Por Fernanda Calsing, Isabel de Oliveira e Silva, Julia Marina Azambuja dos Santos, Levindo Diniz Carvalho e Lídia de Paula Ferreira Teixeira

Uma proposta de Educação Integral em Tempo Integral na Educação Infantil.

Tempo de cuidar-se, na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Ilha da Pintada.

Foto: Louise Canellas Benchaya

É tempo de conhecer… conhecer o Cenário Tempos, proposta pedagógica de Porto Alegre para a Educação Infantil em Tempo Integral. Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, é uma cidade com cerca de 1,3 milhão de habitantes, de acordo com dados de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), marcada por forte tradição cultural e por uma vida política historicamente ativa e participativa. Seu território expressa uma diversidade de origens e modos de vida, resultado da presença indígena Guarani e Kaingang, da população negra e de ondas migratórias europeias.

Ao mesmo tempo, Porto Alegre revela contrastes socioeconômicos evidentes: é uma cidade com altos índices de escolaridade e serviços públicos consolidados, mas que convive com desigualdades territoriais profundas entre bairros centrais e áreas periféricas, onde as condições de moradia, mobilidade e oportunidades de trabalho são mais restritas. A combinação de riqueza cultural, diversidade social e desigualdades estruturais faz da cidade um espaço plural e em constante disputa por direitos, reconhecimento e políticas públicas mais justas.

É neste contexto que foi criado o Cenário Tempos, um movimento de revisão curricular que reconhece a singularidade da infância como um tempo da vida. A construção da proposta foi fundamentada na escuta das(os) profissionais das escolas da Rede Municipal de Educação de Porto Alegre e parte do princípio de que as crianças são sujeitas(os) sociais ativas(os), que participam e produzem sentidos em todos os momentos do cotidiano institucional.

A Educação Infantil, da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre, é composta, atualmente, por 42 Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI), 37 Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEF) que possuem turmas de pré-escola, e 222 Escolas Comunitárias de Educação Infantil (ECEI) — a rede parceira. A coordenação da etapa da Educação Infantil é realizada pela Unidade de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED/POA), que acompanha e assessora pedagogicamente todas as escolas da Rede.

Crianças brincando às margens do Rio Jacuí, em Ilha da Pintada, em maio de 2025.

Foto: Louise Canellas Benchaya

A CONSTRUÇÃO DA PROPOSTA

Cenário Tempos é fruto de um trabalho coletivo que, no período de 2019 a 2021, contou com a participação de professoras(es), coordenadoras(es) pedagógicas(os) das escolas e assessoras(es) pedagógicas(os) da SMED/POA. O processo de organização, no entanto, ocorreu antes, em um movimento permanente de estudos e reflexões coletivas em que essas(es) profissionais integraram, desde 2018, grupos de trabalho e de discussão sobre os diferentes aspectos da política e das práticas pedagógicas da Educação Infantil.

 

O documento Cenário Tempos foi concluído em 2021. Além dos grupos de trabalho, contou com a participação das(os) coordenadoras(es) pedagógicas(os) das Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI) e das(os) supervisoras(es) pedagógicas(os) das Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEF). Essas(es) profissionais integraram o grupo de trabalho coordenado pela assessoria pedagógica da Unidade de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED/POA). A elaboração foi realizada em um processo coletivo de gestão e participação, com encontros periódicos de estudo e socialização de práticas. As(os) participantes se encarregaram de levar para as(os) professoras(es) das suas escolas as propostas debatidas, conduzindo um tempo de conversar e reunir-se.

“A gente teve que conversar muito com o coletivo e dizer: ‘O que estamos discutindo aqui é o que nós vamos oferecer para as crianças’. O que vai para o nosso documento é o que a gente não abre mão que todas as escolas ofereçam para as crianças, as diferentes infâncias e as diferentes regiões da nossa cidade.”

Jaqueline Loboruk, professora participante na elaboração do Cenário Tempos e atual coordenadora da Escola Municipal de Educação Infantil Maria Helena Cavalheiro Gusmão

“A gente se deu conta de que o Cenário Tempos é o inegociável dessa rede, é aquilo que entendemos que toda escola tem que ter, ainda que com suas características e peculiaridades.”

