SABORES – SABORES E SABERES
- Feira de comidas e brincadeiras tradicionais, com receitas e histórias contadas pelas(os) mais velhas(os).
- Registro culinário ilustrado ‘Da semente ao prato’, com fotografias e depoimentos.
- Oficinas sobre plantas medicinais e temperos de matriz africana e quilombola.

RODA DAS CORES – CORES, TECIDOS E SÍMBOLOS
- Oficinas de penteados e moda afro-brasileira, conduzidas por estudantes e famílias.
- Confecção de máscaras, roupas e adereços inspirados em festas e tradições locais.
- Exposições e desfiles comentados, explicando o significado das cores e símbolos.
RODA DA MEMÓRIA – DIÁSPORAS E COMUNIDADE
- Mostras culturais com narrativas orais e poéticas: “O que veio com nossas(os) avós(ôs)”.
- Diários visuais ou cadernos de memórias reunindo histórias familiares e provérbios.
- Encenações teatrais sobre trajetórias negras, indígenas e quilombolas de Codó.
RODA DO PERTENCIMENTO – SÍNTESE E TRAVESSIA
- Festival MICA: evento anual com apresentações, comidas, música e exposições.
- Círculos de partilha com mestras(es), mães e pais, e lideranças locais.
- Instalações artísticas coletivas, como murais, árvores da ancestralidade e mandalas de memórias.

A articulação da experiência com as famílias garante que o saber do território e da cultura estejam presentes na escola, de forma não hierarquizada. Neste sentido, pode-se vislumbrar a abertura de brechas neste movimento, por meio de roda de conversa com familiares das(os) estudantes, conectando escola e famílias.
Um exemplo é o Quilombo dos Matões dos Moreira, em que o viver quilombola, pelo olhar das(os) mais velhas(os), de forma sensível e bonita, transmite saberes e historicidade do território, pela oralidade. Os olhos atentos das(os) mais novas(os) acendem um esperançar da relação de proteção e continuidade. Ao trazer figuras centrais dos quilombos para dialogar com a escola, tem-se uma fonte de preservação da história e cultura do território, em uma relação com as(os) estudantes, permeada pelo respeito e pela diversidade.
Em complemento à valorização da oralidade e dos saberes do território, a experiência promove um investimento na diversificação do acervo literário escolar, promovendo a literatura afro-brasileira e garantindo que as narrativas e as referências culturais levadas às(aos) estudantes sejam plurais e antirracistas.
Essa ação vai além da leitura obrigatória. Ela busca, intencionalmente, obras que reflitam a experiência negra, permitindo que as(os) estudantes se vejam representadas(os) de forma positiva e que a comunidade escolar acesse perspectivas que, historicamente, foram negligenciadas na educação escolar. Dessa forma, a MICA articula o conhecimento oral com o conhecimento escrito, fortalecendo a identidade e a autoestima, e transformando o ambiente escolar em um polo difusor da diversidade cultural brasileira.


Registro de atividade realizada durante visita da equipe de pesquisadoras(es) do Projeto na Escola Renato Archer.
Foto: Moisés Antunes
NOVOS RUMOS:
DESAFIOS, SUSTENTABILIDADE E INSTITUCIONALIZAÇÃO
A consolidação da MICA, em Codó, tem sido marcada por um conjunto de desafios que se transformaram em oportunidades de aprendizado e de fortalecimento institucional. O processo de implementação revelou tensões, resistências e caminhos de superação que reafirmaram a potência da Educação Integral como política pública enraizada nos territórios.
O primeiro e mais profundo desafio foi enfrentar o racismo religioso e o silenciamento das práticas culturais de matriz africana e indígena, que por muito tempo permaneceram invisibilizadas no cotidiano escolar, onde prevaleciam concepções pedagógicas centradas em matrizes eurocêntricas. Além desse desafio histórico, a experiência exige a superação contínua de questões estruturais e pedagógicas. É preciso garantir espaços de escuta e acolhimento, para que o racismo religioso não gere silêncios, nem desconfortos. A Rede necessita de formação docente continuada e abrangente sobre as relações étnico-raciais para todas(os) as(os) profissionais, e as atividades requerem sustentabilidade pedagógica como prática transversal. Estruturalmente, a iniciativa ainda enfrenta limitações de recursos, como a dificuldade de transporte no período das chuvas, a carência de materialidade para sustentar práticas de campo mais frequentes, oficinas de arte e produção de acervos culturais. Outro desafio é a ampliação da participação comunitária, para fortalecer vínculos com mestres(as) de tradição e comunidades tradicionais.
Em resposta a esses desafios, a MICA – que pode ser identificada como uma ação político-pedagógica de escuta e acolhimento – vem provocando um olhar das escolas para o território, a partir de novas perspectivas capazes de reconhecer a força dos saberes locais e das expressões de espiritualidade, arte e resistência que o compõem. A superação das tensões iniciais demandou – e ainda demanda – formação continuada, diálogo constante e mediação comunitária sensível, promovendo encontros entre docentes, famílias, mestres(as) e lideranças culturais.
Com o tempo, as oficinas vêm se tornando um espaço de convivência e formação, no qual o respeito à ancestralidade é compreendido como parte indissociável de uma Educação Integral e cidadã. Paralelamente, houve o fortalecimento do diálogo intersetorial entre as áreas de Educação, Cultura, Igualdade Racial e Assistência Social. Essa articulação demonstrou que a escola, para ser integral, precisa ampliar suas fronteiras, reconhecendo o território como parte do currículo, o que resulta em aproximações efetivas com grupos culturais, terreiros, quilombos e coletivos artísticos.
Do ponto de vista da institucionalização, a Secretaria Municipal de Educação optou por transformar a MICA em componente curricular eletivo, inserido no currículo diversificado em 2025. Esse passo não apenas assegura sua base legal, mas permite sua expansão estratégica: a eletiva está sendo ampliada para as escolas quilombolas da Rede, num processo consultivo que envolve ativamente a comunidade, garantindo que a implementação respeite e dialogue com os saberes locais.
Além disso, o município está em processo de aprovação das Diretrizes de Educação Integral e de Promoção da Igualdade Racial no Conselho Municipal de Educação (CME). Este é um passo crucial, pois a apreciação da Política, pelo Conselho de Educação, é um requisito da Portaria nº 1.495 (Brasil, 2023), do Programa Escola em Tempo Integral, o que assegurará a base legal para a continuidade e a sustentabilidade de todas as ações.

