Por Ana Maria Alves Saraiva, Francicleiton de Pinho Cardoso, Matheus Rodrigues Dutra Bernardo, Ramon Davys Angel Soares Barbosa Vieira e Silvia Maria Leite de Almeida

O uso ético e responsável da Inteligência Artificial (IA) é o ponto de partida para a mudança tecnológica, acadêmica e profissional da Rede Estadual de Ensino do Piauí.
Aula de IA Plugada no Centro Estadual de Tempo Integral [CETI] Cristino Castelo Branco.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
O Piauí vive, desde 2008, uma transformação que reposicionou a escola pública no centro do desenvolvimento do Estado. O que começou como um Projeto-piloto de Escolas em Tempo Integral ganhou corpo, método e propósito, até se tornar política pública estruturante. Em 2025, essa trajetória promoveu a universalização da oferta do Ensino Médio em Tempo Integral, integrado à Educação Profissional, em todas as 512 escolas da Rede, alcançando os 224 municípios piauienses — um desenho territorial que aproxima a escola da vida concreta das(os) estudantes e das vocações de cada região.
Esse movimento está alinhado ao Superchoque Educacional e Tecnológico do Governo do Estado, onde investir em capital humano, tecnologia e inovação é uma estratégia de inclusão produtiva e redução de desigualdades. Na prática, isso significa Escola em Tempo Integral, com currículo de 4.800 horas, no Ensino Médio (2.760 horas de Formação Geral Básica e 2.040 horas de Itinerários Formativos), jornada diária de oito horas e um ecossistema pedagógico que integra Projeto de Vida, Cultura, Esporte, Robótica, Inteligência Artificial (IA), Clube de Leitura, Recomposição das Aprendizagens e Educação Profissional sintonizada às cadeias produtivas locais. A escola deixa de ser apenas um espaço de aulas e passa a ser um território de experiências, com tempos e ambientes pensados para estudar, criar, praticar, investigar, empreender e conviver.

“Então, eu acho que é muito importante a implementação do Ensino Integral, mas que seja de qualidade, porque nós sabemos que existem realidades em que não são ofertadas com qualidade e isso pode gerar desigualdades. Mas, em geral, eu avalio positivamente o ensino, sobretudo aqui, devido à proximidade que nós temos com os professores e ao aprendizado que nós conseguimos aqui no colégio.”
João Gabriel de Souza, 17 anos, estudante do 3º ano do Ensino Médio do Centro Estadual de Tempo Integral João Henrique de Almeida Sousa

Equipe de pesquisadoras(es) com a Superintendente de Ensino da SEDUC/PI, Viviane Faria (ao centro).
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Em números, a mudança é expressiva. A Rede Estadual atende mais de 80 mil estudantes em Tempo Integral, no Ensino Médio, enquanto expande a cultura digital e computacional de ponta: desde 2024, o Piauí incluiu Inteligência Artificial (IA) no currículo, ação ampliada, em 2025, para todas as séries do Ensino Médio e para o 9º ano do Ensino Fundamental, alcançando mais de 120 mil estudantes com conteúdo e práticas que desenvolvem pensamento computacional, ética e uso responsável de tecnologias, articulando Tempo Integral e currículo inovador, na perspectiva de educar com e sobre a tecnologia.
A tecnologia, como eixo norteador, contribui e fortalece a formação pessoal, acadêmica e profissional. Na composição curricular, três aspectos se apresentam como elementos diferenciadores: a formação técnica obrigatória para todas(os) as(os) estudantes do Tempo Integral, a Inteligência Artificial à condição de disciplina da Formação Geral Básica e a Robótica como disciplina eletiva.
“É um modelo que forma, academicamente, os estudantes, fortalece as aprendizagens, fortalece profissionalmente, por meio da universalização dos Cursos Técnicos com o Tempo Integral, forma a cidadania deles, ou seja, forma integralmente. Precisa priorizar a educação, a juventude, porque realmente são muitos elementos e é uma implementação complexa. Mas, vamos universalizar as matrículas de Tempo Integral no Ensino Médio até 2027.”
Francisco Washington Bandeira Santos Filho, Secretário de Estado de Educação do Piauí
“A mudança foi um processo complexo, a Rede buscou interlocução com a universidade e outros parceiros, para construir um currículo inovador que atendesse, ao mesmo tempo, a formação propedêutica de qualidade e a formação técnica profissional. Atualmente, a Rede oferta uma carga horária da Formação Geral Básica superior ao estabelecido na Lei e todos os estudantes concluem o ensino médio com uma formação técnica. Houve resistência de algumas famílias, que preferiam a formação somente propedêutica. Entretanto, consideramos que seria possível ofertar as duas formações com qualidade e, aos poucos, a resistência foi dirimida.”
Viviane Faria, superintendente de ensino da Secretaria de Estado da Educação do Piauí