Cláudia Amaral, professora participante na elaboração do Cenário Tempos e atual coordenadora da Escola Municipal de Educação Infantil Mamãe Coruja

O processo buscou responder às questões elaboradas coletivamente. Procurava-se concretizar a ideia de que, muito além do tempo de permanência na escola, a educação de bebês e crianças, em instituições educativas, demanda uma concepção de Educação Integral.

É importante lembrar que a Educação Infantil tem, em todos os documentos normativos da área, uma definição que carrega os princípios da Educação Integral: cuidar e educar, como apoio ao desenvolvimento de bebês e crianças, desde os primeiros meses, abrangendo os aspectos físico, cognitivo, social, emocional e cultural.

Sendo assim, o processo de discussão coletiva procurou aprimorar uma concepção que considera a criança como sujeita(o) histórica(o) e de direitos, que produz conhecimentos e cultura, conforme Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI) (Brasil, 2009). Essa perspectiva procurou reafirmar a importância de uma proposta para toda a Rede Municipal e do planejamento coletivo capaz de expressar o compromisso com políticas públicas de qualidade e equidade na Educação Infantil.

A construção da proposta contou com o protagonismo das(os) profissionais da Educação Infantil e foi também um processo de formação, no qual as(os) professoras(es) da rede puderam nomear e narrar suas experiências.

 

A proposta do Cenário Tempos busca jogar luz em todos os tempos e experiências da rotina na escola, construindo a ideia de que, desde o tempo de chegar no espaço escolar, até o tempo de despedir-se, serão garantidos contextos, espaços e propostas de qualidade pensadas para as crianças que vivem naquele território.

“O Cenário Tempos veio justamente para romper a bolha de achar que o foco é ter todas as crianças sentadas à mesa, fazendo tudo ao mesmo tempo. Na verdade, o Cenário Tempos veio para nos libertar disso, porque o tempo de cuidar, o tempo de acolher, o tempo de historiar, de desemparedar, é tão importante quanto o tempo de propor.”

Tatiana Telch Evalte, assessora das escolas próprias da zona sul da SMED/POA

Tempo de propor/oportunizar, na EMEI Ilha da Pintada. 
Foto: Kauane da Silva Pretto

EDUCAÇÃO INTEGRAL EM TEMPO INTEGRAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A etapa da Educação Infantil assume, historicamente, o compromisso com o desenvolvimento e Educação Integral de bebês e demais crianças pequenas. Os princípios éticos, políticos e estéticos, afirmados nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI) (Brasil, 2009) e retomados na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) Educação Infantil (Brasil, 2017), são também orientadores para a formação humana integral e para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.

 

Nesse horizonte, o currículo da Educação Infantil em jornada de Tempo Integral vincula-se ao modo como as crianças constroem conhecimento, brincando e interagindo, e às situações e às experiências concretas da vida cotidiana das crianças e seus saberes.

 

Com a implementação da jornada de Tempo Integral, pode-se também fortalecer a ideia de que os campos de experiências devem ser trabalhados de forma integrada, o que significa uma mudança de postura em relação ao processo educativo, aproximando as crianças do seu contexto social, por meio do desenvolvimento do senso crítico, da pesquisa e da resolução de problemas.

CENÁRIOS TEMPOS

PENSAR COM SENSIBILIDADE O COTIDIANO DE BEBÊS E CRIANÇAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL

O Cenário Tempos é um documento orientador, que compõe a proposta pedagógica para Educação Infantil na Rede Municipal de Educação de Porto Alegre, com o propósito de repensar a organização dos tempos, dos espaços, das relações e das práticas de educação e cuidado nas escolas. A proposta reconhece que a vida cotidiana é o lugar onde as experiências educativas acontecem. O Cenário Tempos constitui um modo de pensar a escola e o tempo educativo com fluidez, que se renova constantemente no encontro entre crianças, educadoras(es) e comunidade.

“A gente (adulta[o]) precisa parar também. A gente precisa ter esse tempo de apreciação, de parar, de escutar, de ver aquela criança.”

Luciana Scolari, diretora da Escola Municipal de Educação Infantil Ilha da Pintada

“O Cenário Tempos nos ajudou muito nessa reconstrução da escola, nesse olhar para as nossas concepções, no formar esse grupo de educadores e conseguir enxergar também as concepções que eles trazem, assim como enxergar esse cotidiano de forma potente.”

