Por Ana Paula Nogueira, Marta Azevedo Klumb Oliveira, Matheus Rodrigues Dutra Bernardo, Paulo Eugênio Rifane de Sousa e Silvia Maria Leite de Almeida

O ponto de partida é o componente curricular, mas o destino da intersetorialidade é a reconfiguração do território educativo e a consolidação de uma agenda de desenvolvimento coletivo.

Estudantes montam o aparelho para a realização do Kitesurf.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Esta é uma história que anseia ser contada. Ela nos fala sobre articular caminhos e sobre  encontros que transformam e que dão coragem não só para extrapolar o conhecido, mas para tocar o desconhecido. Trata-se de uma narrativa construída a partir de três experiências inspiradoras – duas Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI), no município de Cascavel (CE), e uma do município de Caucaia (CE) -, revelando que as maiores aprendizagens residem no diálogo ativo com o mundo. No Ceará, a intersetorialidade na Educação Integral inicia-se discretamente nos componentes eletivos, mas com a ambição de, em tempo breve, ressoar com força plena por todo o território educativo, atingindo a potência de transformação que a sociedade deseja e precisa. 

Em Cascavel, a intersetorialidade ganha vida por meio de uma eletiva (atividade curricular não-obrigatória, para aprofundar conhecimentos específicos) que toca o passado e constrói o futuro: a “Memória, Verdade e Justiça”, da EEMTI Marconi Coelho Reis. A relevância desta eletiva é inegável, pois responde prontamente a um momento político nacional e reafirma a escola como guardiã da democracia e do pensamento crítico. O município também oferece a eletiva “Jovem Empreendedor I e II”, da EEMTI Custódio da Silva Lemos. Esta última, desenvolvida em parceria com a organização Junior Achievement (CE), desafia a uma visão crítica sobre os limites e as possibilidades de parcerias com agentes organizacionais internacionais.

Já em Caucaia, a EEMTI Maria Zenóbia Rodrigues Braga oferta, em parceria com a organização não-governamental Kitesurf Integra, as eletivas de mesmo nome: Kitesurf Integra I e II. A oferta dessa eletiva é parte intrínseca da identidade e da economia da famosa Praia do Cumbuco, o que demonstra a conexão da escola com a vocação do seu território.

Conheça aqui o Catálogo de Componentes Curriculares Eletivos da Seduc (CE).

Roda de conversa com estudantes, gestoras(es) e docentes da EEMTI Custódio da Silva Lemos.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

DA ESCOLA AO MAR:

INTEGRANDO SABERES NA INTERSETORIALIDADE

Em tupi-guarani, a palavra Cumbuco significa “onda longa e baixa” e deu nome a uma fazenda com uma vila de pescadores dentro, que ficou conhecida como a Vila de Pescadores de Cumbuco, mencionada pela primeira vez no ano de 1872. 

Atualmente, a região conhecida como Praia do Cumbuco, em Caucaia, está muito mais desenvolvida e populosa, tendo se tornado um dos destinos turísticos mais procurados do Ceará e um dos lugares preferidos pelas(os) praticantes de kitesurf e windsurf, devido ao seu mar calmo e aos ventos abundantes, favoráveis à prática dessas modalidades esportivas.

E é nesse lugar que está a Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Maria Zenóbia Rodrigues Braga. Situada na Praia do Cumbuco, a escola fica a duas quadras do mar e funciona em um prédio inaugurado em 2023, com arquitetura que privilegia cercas em vez de muros e blocos com salas de aulas e ambientes de aprendizagem fisicamente independente uns dos outros, o que faz do lugar um espaço agradável para circular e conviver. 

No mesmo ano de 2023, junto do prédio novo, a escola começa seu processo de integralização e a comunidade, com isso, passa por uma questão até então não vivenciada: é que boa parte das(os) estudantes frequentavam aulas de kitesurf, ofertadas por uma organização não-governamental. Ou seja, se o tempo escolar não seria mais de meio período, como conciliar os estudos com a prática esportiva?