A EVOLUÇÃO DO PROJETO E O DIA A DIA NA ESCOLA
A história do Tempo Integral, no Piauí, começa em um momento de ousadia política e visão pedagógica. Em 2008, o Estado decidiu enfrentar um dos maiores desafios da educação pública brasileira: ampliar o tempo de permanência da(o) estudante na escola e dar a esse tempo um novo sentido formativo. Em 18 de dezembro de 2008, o Decreto nº 13.457 (Piauí, 2008) instituiu oficialmente o Programa de Escolas de Tempo Integral, com o objetivo de planejar e executar ações inovadoras em conteúdo, método e gestão.
O Decreto já antecipava o espírito que orientaria toda a política nos anos seguintes: convergência entre inovação pedagógica, participação comunitária e responsabilidade social, articulando recursos públicos e privados em favor da melhoria do ensino. Pela primeira vez, a escola pública piauiense era pensada como um centro de formação integral da(o) estudante, capaz de unir conhecimento, ética, arte, esporte, cultura e trabalho em um único percurso formativo.
O ano de 2009 marcou o início da implementação prática. Foram criados 15 Centros Estaduais de Tempo Integral (CETIs) nos municípios de Teresina, Parnaíba, Campo Maior, Regeneração, Oeiras, São Raimundo Nonato e Guaribas. Essas escolas nasceram de unidades já existentes, adaptadas estrutural e pedagogicamente para o novo modelo. Cada uma delas funcionava como um laboratório de inovação, experimentando metodologias ativas, tutoria, projetos de vida e integração entre áreas do conhecimento.
“A educação transforma. É a única porta, de uma forma digna, que dá para a gente mudar a realidade da família. Mesmo com dificuldades e tudo, mas é a única forma que a gente tem para transformar essa cultura, melhorar as condições da família. Aqui, a gente sempre tem o apoio para estudar e tudo.”
Luiz Felipe Rodrigues do Nascimento, 17 anos, estudante do 3º ano do Ensino Médio do Centro Estadual de Tempo Integral João Henrique
Histórico da proposta implementada no Piauí
O Projeto amadureceu, entre 2010 e 2014, e se expandiu: 28 novas escolas aderiram ao modelo, consolidando o primeiro ciclo de expansão da Educação em Tempo Integral, no Piauí. A partir de 2015, a política ganhou caráter de estratégia de rede, deixando de ser um projeto isolado para se tornar um compromisso de sistema.
Entre 2015 e 2020, a SEDUC-PI elevou o número de CETIs de 42 para 96 escolas, ampliando a presença territorial e aprimorando a gestão pedagógica. As formações de professoras(es) e diretoras(es) passaram a ser contínuas e o modelo foi ajustado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e às novas Diretrizes Curriculares Nacionais.

