Por Álida Angélica Alves Leal, Ana Paula Zanettin, Ana Luiza Teixeira Carvalho, Camila Martins Grellt, Fabiana Coutinho Oliveira Indruczaki Souza e Isabel de Oliveira e Silva

A força de uma proposta coletiva que transforma o chão do campo em terreno fértil de saberes.
Estudantes participam do Clube de Ciências Pequenos Exploradores da Escola Municipal de Educação Infantil Paulo Freire.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho
E se todas as pessoas tivessem acesso à terra, com o direito garantido de nela plantar, colher e construir suas vidas em comunhão com suas comunidades? E se, nesses territórios, existissem escolas que respeitassem os modos de viver de suas moradoras e de seus moradores, com professoras e professores dispostas(os) a construir conhecimentos com as crianças, jovens e toda a comunidade, para além das paredes das salas de aula?
E se, naquele território, o lugar mais fértil para plantar sementes da ciência fosse um campo de arroz orgânico, cultivado coletivamente? E se as perguntas mais curiosas e instigantes brotassem das mentes das crianças que vivem ali, no campo? E se o que chamamos de laboratório fosse, na verdade, a beira do rio, a sombra de um ipê, a colheita de um assentamento ou um galinheiro situado ao lado de um container colorido, que abriga um projeto de cooperativa dentro de uma escola do campo?
São perguntas como estas, cheias de vida e significados, que movimentam a história da Educação do Campo no município de Nova Santa Rita e dos seus Clubes de Ciências – uma experiência que, há uma década, faz a Ciência brotar da terra e florescer nas escolas do campo.


Área externa da EMEF Rui Barbosa.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho
Localizada na região metropolitana de Porto Alegre, Nova Santa Rita – emancipada em 1992 e com pouco mais de 30 mil habitantes – é um território marcado por profundas lutas pela terra no Brasil. Desde o final da década de 1980, ocupações de terra organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) transformaram a paisagem e a história do município. Ao longo da década de 1990, a partir dessas ocupações, construíram-se assentamentos da reforma agrária, que se tornaram referências para todo o país, pelo trabalho com produção agroecológica, pela organização da vida comunitária e pela educação contextualizada feita para e pelos povos do campo.
Atualmente, o município abriga quatro assentamentos da reforma agrária. Entre eles, o Assentamento Capela, com sua Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (COOPAN/MST), referência nacional e internacional em práticas agroecológicas, responsável pela maior produção de arroz orgânico da América Latina. Em meio à expansão urbana e industrial de Porto Alegre, Nova Santa Rita se reafirma como um território de resistência e de construção de um modo específico de viver o território, em que o direito dos povos do campo à terra, à moradia e à educação se entrelaçam com as lutas por justiça social e sustentabilidade.

“ANTES ERAM AS ESCOLINHAS DO CANTO… AGORA, SOMOS ESCOLAS DO CAMPO!”
No final dos anos 1990, os movimentos sociais, especialmente o MST, impulsionaram a luta por uma escola que dialogasse com as realidades e potencialidades do campo. Em contraposição à Educação Rural, pensada sob a lógica urbana e do agronegócio, emergiu a Educação do Campo, uma proposta que reconhece o campo como território de vida, cultura e luta. Também afirma o direito de permanecer, aprender e transformar o mundo a partir do próprio chão e do protagonismo das(os) sujeitas(os) que nele vivem.