Anelise Heck, professora participante na elaboração do Cenário Tempos e atual coordenadora Escola Municipal de Educação Infantil Protásio Alves

Entre 2021 e 2025, o Projeto consolidou-se em mais de 40 escolas da Rede Municipal de Educação, por meio de ações articuladas, assim como foi fomentado nas mais de 200 escolas comunitárias que fazem parte da oferta pública de Educação Infantil, no município. Os principais movimentos da proposta Cenário Tempos envolveram, sobretudo, ações de formação continuada, a fim de promover um olhar mais sensível e atento aos ritmos, interesses e modos de aprender das crianças.

Foram realizadas rodas de conversa que possibilitaram o diálogo entre teoria e prática, incentivando as equipes docentes a repensarem o cotidiano e a estrutura dos espaços educativos, valorizando o brincar, a investigação e as múltiplas linguagens como caminhos de aprendizagem. Essas ações culminaram em um processo de autoria coletiva da proposta pedagógica Cenário Tempos, que reposicionou a Rede na perspectiva da Educação Integral em Tempo Integral, na Educação Infantil.

Tendo como princípio organizador as interações e as brincadeiras, a proposta convida a olhar, de forma reflexiva e significativa, para os diferentes tempos das crianças na escola. Inicialmente, propõe nove tempos, que convidam as(os) professoras(es), de forma orgânica em cada contexto, a enriquecerem as condições para as diferentes experiências do cotidiano: chegar, alimentar-se, cuidar-se, descansar, despedir-se, conversar, historiar, propor e habitar.

Tempo de alimentar-se, no Jardim de Praça Pica-Pau Amarelo.

Foto: Larissa de Lima Silva

TEMPO DE REUNIR-SE/CONVERSAR

“Toda hora, quando eu vou na praia, eu pulo as ondas com a minha irmã quando ela vai comigo.”

Aurora Oliveira Centeno Paim, 6 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

“Mas o que tem a ver isso que tu tá falando, com o que a gente tá conversando?”

Lucca Oliveira Paré, 6 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

TEMPO DE HISTORIAR

“Ah, eu também tive uma uma bisavó que virou estrelinha e tá lá no céu.”

Aurora Oliveira Centeno Paim, 6 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

TEMPO DE DESCANSAR

“Val, senta comigo na hora do sono?”

Manuela Brito de Lima, 6 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

TEMPO DE HABITAR/
DESEMPAREDAR

“A minha casa tá quase chegando. Ela é lá depois. Não. É quase ali.”

Melanni Mirella Ribeiro Teixeira, 6 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

TEMPO DE
CUIDAR-SE

“Não fica atrapalhando a nossa privacidade.”

Lucca Oliveira Paré, 6 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

TEMPO DE PROPOR/
OPORTUNIZAR

“Profe, que legal aquela brincadeira que tu inventou. A gente pode fazer de novo?”

Melanni Mirella Ribeiro Teixeira, 6 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

Assim, a proposta se alinha à concepção de Educação Integral em Tempo Integral, que reconhece que o tempo ampliado só adquire sentido quando é habitado por experiências de qualidade, que envolvem o corpo, o pensamento e a cultura. Nessa perspectiva, a ampliação da jornada escolar é entendida como possibilidade de expansão e enriquecimento das relações e não como tempo de repetição ou de práticas fragmentadas.

A reflexão coletiva é inerente ao trabalho docente nessa proposta. Com isso, observa-se que há transformações que têm sido denominadas de tempo de reeducar os olhares, as práticas e as escolhas pedagógicas para as crianças. Um exemplo pode ser observado na EMEI da Ilha da Pintada, que organiza o Projeto Descansar Brincando, uma forma de respeitar a necessidade da criança por oferecer, além da oportunidade de dormir, opções para o tempo do descanso após o almoço.

Tempo de reunir-se, no Jardim de Praça Pica-Pau Amarelo.

Foto: Larissa de Lima Silva

Outro aspecto que se destaca na forma de organização do documento é que ele dialoga com as maneiras de apropriação do conhecimento das(os) professoras(es) que se encontram no cotidiano das escolas.

