
Por Angela da Costa Soares, Carlos Antônio Diniz Júnior, Luana Chaves de Farias, Lucas Ramos Martins e Marcela Vieira Rezende

Cada território ensina à sua maneira e a vocação é ouvir o que ele diz.
Crianças brincando no Colégio Municipal Washington Luiz – Centro Integrado de Educação Pública (CIEP) 485 – Escola Vocacionada à Música.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
“A vocação vem do território”. Foi esse olhar atento de gestoras(es), professoras(es), educandas(os) e da comunidade para as características e necessidades do território e sua cultura, assim como das demandas da Rede Escolar, que deu o ponto de partida para a criação, em 2022, do Projeto das Escolas Vocacionadas na Rede Municipal de Educação de Barra Mansa, localizada no Sul Fluminense.
O movimento para a criação do Projeto surgiu do desejo de inovar e criar uma experiência mais significativa para as(os) estudantes, a partir das ações que já vinham sendo realizadas, desde 2017, nas escolas regulares de Tempo Integral de Ensino Fundamental na Rede Municipal de Educação.
E estas experiências significativas começaram a acontecer de fato, pois na Escola Vocacional Integral é possível ressignificar os tempos e espaços educativos e do currículo, rompendo com a dicotomia de turno e contraturno. Ela possibilita repensar os espaços escolares, bem como compreender o entorno da escola como um território educativo, incorporando praças, clubes, associações e espaços culturais como parte do processo formativo.
A Escola Vocacionada amplia a proposta pedagógica ao possibilitar o estabelecimento de espaços de proteção, de encontro e de esperança para as crianças e jovens. Ela atua como ponto de referência comunitário, garantindo alimentação, atividades diversificadas e a presença constante de educadoras(es) que acompanham o desenvolvimento integral de cada estudante, valorizando o que emana de melhor em cada uma das comunidades onde as escolas estão inseridas, bem como enfrentando os problemas sociais presentes naquele território.
Atualmente, a Rede Municipal de Educação conta com nove creches e 12 escolas em Tempo Integral, oito delas com vocação específica – Música, Socioambiental e Tecnológica -, que se tornaram modelos de inovação. A rede também está em expansão, com a implementação de novos eixos temáticos, como a vocacionada direcionada ao Esporte e a vocacionada sobre Agroecologia e Tecnologia (Agrotec), em diálogo com os potenciais locais e com as demandas contemporâneas do século XXI e alinhadas às expectativas da comunidade escolar.

Alunas(os) em atividade na horta no CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato – Escola Vocacionada Socioambiental.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras


EDUCAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL
COMO ESTRATÉGIA DE PROTEÇÃO SOCIAL E DE FORTALECIMENTO DA APRENDIZAGEM
A Política de Educação em Tempo Integral foi estruturada em Barra Mansa como uma estratégia para fortalecer a proteção social, ampliar oportunidades de aprendizagem e reduzir desigualdades estruturais, tendo em vista o contexto local. Isso porque, apesar do município apresentar bons indicadores de desenvolvimento econômico, a cidade enfrenta desigualdades sociais profundas, especialmente nas áreas periféricas e comunidades de baixa renda, nas quais famílias convivem com a ausência de equipamentos culturais, esportivos e de lazer. A realidade de bairros vulneráveis expõe crianças e adolescentes a riscos relacionados à violência e à evasão escolar.

Barra Mansa é um município de médio porte, com aproximadamente 169 mil habitantes, cuja economia baseia-se na indústria, no comércio e na prestação de serviços. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,729 e possui indicadores de boas condições relativas à educação, longevidade e renda, em comparação ao contexto regional.
Gestoras(es) e professoras(es) apontavam para a vulnerabilidade do tempo ocioso fora da escola, enquanto as famílias relatavam a insegurança de ver suas(seus) filhas(os) expostas(os) a riscos cotidianos, afinal, em alguns locais, a unidade escolar é ainda um dos únicos aparelhos públicos do bairro.
“Antes, eu me preocupava porque meu filho ficava muito tempo na rua. Agora, sei que ele está na escola, aprendendo a cuidar dele, do mundo e se alimentando bem.”
Suellen Correa, mãe da estudante Micaela Correa, do 4º ano da Escola Municipal Gelson Silvino – Escola Vocacionada Socioambiental
Assim, a expansão das Escolas em Tempo Integral, em Barra Mansa, não foi apenas uma decisão administrativa, mas resultado de diagnóstico educacional, de escuta ativa e de construção coletiva. O processo contou com gestoras(es) da Secretaria Municipal de Educação, diretoras(es), professoras(es), representantes de famílias, lideranças comunitárias e articulação com outras secretarias, como Esporte, Cultura e Saúde, o que garantiu legitimidade, apoio social e sustentabilidade política para a continuidade do projeto.