“Eu estou aqui desde 1997. Eram as escolinhas. Elas não eram vistas. Quando entrou a atual Secretária de Educação, que na época era a prefeita, é que as as escolinhas tiveram a visibilidade. Daí não eram mais escolinhas. Eram as escolas do campo. Começamos a ter planejamento coletivo, formações continuadas (…).”
Cáren de Malheiros Garcia, conselheira municipal de Educação
Em Nova Santa Rita, foi de mãos dadas que comunidades escolares e famílias resistiram para que cada escola permanecesse viva, aberta e vinculada ao território. Foi por meio da organização popular e da formação política, com a presença ativa de sujeitas(os) do campo em espaços decisivos da vida coletiva — como a gestão municipal, os conselhos, os fóruns, as associações e instâncias da gestão escolar etc. — que a cidade, em 2013, institucionalizou a Educação do Campo como política pública em seu território, assegurando continuidade do projeto educativo.
Esse avanço resultou da atuação de Margarete Simon Ferretti, professora aposentada e atual Secretária de Educação, cuja liderança foi decisiva para consolidar a política de Educação do Campo em Nova Santa Rita — um marco que simbolizou o reconhecimento de uma trajetória de lutas e de um projeto educativo construído desde as bases, com participação social e compromisso com a transformação das condições de vida no campo.
Como lembra a professora e atual diretora Andressa Rodrigues, as antigas “escolinhas do canto” tornaram-se “escolas do campo”, dignas de investimento e férteis na produção de saberes e identidades camponesas.

Atividade do Clube de Ciências Pequenos Exploradores da EMEI Paulo Freire.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho

“COMO A ENERGIA CHEGA NO FIO? COMO NASCE O ARROZ ORGÂNICO?”: EM CENA, OS CLUBES DE CIÊNCIAS DO CAMPO
Foi no solo fértil onde a Educação do Campo havia sido plantada, em Nova Santa Rita, que germinou, em 2015, o primeiro Clube de Ciências do Campo. Essa experiência nasceu do encontro entre profissionais da Rede Pública de Educação Básica do município e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que, em 2014, aproximou o recém-criado curso de Licenciatura em Educação do Campo, da realidade local.
Participantes de um processo de formação continuada na UFRGS, essas professoras vislumbraram as potencialidades dos Clubes ao responder a uma provocação do professor José Vicente Lima Robaina, que redigia um projeto de extensão sobre o tema à época. A proposta surgiu de uma conversa em sala de aula, quando se discutia como aproximar a Ciência da realidade das escolas do campo. Desse diálogo, brotou a compreensão de que um rico laboratório já estava ali, no território. Assim, germinou a ideia do primeiro Clube de Ciências do Campo, em Nova Santa Rita.
CANÇÃO DOS CLUBES DE CIÊNCIAS DO CAMPO
Composição: Ástrid Godoi
Aqui produzimos conhecimento
Com nossa vivência, nossa essência
Estudando a natureza
O pensamento crítico e a ciência
Vamos nos conectar
Com o mundo ao redor
Com nossa comunidade
Vamos cooperar
Criatividade em tempo integral
Plantando conhecimento na vida real
A cada dia colhendo experiências
Nos Clubes de Ciências
O primeiro broto dos Clubes de Ciências nasceu, em 2015, na Escola Municipal de Educação Fundamental (EMEF) Rui Barbosa, localizada no Assentamento Capela. No início, era planta que germinava tímida, em terreno recém-molhado que, após ser revolvido e adubado em mutirão, transformou-se em solo fértil para novas plantações.
“Tu tens o maior laboratório que toda escola do campo tem, que é a natureza. Não precisa de laboratório pra gente fazer Ciência.”
José Vicente Lima Robaina, professor idealizador do Projeto de Extensão da UFRGS Clubes de Ciências do Campo
Como sementes ao vento, as práticas do Clube de Ciências Saberes do Campo, da EMEF Rui Barbosa, se espalharam pelo território e, hoje, alcançam dez escolas da Rede Municipal, da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos.
Os Clubes de Ciências do Campo emergiram com o objetivo de proporcionar às(aos) estudantes uma formação integral, desenvolvendo habilidades cognitivas, afetivas, sociais e culturais em sintonia com o meio em que vivem. Articulando teoria e prática de forma fluida, criativa e sensível, os Clubes cultivam valores, ética ambiental, senso de pertencimento e o olhar investigativo sobre o cotidiano.
Esses ambientes não são apenas espaços de pesquisa: são processos vivos, guiados pela pedagogia de Paulo Freire e pelas referências de Roseli Caldart e Miguel Arroyo (Educação do Campo); José Carlos Libâneo, Daniela Tomio, Ronaldo Mancuso e José Vicente Lima Robaina (Clube de Ciências) e Jaqueline Moll (Educação Integral), entre outras. A prática reflexiva, o estudo do território, os saberes populares e a dialogicidade são os fios que costuram cada projeto, cada experimento, cada descoberta.