 

O Cenário Tempos propõe uma lógica de organização do cotidiano escolar baseada em fluxos orgânicos e integrados, que permitam às crianças viver o tempo da curiosidade, da criação e da escuta sensível e com continuidade. A implementação do Cenário Tempos também tem contado com uma forte articulação interna entre as(os) sujeitas(os) da escola. Professoras(es), funcionárias(os) e equipes gestoras participam de processos de formação continuada, repensando a rotina, o planejamento e a documentação pedagógica.

“A grande vantagem do Cenário Tempos é essa questão da leitura ser muito mais fluida, em comparação com a BNCC que, apesar de ser um documento também riquíssimo, a leitura é um pouquinho mais densa. O Cenário Tempos vem com essa proposta de ser bem mais tranquilo de ler. Ele é mais humano.”

Larissa Vasques, assessora das escolas próprias da zona norte da SMED/POA

Busca-se construir continuidade e coerência no cuidado e educação das crianças, especialmente nas escolas de jornada integral, em que a permanência estendida de até 12 horas diárias, exige um olhar atento para a integração das experiências e para o equilíbrio entre cuidado, descanso, atividades livres e direcionadas. Essa articulação interna amplia o sentido da proposta, garantindo que o Tempo Integral seja um tempo educativo de qualidade, e não apenas uma ampliação quantitativa da jornada.

O processo de construção e implementação da proposta Cenário Tempos permitiu compreender os diferentes tempos dentro das jornadas diárias das crianças, tanto na jornada parcial, quanto na jornada integral, desenvolvida na maioria das escolas de Educação Infantil de Porto Alegre.

Tempo de historiar, no Jardim de Praça Pica-Pau Amarelo.

Foto: Gabriela Buttelli Henrickson

Além da dinâmica interna, o Cenário Tempos enfatiza a articulação com o território, compreendendo que a escola é parte viva de uma rede de saberes, memórias e culturas. Cada instituição é convidada a mapear e integrar os saberes de sua comunidade, sejam saberes de famílias, povos tradicionais ou vivências comunitárias, inserindo-os nas experiências das crianças. Essa inserção pode ocorrer por meio de convites, parcerias ou ações intersetoriais, e tem permitido o fortalecimento dos vínculos entre escola e território.

Em muitas escolas, a documentação das experiências tornou-se ferramenta de estudo e de partilha, permitindo que o processo de avaliação se torne uma forma de aprender sobre o que se vive. Além disso, com a trajetória de implementação da proposta curricular, surgiram discussões sobre novos tempos que poderiam ser acrescentados, entre eles o tempo de reeducar, voltado à reflexão sobre a educação para as relações étnico-raciais e de gênero, dentre outras relações das políticas afirmativas.

Assim, o Cenário Tempos consolida-se como uma estratégia de formação, gestão e inovação pedagógica profundamente alinhada às Diretrizes Operacionais Nacionais de Qualidade e Equidade na Educação Infantil (Brasil, 2024) e às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (Brasil, 2009). Ao propor uma pedagogia que valoriza o tempo vivido, o espaço compartilhado e a escuta ativa, a proposta reafirma a função da escola como lugar de cuidado, de criação e de formação integral de cada criança.

“A nossa grande provocação era pensar a rotina, porque era um grande problema para nós na época: como as nossas escolas de tempo integral atendem 12 horas, das sete horas às 19 horas, e as nossas professoras dizem que a gente não tem tempo para trabalhar com as crianças? Essa era a nossa pergunta problema. Como não temos tempo se atendemos 12 horas?”

Fernanda Guimarães, professora participante do processo de elaboração do Cenário Tempos e atual diretora da Escola Municipal de Educação Infantil dos Municipários Tio Barnabé

“A gente até incluiu um tempo a mais, que é o tempo de reeducar. É importante para abraçar as políticas afirmativas, as relações étnico-raciais, as questões inclusivas, de gênero… A gente precisa se reeducar como adultos.”

Jaqueline Loboruk, professora participante na elaboração do Cenário Tempos e atual coordenadora da Escola Municipal de Educação Infantil Maria Helena Cavalheiro Gusmão

Desenho de estudante, de 5 anos, morador da Ilha da Pintada.
Foto: Louise Canellas Benchaya

“Esse lápis é marrom.”