Foi então, por demanda da comunidade discente, integrada com seu território, que a gestão da EEMTI Maria Zenóbia Rodrigues Braga reconheceu que a escola não só estava numa avenida que faz menção às dunas e em um bairro de praia, mas que suas(seus) estudantes tinham (e têm) uma relação de pertença com o local, seus verdes mares e ventos abundantes, assim como com o kitesurf. A partir dessa percepção, a escola procurou os responsáveis pelo Projeto Kitesurf Integra, propôs uma parceria e, em seguida, apresentou à Secretaria Estadual da Educação duas ementas para que a atividade pudesse ser ofertada como componente eletivo na matriz curricular da escola.  

Estudante praticando o Kitesurf.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Nessa parceria intersetorial, hoje o Projeto Kitesurf Integra é financiado por meio da Lei de Incentivo ao Esporte do Estado do Ceará, com patrocínio de uma empresa, e as duas ementas apresentadas à Seduc foram oficialmente inseridas no Catálogo de Componentes Curriculares Eletivos da Rede Estadual de Educação e disponibilizadas no Sistema Integrado de Gestão Escolar (SIGE) para que a escola consiga registrar enturmação das(os) estudantes, lançamento de notas e de frequência das aulas do kitesurf, dando ofício e legitimidade aos dois componentes curriculares.

Essas duas ementas mencionadas dão origem aos componentes Kitesurf Integra I, que trabalha com as(os) estudantes a parte teórica do esporte: física, segurança, técnicas e habilidades para a prática de kitesurf, meteorologia e ventos, materiais e equipamentos, história e cultura do kitesurf; e Kitesurf Integra II, que é a parte prática, momento de contato direto com o mar e no qual também estudam sobre ética e responsabilidade ambiental, educação física e condicionamento e métodos de ensino e segurança para crianças e jovens.

Inclusive, muitos dos conteúdos estudados nas aulas de Física, Geografia, Matemática e Educação Física, por exemplo, são vivenciados de forma prática e real nos estudos e na prática do kitesurf.

É como lembra esse trecho do Hino do Estado 

(Ceará, 1903):

 

(…)
Vento feliz conduza a vela ousada

Que importa que teu barco seja um nada, 

Na vastidão do oceano 

Se à proa vão heróis e marinheiros 

E vão no peito corações guerreiros?

(…)

As(os) estudantes da EEMTI Maria Zenóbia Rodrigues Braga, do Cumbuco, que diante da iminência de terem que abandonar o mar, o vento e a liberdade de kitesurfar para apenas se enclausurar o dia inteiro numa sala de aula, agiram com seus corações guerreiros e conseguiram incluir no currículo escolar seu kite, seu mar e seu vento feliz.

 

 

 

A INTEGRAÇÃO ENTRE A ESCOLA E O SONHO

A relação da escola com o território e com o kitesurf atraiu um jovem campeão. Para Pedro Alexandre Morais dos Reis, estudante do 1o ano do Ensino Médio, não fosse pela integração da escola com essa modalidade esportiva, que já é cultura de sua família, pois seu pai e mãe são instrutores de kitesurf, não seria possível conciliar os estudos com o talento e com o sonho. Graças ao registro formal do kitesurf como componente curricular, Pedro pode ter registradas as horas que precisa se ausentar da escola para treinar ou competir. Ele, neste ano de 2025, conquistou o título de campeão mundial na categoria Sub-16 Freestyle do Campeonato Mundial Juvenil de Kitesurf (Youth Worlds), disputado em Tarifa, na Espanha.

“Encontro pessoas na rua ou no Instagram que falam que se inspiram em mim. É uma coisa que eu vejo que, se não fosse minha família, há um tempo atrás, meu primo, meu irmão, todos que estavam ali por dentro, eu não poderia ver o mundo da forma como vejo hoje, sendo campeão mundial de kitesurf.”

Pedro Alexandre Morais dos Reis, estudante do 1º ano do Ensino Médio da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Maria Zenóbia Rodrigues Braga

“Uma coisa muito bonita foi quando ele recebeu a medalha, o troféu. Assim que chegou no Cumbuco, ele veio aqui na escola, no outro dia, com a medalha, foi na sala dele, apresentou pra todo mundo, foi com os professores, tirou foto, postou.”