“Aqui, eles não aprendem só a plantar uma horta; aprendem a cuidar do planeta e uns dos outros.”
Julia Ferraz, professora da Escola Municipal Gelson Silvino – Escola Vocacionada Socioambiental
Esse arranjo consolidou uma governança participativa por meio da criação do Comitê de Educação Integral, concebido como um espaço permanente de escuta, diálogo e tomada de decisões no processo de implementação das Escolas Vocacionadas. O Comitê é composto por diferentes segmentos envolvidos nesse processo — professoras(es), gestoras(es), representantes do Conselho Escolar, integrantes da comunidade e setores da Secretaria Municipal de Educação —, para garantir que as decisões reflitam múltiplas perspectivas e fortaleçam o caráter democrático da política educacional.
Além disso, destaca-se também o fortalecimento dos conselhos escolares, como instâncias colegiadas, e a articulação intersetorial, que busca ampliar o alcance pedagógico e comunitário.
Assim, a política local de Barra Mansa, ao mesmo tempo em que se conecta ao Programa Escola em Tempo Integral, instituído pelo Ministério da Educação (MEC), mantém identidade própria, uma vez que nasce da escuta atenta às comunidades, da valorização das vocações locais e da compreensão do território como elemento constitutivo do currículo e, portanto, do processo de formação integral das(os) sujeitas(os).
Nesse contexto, a Educação Integral se torna uma política de promoção do desenvolvimento pleno, ou seja, a formação humana em sua multidimensionalidade — a partir dos aspectos cognitivo, emocional, social, físico e cultural. Esse princípio materializa-se de forma concreta nas escolas vocacionadas: ao mesmo tempo em que oferecem ensino formal, abrem espaço para experiências artísticas, ambientais, esportivas e tecnológicas, que dão sentido ao currículo e ajudam a(o) estudante a reconhecer sua identidade e suas possibilidades de futuro.
“A escola deixou de ser um prédio isolado. Hoje, ela pulsa junto com a comunidade.”
Carolina Luz, diretora
do Centro Integrado de Educação Pública [CIEP] 483 Municipalizado Ada Bogato


Estudantes em aula de música no Colégio Municipal Washington Luiz – CIEP 485 – Escola Vocacionada à Música.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
“A gente estuda, há um ano e meio, inglês, no Serviço Social do Comércio (Sesc) e, lá, a gente também faz vários passeios. Já fomos para o Sesc Nova Iguaçu, para Petrópolis. A gente faz gincanas também. É muito legal, muito divertido e a gente tem vários aprendizados.”
Ana Carolina, estudante do 7º ano do Centro de Educação Integral Saturnina de Carvalho Vieira Silva – Escola Vocacionada ao Esporte
ESCOLAS VOCACIONAIS:
VIVÊNCIAS INTEGRADORAS DE APRENDIZAGEM
As Escolas Vocacionadas de Educação Integral em Tempo Integral representam um importante movimento, materializado em uma política pública que busca ressignificar o processo educativo. Procuram embasar-se no princípio da formação integral da(o) estudante ao conectar as aprendizagens aos seus interesses, suas aspirações e inspirações, e com o contexto social no qual está inserida(o).
“Viemos observar a fauna local, mas logo os alunos perceberam a necessidade urgente de preservar o espaço diante da quantidade de resíduos espalhados pelo entorno.”
Suzeth Venâncio, professora responsável pela oficina de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS]
MAS, AFINAL, COMO NASCEM AS ESCOLAS VOCACIONAIS?
A partir do diagnóstico, levantam-se as potencialidades, desafios e demandas do território e das escolas. Um exemplo é a Escola Municipal Vila Elmira, vocacionada ao eixo temático Socioambiental. A motivação para a vocação se evidencia já na chegada ao território escolar, um espaço de ampla vegetação, em que a Área de Proteção Ambiental (APA) da Região Leste – carinhosamente chamada de “matinha” -, com seus sons, silêncios e clima mais ameno, envolve a escola, tornando coerente o entrelaçamento do currículo às dimensões conceituais e práticas socioambientais.
Além disso, havia neste território uma demanda social e relações socioambientais latentes: desde a necessidade de se pensar a preservação ambiental das matas e da mina d’água ao lado da escola; passando
por resolver as questões relacionadas a poluição e manejo do lixo; até o desejo de desemparedar as crianças e vincular o território ao currículo que, neste caso, poderia ser potencializado com ações pedagógicas nos espaços externos, marcadamente caracterizados pelas matas, pássaros, árvores e frutos.
Em atividade de visita à mina d’água, o olhar das(os) alunas(os), por exemplo, voltou-se para a falta de cuidado das pessoas, que descartam lixo nesses locais.
As cinco fases do processo de implementação das Escolas Vocacionais:
1. Diagnóstico das necessidades do território e da Rede Escolar – levantamento das potencialidades, desafios e demandas do território e das escolas.
2. Definição dos eixos temáticos – escolha das áreas de vocação que orientarão as práticas pedagógicas.
3. Planejamento detalhado das ações – elaboração das atividades, metas e responsabilidades.
4. Execução e acompanhamento – implementação das ações com monitoramento contínuo dos resultados.
5. Avaliação com ajustes necessários – análise dos impactos e replanejamento das estratégias, conforme as evidências coletadas.
Já no Colégio Municipal Washington Luiz – Escola Vocacionada ao Esporte, esse direcionamento aconteceu devido à ampla participação e aos bons resultados da comunidade escolar em competições locais e regionais, indicando que o esporte compõe a rotina, os desejos e os investimentos pessoais e coletivos das(os) sujeitas(os). A estrutura física para o esporte, ainda que necessite de reformas e melhor adequação, é extensa e destaca-se o espírito competitivo da unidade escolar.
Desta forma, depois de determinada “a vocação das escolas”, a organização curricular é estruturada a partir da articulação entre as áreas do conhecimento do currículo comum e a parte diversificada, em conexão com as vocações, permitindo que os saberes estejam integrados. Essa integração oportuniza que o processo de ensino-aprendizagem seja contextualizado e, ao passo que respeita as diretrizes curriculares nacionais, também valoriza as especificidades locais e os projetos de vida das(os) estudantes.