Noah Camargo Albernaz, 4 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

“É sim. É que eu sou pretinha… Preta! É a minha cor linda!

Laura Barreto de Souza, 4 anos, estudante da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

INSPIRAÇÕES PARA A EDUCAÇÃO INTEGRAL EM TEMPO INTEGRAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL

O Cenário Tempos se afirma como experiência inspiradora da Educação Integral por propor uma ruptura com o modelo fragmentado de escola e construir, no lugar, territórios educativos vivos, no qual se aprende com a cidade, com as famílias e com as infâncias em um tempo que não está no relógio, mas que parte e retorna ao tempo de acolher. A experiência pode inspirar outras redes ao demonstrar que a ampliação do tempo escolar deve caminhar junto com a ampliação das experiências de qualidade. 

Esse modo de compreender a escola como experiência viva se sustenta, sobretudo, naquilo que as próprias crianças revelam sobre o tempo: um tempo que não cabe no cronômetro institucional, mas que emerge das relações, das emoções e das descobertas do cotidiano. O cuidado em criar condições para que cada tempo seja revestido de sentido para as crianças permite que elas explorem e criem os ambientes por meio das múltiplas linguagens com que elas interpretam o mundo. 

Com o Cenário Tempos, instaurou-se e, em alguns casos, aprofundou-se a reflexão sobre o cotidiano. As crianças evidenciam gostar da convivência diária nos espaços escolares, que são bonitos e bem organizados, exibindo em suas dependências produções que revelam a riqueza do seu cotidiano. 

As famílias também expressam a importância de contarem com Escola em Tempo Integral inclusiva e que proporciona experiências enriquecedoras. O depoimento de um pai de estudante da EMEI da Ilha da Pintada reflete sua alegria e reconhecimento de que, para sua filha, conviver em uma escola com diversidade de crianças, incluindo aquelas com deficiência, tornava-a alguém melhor.

Tempo de reunir-se, na EMEI Ilha da Pintada
Foto: Lidia de Paula Ferreira Teixeira

“A minha filha, no primeiro ano dela aqui, aprendeu muito sobre como conviver com crianças diferentes.”


Jonathan dos Santos, pai da estudante Alana dos Santos, 5 anos, da Escola Municipal de Educação Infantil da Ilha da Pintada

As(os) docentes também expressaram os sentidos da proposta, como no caso da professora Caroline de Borba, da EMEI da Vila Tronco, que disse que encontrou um lugar para desenvolver um projeto de bordado com as crianças, confiando na capacidade de meninas e meninos manusearem linhas e agulhas.

“As obras produzidas nessa escola têm tornado a escola mais viva!”

Caroline de Borba, professora da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Tronco

A professora comenta que “enquanto as crianças bordam, narram suas dificuldades, seus sonhos, suas vidas.” Em uma das paredes com comentários escritos de falas das crianças sobre suas experiências, lê-se a frase: “Eu sou um agulhador muito bom!”, do estudante Samuel Freitas Litwinczyk, 6 anos, da EMEI da Vila Tronco.

A proposta do Cenário Tempos proporciona às(aos) professoras(es), coordenadoras(es) e diretoras(es), especialmente da rede pública, que possui um quadro de profissionais mais estável, oportunidade de olhar para cada momento da vida das crianças na escola com mais delicadeza, o que traz tanto clareza de sua intencionalidade, quanto procura tornar a jornada na escola mais suave e bonita.

Como toda experiência educativa, muitos são os desafios: ainda há diferenças importantes entre a Rede Própria e a Rede Parceira, que vão desde as condições físicas das escolas, até a formação, forma de vínculo e condições de trabalho das(os) professoras(es). A Unidade de Educação Infantil da SMED/POA tem consciência disso: há esforços em andamento para buscar contemplar, no plano da formação, as necessidades de todas as instituições.

Outro desafio, que se encontra em processo de superação, é o de ampliação do tempo de funcionamento das instituições. Ele tem sido, progressivamente, aumentado para atingir 12 horas em todas as EMEIs. Esta é uma demanda de Tempo Integral extenso, que atende às necessidades das famílias, tendo em vista a conciliação dos tempos de trabalho e deslocamentos das(os) responsáveis pelas crianças.