PERCURSOS FUTUROS
A experiência de Codó, ao assumir o “currículo vivo”, materializa a necessidade de um diálogo intercultural profundo, que reconhece a identidade e as tradições familiares como elementos centrais da formação integral de cada estudante. Para isso, a relação entre família e escola avança da mera comunicação institucional formal, constituindo-se como parte integrante do currículo, especialmente em contextos de diversidade étnico-racial e cultural.
As instituições educacionais têm se colocado como espaços onde as famílias se sentem seguras para expressar seus saberes, suas formas de viver e suas tradições, combatendo o silenciamento histórico. O reconhecimento da história e da identidade trazidas do território e da comunidade escolar é fundamental, pois as escolas que impõem o esquecimento da identidade e das tradições territoriais têm contribuído diretamente para processos de exclusão e marginalização escolar, tratando elementos de ancestralidade e cultura como obstáculos, em vez de componentes valiosos do ser.
Essa perspectiva é inseparável do compromisso com a laicidade. A garantia da laicidade do Estado e da escola pública é a condição essencial para a valorização das diversas tradições familiares. Um Estado laico deve ser neutro do ponto de vista religioso, o que se traduz, no contexto escolar, na superação da dificuldade em lidar com a pluralidade de manifestações de fé e espiritualidade, como as de matriz africana. A laicidade exige, portanto, que as abordagens das religiões e tradições não sejam confessionais e que promovam o respeito e o direito à liberdade de crença.
A MICA estabelece, portanto, um convite a cada escola para transformar a estrutura vigente, qualificar a escuta para as minúcias e aprender com a pedagogia dos detalhes. A diversidade da presença e da experiência afro-brasileira no território de Codó convida à compreensão das tradições culturais como tecnologia de emancipação. Impõe-se, assim, a necessidade de atentar às memórias, aos saberes e às experiências coletivas negras, acessando-as com sensibilidade e compromisso.

Registro de atividade realizada durante visita da equipe de pesquisadoras(es) do Projeto na Escola Renato Archer.
Foto: Moisés Antunes
A experiência promove a diversidade ao tornar a história e a cultura afro-brasileiras visíveis e respeitadas no currículo, tendo capilaridade para articulação em diversas áreas do conhecimento. Além disso, garante a inclusão ao validar, nas práticas pedagógicas, as identidades das(os) estudantes historicamente marginalizadas(os) como fontes legítimas de conhecimento. E, por fim, impulsiona a equidade ao reverter o silenciamento curricular, construindo junto com as(os) estudantes e suas famílias um currículo integral que reconhece e celebra a riqueza cultural de seu território, tornando a escola um espaço de pertencimento e justiça social.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, [2003].
BRASIL. Lei n. 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº. 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília: Presidência da República, [2008].
BRASIL. Portaria nº 1.495, de 2 de agosto de 2023. Dispõe sobre a adesão e a pactuação de metas para a ampliação de matrículas em tempo integral, no âmbito do Programa Escola em Tempo Integral, e dá outras providências. Brasília: Diário Oficial da União, [2023]. Disponível em: https://www.gov.br/fnde/ pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/
educacao-basica/portaria-no-1-495-de-2-de-agosto-de-2023. pdf/view. Acesso em: 13 dez. 2025
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE CODÓ:
Instagram: @semecti_codo
ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:
Escola Municipal Ananias Murad:
Instagram: @eti.ananiasmurad
Escola Municipal Demerval Sales – Polo Boi Não Berra:
Instagram: @poloboinaoberra
Escola Municipal Rosalina Zaidan:
Instagram: @emti.rosalinazaidan_
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE CODÓ:
www.instagram.com/semecti_codo
ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:
Escola Municipal Ananias Murad:
www.instagram.com/eti.ananiasmurad
Escola Municipal Demerval Sales – Polo Boi Não Berra:
www.instagram.com/poloboinaoberra
Escola Municipal Rosalina Zaidan:
