Por Ana Cláudia J. Cerqueira, Ana Vitória Cardoso, Bárbara Nascimento, Bárbara Ramalho e Talita Oliveira

Educação Integral em Tempo Integral que se desenvolve a partir dos valores da intersetorialidade e da participação.

Estudantes em atividade no Centro Educativo de Múltiplas Aprendizagens de Santa Inês (CEMASI).

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Na região do Jiquiriçá, as montanhas de tirar o fôlego lembram que ali é vale. As muitas e belas flores espalhadas pelos canteiros da cidade, por outro lado, brincam com o pensamento e quase  fazem esquecer que “O sertão é dentro da gente”, como disse Guimarães Rosa. 

Na Secretaria de Educação, a poucos minutos do Centro – e provavelmente de todos os cantos da pequena cidade –, de novo é possível encontrar flores, mas também gente e, surpresa, “Abraços grátis”, performance responsável por receber visitas e uma enorme equipe de educadoras(es) que “vestem a camisa” da educação, inclusive literalmente. “Santa Inês: a cidade dos dinossauros” informa o uniforme das trabalhadoras e trabalhadores de todos os cantos do município. Além de dinossauros, flores, vales, gentes e abraços (grátis!), aquela localidade tornou-se também um recinto da educação orientada por uma gestão territorializada, pelo fazer intersetorial e, sobretudo, pelo cuidado com as pessoas. 

Entrada do município de Santa Inês, a cidade dos dinossauros.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Museu dos Dinossauros, no Centro de Culturas de Santa Inês.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Santa Inês revela-se, logo à primeira vista, cercada por montanhas e pelo encontro do verde da mata com o vermelho da terra. Parte inconfundível do Vale do Jiquiriçá, na Bahia, trata-se de uma cidade pequena em número (10.300 habitantes), mas imensa pela força de quem a habita. Desde 2017, Santa Inês tornou-se também a cidade dos dinossauros – uma ideia que uniu Turismo, Arte e identidade local. 

As esculturas criadas pelo artista Anilson Borges transformaram a cidade em um museu a céu aberto, símbolo de pertencimento e orgulho, fazendo com que, mais do que uma estratégia turística, os dinossauros se tornassem parte da paisagem afetiva e do sentimento coletivo de cuidado com o que é público e comunitário.

 

Essa transformação estética e simbólica espelha uma mudança mais profunda: a passagem de um território marcado pelo coronelismo para uma comunidade movida pela educação e pela emancipação cidadã. A nova Santa Inês, dessa forma, nasce de um projeto coletivo – um pacto entre escola, gestão e população – que aposta na consciência crítica e na continuidade das conquistas.

“A questão do dinossauro é uma sacada turística, mas, ao mesmo tempo, é a valorização de um artista local, Nilson Rojas, que fabrica réplicas de dinossauros para o Brasil e para o exterior. (…) Com a chegada dos dinossauros, houve também impacto no respeito pelo patrimônio público pela população.”

 Reuben Marinho Alves, Secretário de Turismo, Esporte e Cultura

Mais de 200 educadoras(es) e equipes multidisciplinares – psicólogas(os), assistentes sociais, médica(o), neuropsicopedagoga(o) e atendentes de classe – tecem o cotidiano escolar. A cidade inteira torna-se sala de aula: cozinha, horta e apiário comunitários, centro de esportes aquáticos, academia pública, policlínica, banheiro público e Serviço de Atendimento à(ao) Cidadã(ão) compõem a rede viva de espaços educativos.

Nesse contexto de (re)existência cultural, o Museu de Arte, Ciência e Cultura de Santa Inês (MUSINÊS) abriga quatro núcleos – o Memorial do Povo, o Museu dos Dinossauros/Núcleo Paleontológico, o Núcleo Histórico Ferroviário e o Núcleo Histórico Indígena –, guardando a memória, a ciência e a arte que formam a identidade santinense.

“A gente sempre fala para os nossos estudantes e os nossos pais que a gente não pode aceitar menos do que a gente tem. Então, é a mudança de mentalidade. Se a gente conseguir fazer com que a comunidade escolar reivindique, a cada dia, o melhor para eles e para os filhos, as próximas gestões vão ser obrigadas a fazer. Porque vai ser um anseio, um desejo de todos. Não vai ser possível dizer ‘eu não vou fazer’. Então, o nosso intuito é essa mudança de mentalidade, para que isso aconteça e para que a gente não volte ao passado. Independente de quem entre, que dê continuidade.”