Sobre este aspecto, é importante reconhecer tais esforços, pois trata-se de condições da vida social que se impõem, mas que não devem deixar de suscitar a crítica a esse modelo de funcionamento das sociedades em que pessoas adultas consomem tempo excessivo com o trabalho remunerado e, não raro, com deslocamentos de grandes distâncias diariamente. Assim, mais uma vez, percebe-se a importância de uma proposta pedagógica que se propõe a refletir e agir na construção de tempos significativos e que promovam bem-estar para as crianças que passam um longo tempo nas escolas de Educação Infantil.

“A gente já vivencia todos esses tempos. Então, na verdade, é o tempo da escola, é o tempo da vida. A escola não é um pedaço da vida, ela é a vida acontecendo e a gente dizendo para as professoras que a gente está vivendo no dia a dia com as crianças, é a nossa vida também que está acontecendo, pulsando. Então, acho que o Cenário Tempos traz toda essa pulsão de vida que é a escola da infância.”

Vanessa Quadros Spat, assessora das escolas próprias da zona leste da SMED/POA

Tempo de cuidar-se, na EMEI Vila Tronco.

Foto: Mirian França Rotilli da Silva

PARA SABER MAIS SOBRE A EXPERIÊNCIA:

PORTO ALEGRE. Secretaria Municipal de Educação. Cenário Tempos. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Educação, [2021]. Disponível em: https://prefeitura.poa.br/sites/default/

files/usu_doc/noticias/2021/10/20/

Educacao.pdfAcesso em: 24 nov, 2025.


PORTO ALEGRE. Secretaria Municipal de Educação. Revista Identidades: Educação Infantil em Foco. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Educação, [2023]. 

Disponível em https://online.fliphtml5.com/ifyhd/fayh

/?1772647546#p=1 

Acesso em: 24 nov, 2025.


PORTO ALEGRE. Secretaria Municipal de Educação. Conexões em Rede: Unidade de Educação Infantil. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Educação, [2024]. Disponível em 

https://sites.google.com/educar.poa.br/

conexoesemrede/in%C3%ADcio/diretoria-

pedag%C3%B3gica/unidade-de-educa%C3%A7%C3%A3o-infantil. Acesso em: 24 nov, 2025.


PORTO ALEGRE. Secretaria Municipal de Educação. Referencial Curricular da Educação Infantil de Porto Alegre. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Educação, [2025]. Disponível em: https://sites.google.com/educar.poa.br/

conexoesemrede/in%C3%ADcio/diretoria-pedag%C3%B3gica/unidade-de-educa%C3%A7%C3%A3o-infantil?authuser=0. Acesso em: 24 nov, 2025.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Resolução CNE/ CEB nº 5, de 17 de dezembro de 2009. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Básica, [2009]. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?ption=com_%20docman&view=

download&alias=2298-rceb005-09&category_slug=dezembro-2009-%20pdf&Itemid=30192. Acesso em: 24 nov, 2025.


BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: Ministério da Educação/ Consed/Undime, [2017]. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 24 nov, 2025.


BRASIL. Diretrizes Operacionais Nacionais de Qualidade e Equidade para a Educação Infantil. Resolução CNE/CEB nº 1, de 17 de outubro de 2024. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Básica, [2024]. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.phpoption=com_

docman&view=download&alias=265031-rceb001-24&category_ slug=outubro-2024&Itemid=30192. Acesso em: 24 nov, 2025.


BRASIL. Qualidade e Equidade na Educação Infantil: princípios, normatização e políticas públicas. Brasília: Ministério da Educação, [2024]. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/media/qualidade-equidade-educacao-infantil.pdf. Acesso em: 24 nov, 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2022: população por sexo e idade. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https:// seriesestatisticas.ibge.gov.br. Acesso em: 10 dez. 2025.

SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE PORTO ALEGRE:

• Instagram: @com/educapoa

• Youtube: @diretoriapedagogica2746

 

ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:

EMEI da Vila Tronco:

• Instagram: @emeivilatronco

 

EMEI da Ilha da Pintada: • Instagram: @emeiilhadapintada

 

EMEI JP Pica-Pau Amarelo:

• Instagram:

@emei_jp_picapau_amarelo

 

ECEI Tia Iara:

Instagram:@ceitiaiara