 

Ana Maria Furtado Néo, gestora da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Maria Zenóbia Rodrigues Braga

As eletivas de Kitesurf na EEMTI Maria Zenóbia Rodrigues Braga demonstram como a relação com o território e a intersetorialidade são fundamentos importantes da Educação Integral em Tempo Integral. A Seduc (CE) prontamente soube reconhecer e formalizar isso quando foi demandada, de forma a possibilitar a parceria, a oferta e o registro como componente curricular. E a escola, hoje, faz jus à praia onde está situada, uma antiga vila de pescadores que nunca deixou sua essência e sua vocação: o mar, os ventos e sua gente.

Gestora Ana Maria Furtado Néo, da EEMTI Maria Zenóbia Rodrigues Braga, com Carlos Mário (conhecido como BB) e o estudante Pedro Reis, ambos campeões mundiais de Kitesurf.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

A RESSIGNIFICAÇÃO DO EMPREENDEDORISMO PELA ESCOLA:

OPORTUNIDADES CONECTADAS AO TERRITÓRIO

No distrito de Guanacés, em Cascavel (CE), município da Região Metropolitana a cerca de 70 quilômetros de Fortaleza, onde a vulnerabilidade social poderia ditar o destino de muitas(os) estudantes, a EEMTI Custódio da Silva Lemos se ergue como uma “corda dentro de um buraco”, isto é, um instrumento essencial para que suas(seus) jovens se agarrem e mudem a realidade de suas vidas. Assim se pronuncia Ricardo Diniz, diretor da escola, ao contar a história da Escola de Tempo Integral no município. 

“(…) é real, a gente não faz apenas por fazer, a gente faz para acontecer.”

 

Aldemir Rosa da Silva Filho, professor do Laboratório Educacional de Informática [LEI]

A Escola de Tempo Integral é vista, pelas(os) professoras(es), como uma reparação histórica, uma dívida de espaço educativo que o país, finalmente, começa a saldar. Em um território marcado por vulnerabilidades estruturais herdadas do colonialismo das relações, a EEMTI se torna o território de afeto e resistência que reafirma a vida das(os) estudantes. A escola promove projetos nos quais  o saber, o acolhimento e o protagonismo estudantil são forças que surgem contra a violência. 

O território onde a escola está situada, antes chamado de Bananeiras, foi renomeado em 1943 para Guanacés, termo que homenageia os povos indígenas que habitaram a região. A localidade conta, hoje, com uma população que tem como principal atividade econômica a agricultura, especialmente a de subsistência, com destaque para o cultivo da banana e do milho. O distrito também se beneficia do turismo, em especial o de lazer e o de eventos, que impulsiona o comércio local, a hotelaria e os serviços, principalmente em períodos de festividades, como a festa de Nossa Senhora da Conceição e o Festival da Sardinha. 

Toda essa caracterização econômica do território exerce forte influência na visão que as famílias, principalmente os pais, têm sobre a educação e o papel da escola. É muito comum a procura pela Escola de Tempo Integral, no início do ano letivo, em busca de uma Escola de Educação Profissional, dado o anseio das famílias para que suas(seus) filhas(os) recebam uma educação que lhes proporcione inserção no mercado de trabalho ou conhecimento para exercerem, futuramente, em melhores condições, as atividades econômicas já realizadas por sua família no território.

 

Nesse contexto, surge a parceria intersetorial com a Junior Achievement (JA), uma organização norte-americana focada em educação prática de economia, empreendedorismo e negócios, que possibilita a oferta do componente curricular eletivo “Jovem Empreendedor I e II”. Fundada em 1919, a JA atua no Brasil há décadas e tem a missão de “inspirar e preparar jovens para terem sucesso em uma economia globalizada.” 

Equipe de pesquisadoras(es) com estudantes, professoras(es) e gestoras(es) da EEMTI Custódio da Silva Lemos.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

“Aqui na escola, a gente aprende muita coisa. Foi muito difícil, no começo, para me acostumar, porque eu nunca estudei em tempo integral. A escola que eu estudei foi sempre meio período. Foi difícil socializar com a turma, porque na minha sala só tinham três pessoas que eu conhecia. Agora a gente está no final do ano e vai acabar a experiência do ensino integral.”