Estudantes participam de atividade de acolhimento da EMEF Rui Barbosa.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho

“Começamos, cada uma, na sua sala. Depois, a gente viu que poderia entrar na sala da outra, para fazer atividade do Clube. Em seguida, percebemos que podíamos colocar todos juntos e fazer uma aula. Daí, vimos que não precisava ser só eu para representar aquele Clube, que todas poderiam interagir porque a gente escolhia as temáticas todas juntas. (…) Eu digo que é um crescimento. A gente conseguiu perceber, ver o que precisava ser mudado. Então, começou com os nossos professores dando aula. E, depois veio o protagonismo dos alunos, a participação. (…) Aí, vem a questão da Educação do Campo e do ensino de Ciências. Começamos ir atrás de referência bibliográfica para amparar aquele Clube de Ciências para a Educação do Campo. E aí, como é que a gente trabalha a Educação do Campo? É o protagonismo do aluno. O ensino de Ciências é o protagonismo do aluno. É o território.”
Andressa Luana Moreira Rodrigues, diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Rui Barbosa
O CLUBE DE CIÊNCIAS DA EMEF RUI BARBOSA
Dissertação de Sabrina Silveira da Rosa, orientada pelo professor José Vicente Lima Robaina, intitulada: Clube de Ciências Saberes do Campo: contribuições para aprendizagem da educação em ciências da natureza na EMEF Rui Barbosa, em Nova Santa Rita, Rio Grande do Sul (UFRGS, 2021).

Embora com flexibilidade para responder melhor à realidade de cada comunidade escolar, os Clubes de Ciências possuem uma sistemática comum, que confere identidade à Educação Científica das crianças na Rede Municipal de Nova Santa Rita. As escolas definem um dia da semana em que há foco especial nas práticas do Clube. Todos os Clubes possuem um nome e uma mascote. Durante as atividades do projeto em curso no Clube, crianças e professoras(es) usam a camiseta e o crachá com os símbolos que as(os) identificam. Esses pequenos rituais fortalecem o sentimento de pertencimento e de coletividade, fazendo com que professoras(es) e crianças se reconheçam como parte de algo maior: uma comunidade curiosa, criadora e comprometida com o cuidado pelo território. Para consultar os Cadernos de Campo (registros) das(os) professoras(es), clique aqui.
A metodologia dos Clubes se baseia na curiosidade e no protagonismo das crianças. O que torna essa experiência única é a escuta. É o chão que ensina. É a comunidade que entra junto na sala de aula. É a escola que se expande para o território, junto com cada criança que por ela passa e leva o que aprendeu.


Prática interdisciplinar do Clube de Ciências Pequenos Exploradores da EMEI Paulo Freire.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho

“A ESCOLA É NOSSA!”
Com os Clubes de Ciências, escolas e comunidades passaram a entrelaçar saberes e a fortalecer laços de pertencimento, em Nova Santa Rita. A escola, historicamente delimitada por muros físicos e simbólicos, abriu-se para investigar as questões que emergiam dos territórios e das experiências concretas de suas(seus) sujeitas(os), especialmente das crianças.
As práticas de investigação dos Clubes partem das perguntas das crianças e das(os) jovens sobre a natureza e o cotidiano, transformando essas questões em projetos de pesquisa e criação coletiva. Indagações variadas — sobre a luz, a respeito da origem dos alimentos ou as mudanças no ambiente — passaram a ganhar novo espaço no dia a dia escolar, atuando como temas geradores que orientam os trabalhos dos Clubes de Ciências do Campo.
Cada espaço do território educativo se torna um laboratório vivo de descobertas, onde os saberes acadêmicos dialogam com as práticas culturais da comunidade e ampliam os horizontes de compreensão do mundo. Dessa forma, os Clubes de Ciências se articulam organicamente com a Educação Integral.
“(…) Foi a partir de 2018, quando vou para a Vó Edith (Escola Municipal de Educação Infantil), atrás da minha casa, que começo a pertencer ao espaço. Eu passo a ver outras coisas: essa família precisa disso, essa mãe sabe fazer tal coisa e pode vir nos ensinar. Aí, realmente a gente entende o trabalho da escola. Tu conheces os saberes da tua comunidade, começa a se apropriar daquilo e a ver o quão rico é trabalhar na comunidade onde tu pertence. (…) E, quando a comunidade começa a ver que a gente tem interesse pela vida deles, que são importantes dentro desse processo educativo, a escola e a comunidade se mostram diferentes. É o pertencimento: a escola é minha. É uma coisa que a gente diz muito: a escola é de vocês! A escola é nossa!”
Cáren de Malheiros Garcia, conselheira municipal de Educação
A força dos Clubes está em sua organicidade: enraizados no Projeto Político-Pedagógico (PPP) das escolas, começando na Escola Municipal de Ensino Fundamental Rui Barbosa, com o Clube de Ciências Saberes do Campo e, a partir de 2021, se faz presente na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Paulo Freire, com a criação do Clube de Ciências Pequenos Exploradores (CCPE), implementado seguindo a parceria com a UFRGS. A EMEI Paulo Freire, embora seja uma escola urbana, promove o diálogo com a Educação do Campo em suas práticas dentro do Clube de Ciências.
Nesse ponto, há o protagonismo das(es) professoras(es) da Educação Infantil, que reconhecem a potência de bebês e das crianças pequenas, ávidas por conhecer o mundo e seus detalhes. A partir do entendimento que a curiosidade e o desenvolvimento caminham juntos e que o entorno é um vasto laboratório, o grupo discutiu e consolidou coletivamente a implementação do Clube de Ciências também nesta etapa.

Entrada da EMEI Paulo Freire, com destaque para os coletores de garrafas PET – Ecopeixe e Petxinho.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho
O CCPE destaca-se pelo ineditismo da experiência desenvolvida com crianças entre 0 e 6 anos, com foco na Educação Científica na Escola da Infância. Na EMEI Paulo Freire, as práticas interdisciplinares do Clube são pensadas de forma lúdica, respeitando a faixa etária das crianças, promovendo o imaginário, as interações e as brincadeiras, como expressões das culturas da infância.
Os temas geradores são propostos tanto pelas(os) professoras(es), quanto pelas crianças, cujas ideias, interesses e curiosidades têm papel fundamental na organização das práticas. Assuntos como sustentabilidade e reaproveitamento de materiais recicláveis para construção de brinquedos, bem como práticas vinculadas à horta pedagógica, à qualidade do ar, ao uso de ervas medicinais, composteira orgânica e embelezamento dos espaços escolares evidenciam o protagonismo das(os) clubistas desde a primeira infância.
A EMEI Paulo Freire, situada em um loteamento popular com desafios socioambientais, como o descarte irregular de resíduos, ampliou suas ações educativas por meio do Clube de Ciências Pequenos Exploradores. Em 2019, a mascote, batizada como “Ecopeixe”, foi instalada na frente da escola, com ajuda da comunidade escolar. Trata-se de um coletor de garrafas PET, no formato de peixe. Para seguir incentivando o grupo, em 2021, chegou o “Petxinho”, um coletor menor de garrafa PET, e que recebeu este nome com a participação das famílias.
No rico imaginário das crianças, Ecopeixe e Petxinho são “mãe e filho”, laço afetivo que dá ainda mais vida e ternura à iniciativa de aprendizagem. Juntas(os), Ecopeixe e Petxinho tornaram o espaço mais atrativo e cheio de significados, despertando olhares, conversas e gestos de cuidado com o meio ambiente, como expressão do trabalho cotidiano realizado na e pela escola.
“Um desafio quando começou o Clube era: como levar Ciência para a Educação Infantil? Como fazer um Clube de Ciências com o berçário, o maternal? Será que eu consigo? Será que sou capaz de fazer uma prática dessas, aqui? Na verdade, a gente sempre fez, a gente já faz isso. (…) Porque a prática, que já é a prática da Educação Infantil, é lúdica, com brincadeira, com música, na rodinha, na experiência.”
Daiane Santos, professora da Escola Municipal de Educação Infantil Paulo Freire
Pulsando no compasso da comunidade, cada atividade do Clube é um convite para (re)descobrir o mundo ao redor: o quintal de casa, o galinheiro, o solo, as festas comunitárias, os saberes ancestrais, as histórias de quem fez e faz o território. Ao ocupar esses espaços de vivência e memória, as crianças se reconhecem como sujeitas(os) históricos, protagonistas do seu tempo e transformadoras do seu meio.
Olhar, escutar, sentir os cheiros, tocar, sentir medo… As crianças aprendem com todo o seu corpo, seus sentidos, emoções e pensamentos. Suas perguntas mobilizam curiosidade, afetos, alegrias. Elas fazem as perguntas fundamentais para entender o mundo, os outros seres e a si mesmas.