Crianças da Escola Municipal Vila Elmira – Escola Vocacionada Socioambiental visitam mina d’água e a Área de Proteção Ambiental (APA) da Região Leste.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Um dos pilares fundamentais das Escolas Vocacionadas é a realização de oficinas pedagógicas, que funcionam como espaços de experimentação, criação e aprofundamento de temas ligados à vida das(os) alunas(os) e à realidade da comunidade. Nessas oficinas, são exploradas linguagens artísticas, com especial destaque para a música; práticas de cuidado do meio ambiente, com as construções de hortas e jardins; atividades tecnológicas, por meio da construção de artefatos e projetos conectados com os problemas cotidianos, entre outras, possibilitando que a(o) estudante descubra e se desenvolva, ao mesmo tempo em que se engaja em temas relevantes do seu território.
No CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato – Escola Vocacionada Socioambiental, observa-se uma forte articulação entre as oficinas desenvolvidas e o território do entorno escolar. Um exemplo disso é o trabalho com hortas, cujo conhecimento é difundido entre as(os) estudantes como alternativa de prevenção a deslizamentos em áreas de morro. Essa prática evidencia como a proposta vocacionada dialoga com os desafios reais das comunidades e fortalece o papel das(os) estudantes como agentes de transformação social e ambiental.