“Então, eu gosto muito de trabalhar com essa metodologia ativa de projetos. Eu acredito que essa escola ensina, mas ela transforma o ser humano em uma parte muito peculiar, que é a questão de ensinar para a vida. Os alunos entram aqui, no primeiro ano, e saem pessoas transformadas. As famílias acreditam no propósito da escola e deles andarem junto com a gente. O trabalho é para que a família sempre esteja presente, não só em momentos festivos, que elas sempre procurem a escola, tendo esse engajamento com a família muito forte. E na escola, o Grêmio Estudantil, os estudantes pensando a escola. Com a gestão e os professores.”
Deusenira Santos, gestora do Centro Estadual de Tempo Integral João Henrique de Almeida Sousa
O ano de 2023 foi um marco. Com o alinhamento à visão estratégica do governador Rafael Fonteles e sob a liderança do secretário Washington Bandeira, o Piauí iniciou um movimento de universalização sem precedentes: 104 novas escolas foram convertidas para o modelo Integral, alcançando 200 CETIs, em 122 municípios. No ano seguinte, o avanço foi ainda mais acelerado: 152 novas unidades foram implementadas, totalizando 352 CETIs, distribuídos por 178 municípios.
Na organização pedagógica, a tecnologia perpassa os itinerários: a Inteligência Artificial como disciplina integrante da Formação Geral Básica e a Robótica como eletiva. A escola possui laboratório de informática equipado para essas disciplinas, ministradas por professoras e professores das diferentes áreas do conhecimento, que se inscreveram para a formação e assumiram essas atividades, sem deixar de ministrar os conteúdos referentes à sua área de formação inicial. É uma organização interdisciplinar, uma escola em movimento.


Aula de robótica ministrada pelo docente Rafael Cruz do CETI João Henrique de Almeida Sousa.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

A ESCOLA INTERCULTURAL INDÍGENA
No perímetro do bairro Bela Vista II, em Teresina, situa-se o CETI Oka Ka Inaminanoko, local onde passado, presente e futuro têm hora marcada para se encontrarem: o dia inteiro. Desde 2024, a escola funciona em tempo integral, atendendo mais de 50 estudantes das etnias Warao e Guajajara, em uma proposta inédita: formação técnica integrada ao Ensino Médio, com currículo que valoriza línguas indígenas, saberes ancestrais e tecnologias de ponta.
O tom é o de “juventudes conectadas”: a tecnologia não aparece como apêndice, mas como eixo formativo. No itinerário, Inteligência Artificial compõe a Formação Geral Básica e a Robótica surge como experiência concreta, do comando por voz a protótipos que respondem às necessidades reais das comunidades. Mais do que “usar computador”, trata-se de compreender como a tecnologia pode proteger a cultura e melhorar a vida coletiva, integrando pesquisa, protagonismo juvenil e resolução de problemas do território.

Equipe de pesquisadoras(es) e comunidade escolar do CETI Oka Ka Inaminanoko.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Na escola, são faladas cinco línguas: Warao, Tupi- Guarani, Português, Espanhol e Inglês, e essa ecologia linguística não é ornamento, é política de pertencimento. A gestão, feita por e para indígenas, cuida da alimentação adequada, da escuta qualificada e de um horizonte que passa pela universidade. Educadoras(es) das etnias Guajajara e Warao atuam diretamente com as(os) estudantes, sinalizando que o Oka Ka Inaminanoko é tanto casa quanto escola. Exemplo disso são as(os) estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que chegam cedo, junto com as(os) estudantes do turno regular, e permanecem na escola o dia inteiro, aguardando as aulas da EJA.
No território, o Tempo Integral alonga vínculos. As rodas de conversa com estudantes, professoras(es) e gestoras(es) destacam o acolhimento cultural, a presença das(os) mais velhas(os), a transmissão de saberes e o cuidado com hábitos alimentares e rituais. A quadra vira encontro de etnias; o pátio, a sala de canto e dança; os corredores, a tradução cotidiana do multilinguismo. Os números e as histórias caminham juntas(os): a Rede Estadual amplia o atendimento a estudantes autodeclaradas(os) indígenas e consolida, em Teresina, uma escola preparada para acolher as comunidades do “Entre Rios”, respeitando costumes e tempos próprios.