Francisca Adrielly da Silva, estudante do 3o ano da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Custódio da Silva Lemos

Vale destacar que a escola pública está muito atenta a essa missão, uma vez que interessa a ela a revalorização de saberes locais e a construção de economias justas e soberanas no Sul Global, muito mais do que o “sucesso global”, honrando seu compromisso constitucional de superação das desigualdades educacionais com foco na equidade. A viabilidade e o valor dessa parceria residem na ressignificação do empreendedorismo dentro do currículo escolar, alinhando a técnica da JA ao projeto ético-político da EEMTI.

Uma parceria não define o currículo escolar, e sim o complementa. Além disso, mobiliza a escola, enquanto detentora de seu projeto pedagógico, para a orientação pedagógica de professoras(es) da eletiva Jovem Empreendedor I e II, para que esse componente não se configure como uma preparação para o mercado de trabalho ou uma adesão acrítica ao neoliberalismo. Pelo contrário, é fundamental, no entendimento da escola, que as eletivas ofereçam “capital do saber” (ferramentas de gestão, finanças e protagonismo) para que jovens estudantes, posicionadas(os) à margem das oportunidades, possam reverter essa lógica e construir formas de produção, baseadas na autonomia, na justiça e na reciprocidade.

Nas eletivas “Jovem Empreendedor” as(os) estudantes aprendem a escrever o seu currículo, a se posicionar em entrevistas e, de forma prática, a conceber, gerenciar e vender produtos sustentáveis. Para elas(es), a inspiração é “conteúdo novo”, que estimula a superação. A EEMTI Custódio da Silva Lemos, que hoje coloca estudantes em cursos de excelência como Mecânica na Universidade Federal do Ceará (UFC), incentiva suas(seus) estudantes a superar vulnerabilidades e a sonhar alto. Em Cascavel, a Educação Integral é a corda que puxa a comunidade para um futuro de possibilidades.

Por meio dessa atenção contínua e da afirmação de seu compromisso constitucional de equidade e superação de desigualdades, a escola garante que a experiência de Tempo Integral permaneça inclusiva, equitativa e solidamente ancorada nos fundamentos ético-políticos da educação pública brasileira. Em Cascavel, a Educação Integral é a corda que puxa a comunidade, mas exige que a escola guie firmemente essa ascensão.

Horário de saída das(os) estudantes da EEMTI Custódio da Silva Lemos.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA: COMPONENTE CURRICULAR A FAVOR DA CIDADANIA ATIVA

O ponto de partida é um gesto de coragem. A eletiva “Memória, Verdade e Justiça” (MJV) não é fruto do acaso, mas de um pacto pela memória, forjado na urgência de um tempo que parecia esquecer suas lições mais duras. A Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc), a Coordenadoria da Educação em Tempo Integral (COETI), a Coordenadoria de Direitos Humanos, Inclusão e Acessibilidade (COEDH) e o Comitê da Memória, Verdade e Justiça do Ceará uniram-se para elaborá-la e ofertá-la, transformando a EEMTI Marconi Coelho Reis em uma  agente de intervenção na realidade.

Assim, a Escola em Tempo Integral não só se conecta à vida e a seus acontecimentos mas, para além disso, toma para si a responsabilidade de intervir na realidade, assumindo um compromisso ativo com a memória e a transformação social. Em 2023, o país assistiu, com espanto, aos atos de 8 de janeiro, um dos maiores ataques diretos à democracia brasileira em sua história recente. O ano foi marcado pelo eco dos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e Golpe de Estado, dentre outros. Essa realidade reativou o sofrimento vivenciado por toda uma geração que viveu os tempos da ditadura civil-militar (1964-1985).