Estudantes em atividade pedagógica na horta no CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato – Escola Vocacionada Socioambiental.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
Outro aspecto essencial é a organização flexível dos tempos e espaços escolares, que se adapta às necessidades da proposta pedagógica e às características das(os) estudantes. Essa flexibilidade permite romper com a rigidez dos horários convencionais, possibilitando, por exemplo, a realização de projetos integradores, vivências externas à escola e o uso de ambientes alternativos de aprendizagem.
Nesse processo, o engajamento e o protagonismo infantil e juvenil são princípios fundamentais: as(os) estudantes participam ativamente não apenas das atividades pedagógicas, mas também das decisões que envolvem o cotidiano da escola. São ouvidas(os), têm voz e espaço para propor, criar e transformar, exercitando a participação e a corresponsabilidade, como elemento pedagógico e da vida.
“Antes eu não podia fazer nada! Nada, mesmo! Aí eu vim pra cá e você sabe quando uma criança faz uma coisa que ela queria muito fazer? (…) Então… e ela consegue?! Eu fiquei tipo, feliz! (…) A escola pensou nas crianças. Conseguiu dividir essas partes, entre os estudos e as brincadeiras, para que as crianças possam ser felizes, como elas têm que ser.”
Davi Miguel, estudante do 3º ano do CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato – Escola Vocacionada Socioambiental
Outro elemento essencial é a articulação da escola com o território e com os saberes locais, reconhecendo que o conhecimento não está restrito aos muros escolares e, por isso, estabelecem parcerias com agentes culturais, organizações comunitárias, famílias e outras(os) atrizes(ores) sociais. Essa conexão com o território valoriza a cultura local, os saberes tradicionais e as práticas sociais existentes, fortalecendo a identidade das(os) estudantes e promovendo uma educação contextualizada e comprometida com o desenvolvimento social e cultural da comunidade.
No Colégio Jhayra Fonseca Drable – Escola Vocacionada Agrotec, localizada no distrito de Amparo, essa conexão entre as(os) estudantes e seu território se revela de forma concreta e significativa. A proposta da unidade é potencializar os saberes e fazeres que emergem da própria comunidade, valorizando as práticas locais e transformando-as em oportunidades de aprendizagem.
Um aspecto comum às escolas é o tempo do ócio, sendo este o espaço de transição entre turnos e que, na experiência das vocacionadas, é pensado como tempo educativo. O ócio tem cerca de uma hora e propõe autonomia das crianças que precisam escolher o que fazer, dentro das possibilidades ofertadas: desde deitar no pátio, jogar, ler, desenhar, brincar e até mesmo simplesmente descansar.
Há também o retorno do corpo brincante. Brincar volta a ser parte do cotidiano escolar, seja na música, no esporte, nas oficinas socioambientais ou tecnológicas. O corpo que aprende é também o corpo que se move, experimenta, toca, canta, planta, inventa. As escolas vocacionadas parecem recuperar algo que a escola tradicional havia esquecido: brincar é também um modo de conhecer.
Assim, ao combinar participação ativa das(os) estudantes, organização inovadora do tempo e espaço escolar, e enraizamento no território, as escolas vocacionadas oferecem uma proposta educativa transformadora, que reconhece a diversidade, promove a equidade e contribui para que as(os) estudantes possam atuar de forma crítica e criativa no mundo.
“Um dos alunos relatou sua participação em projetos socioambientais desenvolvidos nas oficinas do CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato – Escola Vocacionada Socioambiental, que o levaram a representar a escola e o município em eventos regionais e nacionais sobre a temática socioambiental. Ele expressou o orgulho de ´levar a voz da escola´ à Brasília e à Belém, o que evidencia a formação cidadã e a participação ativa que o projeto das Escolas Vocacionadas pode promover.”
Wallex Martins, estudante do 8º ano do CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato – Escola Vocacionada Socioambiental
“As oficinas que exploram a pecuária leiteira e outras atividades típicas da região permitem que os alunos revisitem e ressignifiquem seu território, reconhecendo nele um espaço de conhecimento, cultura e desenvolvimento.”
Edson Araujo da Hora, diretor pedagógico do Colégio Jhayra Fonseca Drable – Escola Vocacionada Agrotec

Criança na horta medicinal na Escola Municipal Vila Elmira – Escola Vocacionada Socioambiental.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
O MONITORAMENTO E A AVALIAÇÃO PARA REPLANEJAR AS PRÁTICAS
A partir da implementação das Escolas Vocacionadas, os processos de acompanhamento das experiências são contínuos, constituídos por diferentes atrizes(atores) que compõem o Comitê de trabalho, no qual são ouvidas as vozes de professoras(es), gestoras(es), crianças e jovens, representantes do Conselho Escolar, membros da comunidade e setores da Secretaria Municipal de Educação. Nesta rede de acompanhamento, a “vocação do território” surge como guia para aprimoramento de ações e experiências.
Fazem parte da avaliação contínua, bimestralmente, durante os conselhos de classe, as propostas e os projetos desenvolvidos na escola, e conta com a participação de toda a comunidade escolar.
O monitoramento da experiência ocorre a partir de indicadores que analisam o desempenho acadêmico e social das(os) estudantes, a efetividade das práticas pedagógicas e o grau de participação da comunidade escolar. São considerados critérios como a frequência, a redução da evasão, o desempenho nas oficinas, o desenvolvimento de competências nas áreas vocacionais e a satisfação de estudantes e familiares em relação à proposta.
Também são avaliados o impacto social das ações desenvolvidas e a articulação com o território nas reuniões bimestrais com as(os) responsáveis e Conselho Comunitário Escolar (CCE). Os índices de aprendizagem são acompanhados por meio de avaliações externas, como a Avaliação Municipal Mensal (AprovaBM) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