Estudantes da EJA aguardam o início das aulas no CETI Oka Ka Inaminanoko.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
“Ele é nosso professor e ensina a jogar vôlei. Ele fala: ‘Meninas, vamos, vocês são fortes, vocês conseguem.’ Ele me inspirou a jogar vôlei também.”
Yumili Delvalle Gonzalez Mendoza, da etnia Warao, estudante do 3º ano do Ensino Médio do Centro Estadual de Tempo Integral Oka Ka Inaminanoko
Neste CETI, o esporte é tática de pertencimento e projeto de futuro: uma pedagogia dos corpos que afirma lugar, coragem e visibilidade, especialmente para as meninas. O treino vira ritual de confiança; o jogo, cena pública de um protagonismo que a escola decide cultivar. Nesse contexto, o professor de Educação Física formou uma equipe feminina de vôlei, que consolidou a participação de alunas interessadas em aprender esse esporte. O time entrou pela primeira vez nos Jogos Escolares Piauienses (JEPIs).
O Oka Ka Inaminanoko é fronteira viva entre trajetórias e direitos. Os Warao, povo do delta do Orinoco, na Venezuela, vivem hoje em fluxo migratório pelo Norte e Nordeste do Brasil. Sua língua, do tronco waraoan, encontra, no CETI Oka Ka Inaminanoko, alfabetização trilíngue e um ambiente que legitima sua memória de deslocamento, resistência e reinvenção em Teresina. Já os Guajajara, povo tupi-guarani com forte presença no Maranhão e no Nordeste, reforçam língua e artes, tecendo lideranças jovens em diálogo com a cidade. Ao reunir Warao e Guajajara em um mesmo cotidiano escolar, o tempo integral se torna tecnologia social: protege a cultura, garante direitos e abre passagens para novas economias, como a criativa e a solidária, e para a continuidade dos estudos.
“Nós, indígenas, não queremos perder nossos conhecimentos; queremos manter o nosso idioma, a nossa dança, a nossa cultura, a nossa alimentação.”
Andreína Yumeli Gonzalez Mendoza, professora do Centro Estadual de Tempo Integral Oka Ka Inaminanoko
Do ponto de vista pedagógico, a experiência tem produzido resultados subjetivos e comunitários difíceis de reduzir a gráficos, mas visíveis no cotidiano: estudantes mais atentas(os) e motivadas(os); professoras(es) que aprendem com suas(seus) alunas(os); famílias que reconhecem, na escola, um espaço seguro para celebrar rituais e projetar o futuro. Do ponto de vista da gestão, a escola integra políticas da SEDUC-PI voltadas a povos originários, como a EJA Warao, e reafirma a necessidade de investimento em formação docente, materiais bilíngues e infraestrutura cultural e esportiva, incluindo a quadra que, a cada treino, vira laboratório de cidadania.

Em Teresina, a expressão “Entre Rios” designa a região situada entre os rios Parnaíba e Poti, área do tradicional encontro dos rios, que reúne diferentes bairros e comunidades. No contexto do CETI Oka Ka Inaminanoko, a SEDUC-PI usa essa referência territorial para indicar o público atendido pela escola, na capital: famílias indígenas, especialmente Warao e Guajajara, com domicílio em Teresina e vínculos comunitários nessa região.