A Rede de Educação cearense, movida por profunda responsabilidade pedagógica, viu a inquietação se converter em inspiração. No centro desse processo, está a professora Lorena Coelho Lacerda que, a partir da sua sensibilidade e visão, possibilitou a criação de um espaço que se converteu em estudo, reflexão crítica e, sobretudo, sensibilização. Assim, a educadora, admirada pelas(os) estudantes, transforma a sala de aula em um espaço no qual a história não é apenas lida, mas debatida e processada e democracia não é apenas um conceito, mas uma prática. É aqui que reside o segredo do engajamento das(os) estudantes: a conexão afetiva e o respeito. O envolvimento das(os) jovens é impulsionado não apenas pelo tema, mas pela inspiração das pessoas.

Equipe de pesquisadoras(es) com estudantes, professoras(es) e gestoras(es) da EEMTI Marconi Coelho Reis.
Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Essa eletiva é um ato de visibilidade. Ela se propõe a rasgar o véu do silêncio que, por anos, inviabilizou a história para uma geração de estudantes. É para aquelas(es) jovens, que não tinham o conhecimento sobre os tempos difíceis, as violações, os direitos ceifados durante a ditadura civil-militar de 1964, que essa porta se abriu. É a educação dizendo: “Não se esqueçam!” É a Escola de Tempo Integral vibrante, assumindo sua responsabilidade de ser crítica da história, da verdade, de transformar o sofrimento de muitas(os) do passado em sabedoria de outras(os) no futuro.

“Eu conheci a eletiva de Memória, Verdade e Justiça por causa do meu amigo Marley. Ele escolheu e eu falei assim: ´Por que não tentar?´. Aí eu entrei. Já nos primeiros dias, eu adorei. Eu gosto muito. A Lorena deixa a gente testar nossas opiniões, o que é muito bom, pois podemos criar uma opinião pro rumo político, e não só pra isso. Uma das coisas que eu acho muito importante é saber o que aconteceu antes, durante e depois de uma guerra, como a Guerra Fria, por exemplo. Eu acho isso muito importante.” 

 

Anna Lethycia Oliveira Nunes, estudante do 2º ano do Ensino Médio da EEMTI Marconi Coelho Reis

A eletiva prevê a visita das(os) estudantes ao Memorial da Resistência, em Fortaleza. Trata-se de um espaço de memória, com relevância histórica e política, diretamente ligado à repressão da ditadura civil-militar, de 1964 a 1984, no Ceará. Hoje, o local abriga a Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza, mas já foi a antiga sede da  Polícia Federal em Fortaleza, durante o período da ditadura e serviu como um dos destinos de presas(os) políticas(os). Há visitação aberta para duas antigas celas e uma solitária usadas para encarceramento e interrogatório, o que proporciona uma experiência imersiva e tátil para as(os) estudantes sobre o que foi a repressão. O objetivo do Memorial é ser um espaço de resistência à ditadura, contextualizando as lutas travadas no Ceará, as memórias das(os) cearenses que lutaram contra a repressão política e mantendo ativo o debate sobre a democracia e os direitos humanos.

O estudo da ditadura no componente “Memória, Verdade e Justiça” assume uma relevância ainda maior no Ceará, devido à intensidade da repressão política no Nordeste e às figuras emblemáticas que aqui nasceram ou lutaram. O nome que ecoa é o de Frei Tito de Alencar Lima. Nascido em Fortaleza, Frei Tito se tornou um símbolo da resistência e mártir da ditadura, torturado até o limite de sua existência. A visita das(os) estudantes à Casa de Frei Tito é uma imersão na dor e na resiliência, onde se pode sentir o peso da verdade. Eles caminham pelos mesmos corredores por onde passaram aqueles que tiveram seus direitos roubados.

 

  • A história de Frei Tito pode ser conhecida no Documentário Frei Tito 1983 #ComCausa. Clique aqui!

A ditadura é o braço forte que tenta impor o silêncio e o esquecimento. Mas o Ceará, terra de resistência, de cordel e de poesia, se recusa.

A minha pena escreve

e deixa bem registrado

 no presente, o passado,

 o que foi longo e não breve;

 opressão, luta e greve;

 pois o delicado tema 

encontra na morte, o lema,

 com facínoras cruéis, 

e na troca dos papéis 

prendo-os sob a minha pena.
(Victtor, 2005, p. 1)  

Essa vivência crítica da história, permeada por debates sobre a Constituição Federal de 1988 e as leis, o contexto do autoritarismo, perseguições e violações de direitos humanos visa a desenvolver a consciência das(os) estudantes sobre os processos que resultaram em golpes militares e ditaduras na América Latina, com foco na ditadura civil-militar de 1964 a 1984, no Brasil, e a consequente jornada dos movimentos sociais na construção da democracia e implementação de políticas de memória e reparação histórica.