Em algumas práticas desenvolvidas no Clube de Ciências da EMEI Paulo Freire, a presença de animais favorece a investigação. A organização do grupo em roda possibilita a circulação de olhares e gestos como linguagem. Nesse contexto, a curiosidade e a superação de receios indicam que a experiência mobiliza dimensões cognitivas e afetivas. Assim, a atividade evidencia o potencial dos encontros para promover descobertas e fortalecer a aprendizagem compartilhada.
A roda é um símbolo que interliga os movimentos sociais de luta pela terra, as práticas correntes na Educação Infantil, as brincadeiras de rua e os ritos em diferentes culturas em suas práticas coletivas. Nessa experiência, pode-se ver e sentir como estar em roda amplia as perguntas de crianças e adultas(os), permite ver e ouvir a(o) outra(o), observar o objeto de conhecimento e fazer experiências de diferentes ângulos e formas. Faz circular a palavra, os sorrisos, os pequenos sustos diante do inesperado. Permite que as crianças experimentem a descoberta com senso de coletividade e de pertencimento.
“E, na minha visão de mãe, eu vi muito a questão da exploração do conhecimento das crianças, de chegarem em casa e (dizerem): ‘Eu aprendi isso, mãe, e tu não podes botar o lixo assim. Vamos separar´.”
Shayane Prado de Souza, mãe do estudante Theo Prado, 5 anos, da Escola Municipal de Educação Infantil Paulo Freire

As crianças têm mostrado que se pode olhar para a educação como quem olha para uma semente, acreditando no que irá brotar. As(os) professoras(es) também modificam o olhar para as práticas e o território, tornando-o mais investigativo. Reconhecer a potência infantil é entender que fazer perguntas é da natureza da criança, assim como da Ciência. Esse encontro lúdico e sistemático revela a grande força dessa experiência.
Rompendo com a lógica fragmentada do conhecimento, a prática científica emerge não como reprodução de teorias distantes, mas como exercício cotidiano de curiosidade, problematização e criação. Uma prática pedagógica que tem o jeito da Educação do Campo: plural, interdisciplinar e coletiva.
Os Clubes de Ciências também podem ser compreendidos como promotores da Educação Integral, acolhendo os diferentes tempos e modos de aprender das(os) sujeitas(os). Mais do que espaços de experimentação científica, configuram-se como lugares de encontro, escuta e crença nas potencialidades humanas.
Nessa perspectiva, assumem um papel inclusivo, permitindo que todos(as) os(as) estudantes participem e aprendam significativamente. Essa sensibilidade revela, no cotidiano, como a Ciência pode ser um caminho de pertencimento e valorização da diversidade.