Aliã Wamiri Guajajara, professora de Artes do CETI Oka Ka Inaminanoko.
Foto: Débora Leal de Oliveira, estudante de Arte Visuais na Universidade Federal do Piauí (UFPI)
“A escola de tempo integral foi maravilhosa. Esses meninos passam o dia na escola e é diversa, como eles já falaram aqui. Fazem atividades esportivas, têm tempo de repouso entre as atividades; além de concluir o ensino médio, conquistam outro certificado, que é o ensino técnico, que já os qualifica para o mercado de trabalho. E ainda os prepara para as universidades, o que é importante, pois o ensino não pode parar aqui.”
Zânia Barbosa Oliveira, gestora do Centro Estadual de Tempo Integral Cristino Castelo Branco
“Para mim, foi difícil me adaptar, pois a minha filha é muito ligada a mim. Mas aí eu fui observando que estava sendo melhor para ela. A oportunidade que ela está tendo de ter os cursos que eu não poderia pagar. Então, está sendo uma oportunidade maravilhosa na vida dela. E ela está se adaptando, está gostando. Até porque ela não tem muitas amizades. As amizades dela, aqui no colégio mesmo, são só quatro, cinco coleguinhas. Então, dentro de casa, ela sempre se mantinha dentro do quarto, ou estudando, ou mexendo no celular. Então, aqui na escola, não. Ela está aprendendo cada dia mais. Está maravilhoso.”
Cristina de Lourdes Bezerra de Souza, mãe da estudante Teresa Cristina Bezerra Gomes, 17 anos, do 2º ano do Centro Estadual de Tempo Integral Cristino Castelo Branco
Se “juventudes conectadas” é o enunciado, o CETI Oka Ka Inaminanoko é sua prova concreta: uma escola que integra IA e tradição, multilinguismo e técnica, vôlei e projeto de vida. Nessa escola, as juventudes indígenas podem escrever, em cinco línguas, um futuro com assinatura própria, fortalecendo quem são e abrindo caminhos para o que serão.
“O tempo integral para a gente é uma coisa muito gratificante. Minhas matérias preferidas são Filosofia e Sociologia, as que eu mais me identifico, porque falam sobre a sociedade, uma responde e a outra pergunta aquela resposta. Então, para mim, o tempo integral é nada mais, nada menos do que um livro aberto. Nós conseguimos entender o que tem no livro e nós mesmos conseguimos escrever no livro. É algo aberto para todos os alunos.”
Amanda Evellyn Rodrigues da Silva, 17 anos, estudante do 3º ano do Ensino Médio do Centro Estadual de Tempo Integral Cristino Castelo Branco
“Eu achei um impacto bem forte, porque eu não estava acostumada, mas aí eu me adaptei mais rápido. Eu achei incrível essa ideia, porque eles fornecem uma variedade de disciplinas para a gente e muitas outras coisas relacionadas a cursos, a projetos de ambientes de socialização, principalmente, já que proibiram o celular nas escolas, porque ninguém socializava quando o celular era permitido.”
Amanda Evellyn Rodrigues da Silva, 17 anos, estudante do 3º ano do Ensino Médio do Centro Estadual de Tempo Integral Cristino Castelo Branco
“Quando eu cheguei ao primeiro ano do ensino médio, eu consegui abrir minha mente para novas áreas, concursos e também as novas disciplinas de Robótica e Inteligência Artificial. O ambiente de socialização também trouxe um grande avanço para essa área de escola de Tempo Integral.”
Rodrigo Caetano dos Santos Souza, 15 anos, estudante do 1º ano do Ensino Médio do Centro Estadual de Tempo Integral Cristino Castelo Branco

“A disciplina de Inteligência Artificial foi uma boa oportunidade e um grande desafio, porque não tínhamos isso na Rede. A experiência tem sido boa e tenho aprendido bastante. Recentemente, concluí uma pós-graduação em Inteligência Artificial para Educadores, e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a possibilidade de ensinar IA de forma desplugada. Eu imaginava que só era possível ensinar IA se tivesse o uso dos computadores. Um dos lemas da formação é pensar com IA e sobre IA. Então, ao mesmo tempo que a gente poderia utilizar as ferramentas, também poderia pensar como elas funcionavam, fazendo esse momento de reflexão com os estudantes, estimulando o senso crítico e a ética.”
Amanda de Souza Santos, professora de Biologia e Inteligência Artificial do Centro Estadual de Tempo Integral Paulo Freire