DESAFIOS NO CAMINHO PERCORRIDO:
APRENDIZAGENS DO PROCESSO
Ao longo do processo de implementação das escolas vocacionais na cidade, há também desafios a serem superados, como os constantes ajustes curriculares e metodológicos. A equipe pedagógica da Escola Municipal Vila Elmira viveu isso de perto, por exemplo, durante o primeiro ano de constituição como escola vocacionada, tendo em vista que a estrutura curricular ainda se dicotomizava entre turno e contraturno, ao organizar as disciplinas “regulares” no período da manhã e as oficinas de temática socioambiental no período da tarde.
A partir da avaliação desta primeira experiência, já no segundo ano letivo, diante de processos dialógicos com a comunidade escolar, passou-se a propor um currículo integral e a mobilizar seus tempos e espaços para que as práticas socioambientais compusessem distintos horários, além de compor a temática das diferentes disciplinas ditas como regulares. Este movimento aconteceu de forma processual.

“Não basta ter oficina de agroecologia fora e Matemática dentro; é preciso integrar os dois, e quem faz essa ponte é o coordenador pedagógico. (…) Devagar a gente conseguiu entremear.”
Eluzer dos Santos Cândido, diretora da Escola Municipal Vila Elmira – Escola Vocacionada Socioambiental
A composição curricular – que requer flexibilidade e um constante movimento de diálogo e avaliação – é apontado, pelas direções das escolas, como um dos maiores desafios no andamento da proposta, tendo em vista que mobiliza as dinâmicas dos tempos, espaços, alimentação, de trabalho dos(as) professores(as), das famílias e, enfim, perpassam por toda experiência escolar.
Observa-se, aqui, uma perspectiva crítica do currículo que não adere a uma noção meramente descritiva, rígida e de caráter único e universal. Nessa perspectiva, caminhos são abertos para a formulação de arranjos curriculares locais, capazes de reconhecer e valorizar as demandas e anseios na constituição curricular.
Ou seja, para integrar o currículo a partir dos diferentes saberes, mas também a partir da disponibilidade docente e das(os) familiares, dos desejos das crianças e jovens, das variações climáticas, etc., é necessário remontar o horário “vintes vezes ao ano” – como destacado pela Paola Pereira, diretora da Escola Municipal Gelson Silvino – Escola Vocacionada Socioambiental. Isto, por si só, não é um problema, mas um desafio composto por potencialidades, na medida que tais ajustes buscam uma identidade e integralidade entre saberes, sujeitas(os), tempos e espaços.
Há, ainda, outros desafios presentes, como a manutenção da infraestrutura, a formação continuada de professoras(es), ampliação das relações entre a escola e a comunidade e a necessidade de evitar desigualdades entre escolas vocacionadas e não vocacionadas. Tais desafios têm sido enfrentados pela Rede e por todas(os) as(os) pessoas envolvidas(os) nesta experiência.

RESULTADOS DE UMA EXPERIÊNCIA QUE INSPIRA
O modo como cada território imprime uma marca singular é o que fica evidente no Projeto das Escolas Vocacionais. A proposta parte de um eixo comum, mas ganha corpo e sentido em cada escola, conforme o território, as pessoas e as relações que o habitam. Há diferenças evidentes entre as escolas socioambientais, as de esporte, as de música e as de tecnologia; mas o que atravessa todas é o deslocamento da(o) sujeita(o), seja esta(e) aluna(o), professora(o) e ou gestora(o), de um lugar restrito à sala de aula, para uma experiência ampliada em todos os espaços da escola.
Inclusive a sala de aula, tradicionalmente o centro de saber da escola, deixa de ser o único espaço do aprender. Surgem novos locais de aprendizagem: o pátio, a quadra, o laboratório de tecnologia, a horta e a sala de música. Cada um reorganiza a ideia do que é aprender e do que é ensinar.
Para as(os) estudantes, a escola é vista como um espaço que vai além do ensino formal e destaca-se como lugar de acolhimento, inclusive para aquelas(es) que já viveram situações difíceis. Funciona como espaço de distração, cuidado e proteção.
A valorização da escola também impacta o trabalho docente. Professoras(es) e coordenadoras(es) apontam que o espaço escolar se transformou em “terceiro educador”, permitindo mais liberdade de criação pedagógica. A presença da natureza, a implantação de hortas e a ressignificação dos pátios modificaram o cotidiano da escola e a postura das(os) profissionais.