Estudantes participam do Clube de Ciências Pequenos Exploradores da EMEI Paulo Freire.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho
O projeto articula-se de forma intersetorial e transversal, envolvendo diferentes secretarias do município, como a Secretaria da Saúde, a do Esporte e Cultura, a da Agricultura e a do Meio Ambiente, promovendo ações conjuntas que enriquecem o trabalho pedagógico e reafirmam o compromisso com uma educação interdisciplinar, contextualizada e socialmente comprometida. Ganha destaque, ainda, a relação estabelecida entre as escolas e as famílias, que fortalece o caráter integral da formação das crianças do campo e reafirma a educação como prática coletiva de cuidado, acolhida e pertencimento.
Para saber mais sobre a participação dos Clubes em Feiras científicas, acesse aqui o vídeo referente ao Clube de Ciências Pequenos Exploradores, na Mostra Científica do Litoral Norte Gaúcho (MOSCLING, 2024).
“Na verdade, a gente teria que usar Clube das Ciências e não Clube de Ciências. Porque é de todas as Ciências. Por isso que o trabalho interdisciplinar na Educação do Campo é importante. A gente não dá aula de Química, de Física, de Biologia, e sim de Ciências da Natureza. Além disso, a gente trabalha com docência compartilhada, com três professores dentro de cada área. A gente faz o planejamento coletivo. Então, tudo isso a gente também trabalha dentro do Clube.”
José Vicente Lima Robaina, professor idealizador do Projeto de Extensão Clubes de Ciências do Campo, da UFRGS

“A minha filha é autista e um dos maiores desafios dela é a questão alimentar. (…) Quando ela plantou alface, disse: ‘Ah, quando eu colher, acho que vou experimentar um pouquinho.’ (…) A professora Alice, no Clube, junto com a professora Su, conseguiu o que nem a terapia havia alcançado: fez com que a Joana perdesse o atraso e a sensibilidade nas mãos, participando de tudo. (…) Eu falo pra todas as mães: ‘Lugar de criança com alguma neurodiversidade é na escola pública.’ Realmente, é outro mundo aqui.”
Sandy Fagundes Ávila, mãe da estudante Joana Ávila, 4 anos, da Pré-escola 1ª da Escola Municipal de Educação Infantil Paulo Freire

Atividades do Clube de Ciências da EMEI Paulo Freire.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho
“Sobre meu filho, foi muito importante para ele a acolhida que as professoras fazem de manhã. Todo dia é uma turma que faz e tem a parte que eles pegam o microfone e falam para as pessoas, para os amigos, para os colegas e para as professoras. Aquilo, pra ele, foi muito bom, porque ele viu que era capaz de expôr o que pensa. É muito bom o aprendizado. (…)”
Rosini Romanzini, mãe da estudante Maria Célia Romanzini, da Pré-escola 2, e participante do Conselho Escolar da Escola Rui Barbosa
“Os Clubes de Ciências favorecem a agricultura, promovendo reflexões sobre a produção, o território e o pertencimento.”
Emerson Giacomelli, morador do Assentamento Capela e atual vereador de Nova Santa Rita

ACOMPANHAMENTO E REFLEXÃO CONTÍNUA:
TRABALHO COLABORATIVO, REGISTRO E COMUNICAÇÃO DA EXPERIÊNCIA
O monitoramento da experiência é contínuo e colaborativo, envolvendo visitas pedagógicas, reuniões com professoras(es), registros de práticas, produção de portfólios e encontros anuais de socialização. Esse acompanhamento é realizado em parceria com o programa de extensão da UFRGS, idealizado pelo professor José Vicente Lima Robaina, que realiza visitas quinzenais às escolas. Essa presença aproxima a universidade da realidade escolar, oferecendo suporte técnico, metodológico e atividades diversificadas desenvolvidas por estudantes bolsistas do programa, na universidade.
Os Clubes de Ciências tiveram grande importância na consolidação da Educação do Campo em Nova Santa Rita, assim como iniciativa crucial para a Política de Educação Integral do município. Tal integração fortalece a ideia de uma escola viva, aberta à comunidade e comprometida com uma formação plena, crítica e contextualizada.
Nos Clubes de Ciências, Ciência e território caminham juntos. Não se trata de “levar” Ciência para o campo, mas de reconhecer a Ciência que já floresce nele — seja nas mãos das(os) agricultoras(es), nas curiosidades das crianças ou nas práticas das(os) educadoras(es). Em Nova Santa Rita, o Clube de Ciências transformou a escola em um espaço que lê o mundo para transformá-lo, semeando autonomia e colhendo protagonismo. Afinal, a Ciência que nasce do chão é a que melhor ensina a voar.