A narrativa da “Memória, Verdade e Justiça” se conecta a outra discussão presente na EEMTI Marconi Coelho Reis, que é a equidade racial. Tanto é que a instituição recebeu o Selo Escola Antirracista, uma iniciativa lançada pela Seduc, em 2023.

 

O racismo é a própria estrutura que sustenta o colonialismo e, por extensão, um fator importante para toda e qualquer ditadura. Ao enfrentá-lo na escola, as(os) estudantes não apenas promovem e valorizam a diversidade, mas desmantelam a lógica de superioridade e dominação que permitiu a violência do Estado no passado.

 

Se a ditadura é a violência política, o racismo é a violência social e histórica que tenta apagar identidades e vozes. A escola, ao valorizar ativamente a cultura étnico-racial, garante que o ambiente seja inclusivo e representativo.

“Eu sempre coloco em minhas falas que os projetos e a pesquisa científica são os grandes diferenciais da escola integral. As eletivas inspiram sonhos, mudanças de comportamento para saber o que acontece no passado e não cometer os mesmos erros.” 

 

Iara Valente, diretora da EEMTI Marconi Coelho Reis

Ao engajar a Seduc (CE), a Coordenadoria de Direitos Humanos e o Comitê da Memória, o Ceará tece uma teia de saberes no qual a ética do reconhecimento se constrói pela educação plena, integral, intersetorial e profundamente conectada à vida. Este é o ponto onde o currículo se torna um instrumento de justiça social e ganha estatura para se expandir para além da escola. É a partir daqui que se projeta a intersetorialidade por todo o território educativo, transformando a escola de Ensino Médio Integral em um território de cidadania, por meio de parcerias com outros agentes públicos.






As três experiências cearenses reforçam que a intersetorialidade na Educação Integral é, em si, uma inspiração e um desafio. Elas demonstram que a verdadeira transformação acontece quando a escola se expande para criar conexões orgânicas entre o currículo e a realidade social, cultural e política do território, assumindo seu papel como grande articuladora na garantia dos direitos e na construção de uma sociedade mais justa e equitativa para as(os) estudantes, a partir do território.

 

 

 

REFERÊNCIAS

CEARÁ. Hino do Estado do Ceará. Música: Alberto Nepomuceno. Letra: Thomaz Lopes. 1903.


M.F. PRODUÇÕES ARTÍSTICAS. FREI TITO. Produção: A. Andrea Ippolito. Produção Executiva: Marlene França. Youtube, 1983. 16 min. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IFB630-4B7Q . Acesso em: 29 out. 2025.


SENA, Carolina. Cumbuco: conheça esse destino de praias paradisíacas e belezas naturais. [S.l.: s.n.], 2020. Disponível em: https://blog.ecoadventure.tur.br/

cumbuco/. Acesso em: 24 out. 2025.


VICTTOR, J. O golpe: 1964 a 1985. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Literatura de Cordel, 2005

SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DO CEARÁ: 

Site: www.seduc.ce.gov.br
Instagram: @seduc_ceara 

 

 

ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:

 

• EEMTI Maria Zenóbia Rodrigues Braga

Instagram: @eemtimariazenobia

 

• EEMTI Custódio da Silva Lemos

Instagram: @custodiodasilvalemos

 

EEMTI Marconi Coelho Reis: Instagram: @eemtimarconicoelho

SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DO CEARÁ: 

Site: www.seduc.ce.gov.br
Instagram: www.instagram.com/seduc_ceara 

 

ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:

EEMTI Maria Zenóbia Rodrigues Braga: www.instagram.com/eemtimariazenobia

EEMTI Custódio da Silva Lemos: www.instagram.com/custodiodasilvalemos

EEMTI Marconi Coelho Reis: www.instagram.com/eemtimarconicoelho