Estudantes em apresentação de karatê para seus colegas no Colégio Municipal Washington Luiz – Escola Vocacionada ao Esporte.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras
“Aqui é muito legal, tem várias matérias e projetos. A gente passa o dia inteiro aqui e aprende mais coisas.”
Maria Eduarda, estudante do 6º ano do Colégio Municipal Washington Luiz – Escola Vocacionada ao Esporte
“Eu não quero sair da escola porque, aqui, pensaram nas crianças, dividiram tempo de estudo e de brincadeira, ajudando a ser feliz no presente.”
Emily Vitória, estudante do 6º ano do CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato – Escola Vocacionada Socioambiental
“A escola é um paraíso. Sem essa escola, a gente não teria nada.”
Davi Miguel, estudante do 3º ano do CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato – Escola Vocacionada Socioambiental
Houve um esforço intencional de selecionar docentes engajadas(os), dispostas(os) a assumir, coletivamente, a construção da proposta.
Essa escolha, acompanhada de formações e reuniões, possibilitou que o corpo docente se sentisse parte ativa do projeto. O entusiasmo e a disposição das equipes são apontados como fatores decisivos para o sucesso da proposta.
Todo esse movimento tem trazido avanços expressivos. A frequência escolar em áreas de maior vulnerabilidade aumentou de 80% para 92%, conforme apontam os sistemas municipais de monitoramento. Houve também melhora significativa na fluência leitora e na produção escrita, e as escolas vocacionadas se tornaram polos de inovação, inclusão e protagonismo estudantil. Além disso, a rede conseguiu fortalecer o sentimento de pertencimento das(os) estudantes.
“A escola é sempre agitada, movimentada. Às vezes, o prefeito está aqui… Muitas visitas e atividades. Então eles (os alunos) estão acostumados com esse trânsito.”
Gessika Belan, diretora do Colégio Municipal Washington Luiz – Escola Vocacionada ao Esporte
Mas, há algo que transcende os números. A escola de Educação Integral em Tempo Integral em Barra Mansa é também um território de esperançar. É o lugar onde a criança em situação de vulnerabilidade encontra proteção; onde a(o) jovem descobre talentos, seja no violino, no esporte ou na horta; onde professoras(es) e famílias se reconhecem como parte de um mesmo projeto de futuro coletivo.
A experiência de Barra Mansa demonstra que a educação integral vocacionada vai além da ampliação de tempo: ao articular currículo, território e interesses das(os) estudantes, a escola se torna um espaço de aprendizagem, convivência e criação.

“Lá quando a gente começou, escrevemos o projeto, começamos a rascunhar e começamos a captar profissionais para este trabalho, porque a gente queria que fossem profissionais que conhecessem e que partilhassem essa ideia junto com a gente. Não faria sentido construir uma escola com profissionais que não comprassem essa ideia, não iria para frente. Então começamos a buscar profissionais da rede inteira.”
Carla Giovana, professora da Escola Municipal Vila Elmira – Escola Vocacionada Socioambiental
Conheça mais sobre as políticas locais:
Política Municipal da Educação Integral (Barra Mansa, 2025): clique aqui!
Propostas Curriculares das Oficinas Temáticas (Barra Mansa, 2022): clique aqui!

PREFEITURA DE BARRA MANSA:
• Instagram: @barramansarj
ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:
CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato:
• Instagram: @ciepambientalbm
Colégio Municipal Washington Luiz:
•Instagram:
Colégio Municipal Washington Luiz – CIEP 485:
• Instagram: @ciep485
Escola Municipal Jhayra Fonseca Drable:
• Instagram: @jahyradrable
Escola Municipal Gelson Silvino:
• Instagram: @gelson_ambientalbm
Escola Municipal Vila Elmira:
• Instagram: @emve.escolavilaelmira
PREFEITURA DE BARRA MANSA:
www.instagram.com/barramansarj
ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:
CIEP 483 Municipalizado Ada Bogato: www.instagram.com/ciepambientalbm
Colégio Municipal Washington Luiz: www.instagram.com/colegiowashingtonluizbm
Colégio Municipal Washington Luiz – CIEP 485: www.instagram.com/ciep485
Escola Municipal Jhayra Fonseca Drable: www.instagram.com/jahyradrable
Escola Municipal Gelson Silvino: www.instagram.com/gelson_ambientalbm
Escola Municipal Vila Elmira: www.instagram.com/emve.escolavilaelmira