PARA SEGUIR SEMEANDO:
HORIZONTES E DESAFIOS
Os Clubes de Ciências do Campo se tornaram referências no município, compondo o eixo da nova Política de Educação Integral e inspirando a criação de coletivos semelhantes em 23 cidades da região, formando uma rede articulada pela ciência do cotidiano. Após 10 anos de trajetória em Nova Santa Rita, essa experiência conquistou a vinda do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFRGS para o território, rompendo barreiras históricas de exclusão.
Essa caminhada impulsionou a formação continuada de docentes em mestrados e doutorados, qualificando as práticas pedagógicas e fortalecendo uma educação transformadora. A iniciativa gerou vasta produção científica, provando a potência da teoria que nasce da prática viva e reafirmando o valor da escola pública. Nesse âmbito, emergem novos temas, como a necessária articulação entre Educação Infantil e Educação do Campo.

Atividade do Clube de Ciências Pequenos Exploradores da EMEI Paulo Freire.
Foto: Ana Luiza Teixeira Carvalho
No campo brasileiro, há fecundos processos de reconstituição da função social da Escola Pública. Esses movimentos, enraizados no trabalho vivo da terra, confrontam o modelo do agronegócio, que fecha escolas e destrói vidas. Em Nova Santa Rita, pulsa uma dessas experiências, na qual a escola se reafirma como espaço de resistência, saber e pertencimento.
Ali, a Ciência brota da terra, habita o olhar das(os) professoras(es) e mora na pergunta das crianças, cultivando a esperança de um futuro com afeto e conhecimento junto às (aos) sujeitas(os) do campo. Esse saber se tece dentro das escolas e nos territórios que as acolhem, fazendo da educação um gesto de enraizamento e de resistência. Espera-se que a experiência de Nova Santa Rita inspire novas reflexões.
Para saber mais sobre a temática dos Clubes de Ciências na relação com a Educação Infantil do campo: Dissertação de Ana Paula Zanettin, orientada pela Professora Ana Paula Santos de Lima e o Professor José Vicente Lima Robaina: Clube de ciências: pioneirismo na educação infantil com práticas interdisciplinares e investigativas desde a primeira infância (UFRGS, 2025).
PREFEITURA MUNICIPAL DE NOVA SANTA RITA:
Instagram: www.instagram.com/prefnsr
YouTube: www.youtube.com/@PrefeituraNovaSantaRita
ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:
EMEI Paulo Freire: www.facebook.com/paulo.freire.92123015
EMEI Paulo Freire – Clube de Ciências Pequenos Exploradores: www.instagram.com/ccpeemeipaulofreire
EMEF Rui Barbosa: www.facebook.com/share/1CcdsFUyyY
EMEI Vó Edith: www.facebook.com/share/1FrRgaokHQ
PREFEITURA MUNICIPAL DE NOVA SANTA RITA:
Instagram: @prefnsr
YouTube: @PrefeituraNovaSantaRita
ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:
EMEI Paulo Freire: @emeipaulofreire2015
EMEI Paulo Freire – Clube de Ciências Pequenos Exploradores: @ccpeemeipaulofreire
EMEF Rui Barbosa: @EMEFRuiBarbosa
EMEI Vó Edith: @EMEIVoEdith