CETIs: AMBIENTES QUE ACOLHEM, ESTIMULAM E FORMAM SERES HUMANOS
Ao final do processo de universalização, o Estado do Piauí consolidou não apenas uma Rede de Ensino, mas uma rede de espaços de vida. A infraestrutura física e pedagógica dos CETIs materializa a concepção de Educação Integral: aprender em um ambiente que acolhe, estimula e forma seres humanos completos. O tempo integral se faz visível nos muros, nas cores, nos corredores, nos laboratórios e na vida de cada estudante. A escola é agora o reflexo de um projeto de sociedade que acredita que investir em educação é investir em humanidade.
A organização curricular dos Centros Estaduais de Tempo Integral representa o núcleo da mudança pedagógica da Rede Pública do Piauí. O currículo, com jornada diária de oito horas e 4.800 horas, distribuídas ao longo dos três anos do Ensino Médio, foi concebido para assegurar uma formação completa e integrada, que articula conhecimento científico, prática social e desenvolvimento humano. Essa estrutura está embasada em dois grandes pilares: a Formação Geral Básica, com 2.760 horas, e os Itinerários Formativos, com 2.040 horas, compondo um desenho curricular que alia fundamentos cognitivos, competências socioemocionais e formação técnica e profissional.
A Formação Geral Básica segue as orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), desenvolvendo as áreas de Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas, de modo contextualizado e interdisciplinar. Nos CETIs, a(o) estudante é desafiada(o) a compreender o mundo com criticidade e a aplicar o conhecimento na prática, tornando o aprendizado significativo. Um dos marcos dessa etapa foi a introdução pioneira do componente curricular Inteligência Artificial, incorporado à rede, em 2024, como componente obrigatório para todas as séries do Ensino Médio e o 9º ano do Ensino Fundamental, alcançando mais de 120 mil estudantes. Essa inovação posicionou o Piauí na vanguarda da Educação Digital, sendo reconhecida por organismos como Unesco, Google e Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), conquistando o Prêmio Rei Hamad Bin Isa Al-Khalifa, promovido pela Unesco e pelo Governo do Bahrein, ao lado de iniciativas do Reino Unido, Bélgica e Egito. A disciplina promove o pensamento computacional, a ética e a criatividade, preparando as(os) jovens para o uso consciente das tecnologias e para as transformações do mercado de trabalho.
As eletivas de Esporte, Cultura, Clube de Leitura e Robótica ampliam o repertório formativo, fortalecendo o corpo, a mente e a sensibilidade social. Outros componentes reforçam a formação cidadã e empreendedora, como o Projeto de Vida e Empreendedorismo, inspirado na metodologia do Massachusetts Institute of Technology (MIT). A proposta incentiva o autoconhecimento e o planejamento de metas pessoais e profissionais, estimulando o protagonismo juvenil e o desenvolvimento de atitudes inovadoras. Também ganha destaque a Educação Financeira, trabalhada de forma transversal e articulada à Matemática, que capacita a(o) jovem para a tomada de decisões responsáveis e conscientes na vida cotidiana.
A experiência só se sustenta porque é curricular, pedagógica e de gestão. Curricular, porque supera a fragmentação disciplinar e organiza percursos formativos que articulam teoria e prática; pedagógica, porque coloca a(o) estudante no centro do processo com protagonismo, metodologias ativas, mediação cultural, esportiva e tecnológica; e de gestão, porque opera com monitoramento contínuo de aprendizagem (Programa Gestão da Aprendizagem), formação docente, visitas de assessoramento e uso pedagógico de dados para tomada de decisão na escola e nas 21 Gerências Regionais de Educação (GRE). É uma engrenagem que aprende, ajusta rota e melhora com evidências.

Roda de conversa no Centro Estadual de Tempo Integral Cristino Castelo Branco.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Roda de conversa do Projeto Literarte no CETI João Henrique de Almeida Sousa.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Outra peça-chave é a Educação Profissional, Técnica e Tecnológica, planejada por diagnóstico territorial. Os cursos dialogam com a Tecnologia da Informação e Comunicação (Desenvolvimento de Sistemas, Programação de Jogos Digitais, Marketing Digital), Ambiente e Saúde (Controle Ambiental, Enfermagem, entre outros), Energias Renováveis, Turismo, Agropecuária, Gestão e Negócios. Em vez de ofertar o que a escola tem, a Rede pauta a oferta pelo que o território precisa — e essa lógica eleva a empregabilidade, fortalece a economia local e cria rotas de futuro para a juventude.
Ao universalizar o Tempo Integral e integrar a formação técnica ao currículo, o Piauí transformou a escola em vetor de desenvolvimento. É política educacional com bússola (propósito), mapa (currículo) e carro em movimento (gestão com dados).


Sala de Pesquisa e Informática do CETI Cristino Castelo Branco.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

REFERÊNCIA
PIAUÍ. Decreto nº 13.457, de 18 de dezembro de 2008. Institui, no âmbito da Secretaria de Estado da Educação, os Centros Estaduais de Tempo Integral, e dá outras providências. Teresina: Diário Oficial do Estado do Piauí, [2008]. Disponível em: www.diario.pi.gov.br. Acesso em: 10 dez. 2025.
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