 

Fabiana de Almeida Menezes, diretora do Colégio de Educação Integral Cacilda da Silva Neves

 

Desde 2017, a cidade desenvolve a sua Política Municipal de Educação Integral em Tempo Integral, que se consolida com sua normatização, no ano de 2023, por meio da Lei nº 664 (Santa Inês, 2023), em consonância com a Portaria do MEC nº 2.036 (Brasil, 2023). O currículo, inspirado na Educação Integral em Tempo Integral e alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), faz da escola, da comunidade e dos espaços culturais um único território de aprendizagem e emancipação.

 

As(os) interlocutoras(es) não se deixam esquecer por um segundo sequer dessa imagem de um espaço-tempo; trata-se, na verdade, de parte de um “filme” cujo início remonta a mais de oito anos e cuja construção ocorreu a muitos braços.

Em Santa Inês, a educação se entrelaça à vida cotidiana: a rede municipal conta com três escolas de Educação Infantil (362 alunas[os]), três de Ensino Fundamental – Anos Iniciais (582 alunas[os]) e duas de Anos Finais (471 alunas[os]) –, além de duas unidades de Educação do Campo (92 alunos). Dessas dez unidades escolares, uma oferece Educação de Jovens e Adultas(os) (740 alunas[os]) e quatro possuem Atendimento Educacional Especializado (300 alunas[os]).

Fachada da Secretaria Municipal de Educação de Santa Inês.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

LEVOU TEMPO

A transformação, vista atualmente na cidade, é resultado de importantes escolhas feitas ao longo do tempo, principalmente os novos rumos dados pela gestão municipal, ao longo do mandato do professor Emerson Novais Eloi, como Prefeito de 2017 a 2024. Dentre essas mudanças, destacam-se a reforma e a ampliação dos equipamentos públicos já existentes, a construção de praças, jardins, escolas, museus, além de investimento na economia do campo, valorização e reconhecimento da cultura do território e a centralidade conferida à educação como eixo da política do município.

Esse horizonte de atuação acompanha a nova gestão, com o Prefeito Sandro Silva e seu Vice-Prefeito, Erivaldo Santana de Souza. 

Para conhecer a concepção orientadora dessa gestão, acesse aqui a gravação da mesa  “Financiamento sustentável e infraestrutura: como viabilizar e manter a política de Educação Integral em Tempo Integral”, do III Seminário de Educação Integral, realizado em 2024, em Brasília (DF).

“O legado que ele (professor Emerson) deixou não acaba nunca. Parece que ele mudou tanto a vida das pessoas que, hoje em dia, os moradores e as crianças têm esse cuidado com a escola. Teve uma mudança no jeito de ser mesmo.”

Aurélio Ferreira Carvalho, agricultor e morador do Assentamento Agrovila Marisa Lula

“O professor Emerson nos ensinou: ‘Quando a gente consegue educar bons seres humanos, a gente, naturalmente, vai conseguir ter bons estudantes’. O contrário talvez não seja verdade, mas nessa linha a gente consegue.”

Camila Satéro, diretora pedagógica da Educação Infantil

“O Emerson teve essa visão e o Sandro, que também é professor, está dando continuidade a esse belíssimo trabalho, com muita responsabilidade.”

Valdivan Braga, gestor da Educação do Campo

Portanto, as transformações não foram e nem têm sido imediatas. Como destacado por Zilma Bandeira Melhor, gestora do Instituto de Educação Maria das Graças: “Levou tempo. Foi um processo também. É construção. E ainda estamos nesse processo.”

 

No ano de 2022, o município começou a oferecer aulas no período contraturno, mas não enquanto uma proposta de escola de Educação Integral de Tempo Integral. Tratavam-se de atividades extracurriculares, como aula de karatê, teatro, música e dança, com adesões opcionais por parte das(os) estudantes. Além disso, as escolas de Educação Infantil também já funcionavam em tempo integral, mas não na perspectiva da Educação Integral. Apenas em 2023, foi instituída a primeira escola piloto de Educação Integral de Tempo Integral: o Instituto de Educação de Santa Inês. Esse processo enfrentou desafios quanto à sua implementação e adesão, tanto por parte de estudantes e famílias, quanto por parte das(os) agentes da educação. 

Sala de Atendimento Educacional Especializado (AEE) no Colégio de Educação Integral Cacilda da Silva Neves.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

Nesse processo, o diálogo aberto foi fundamental para que a proposta obtivesse êxito, com a escuta das(os) estudantes, das famílias, das(os) professoras(es) e de outras(os) agentes da comunidade escolar. Foram pensadas e planejadas, coletivamente, estratégias pedagógicas que exigiam uma outra concepção de educação, concepção essa que demandava conceber uma escola para além de seus muros e uma nova proposta curricular, abarcando a Cultura, o Esporte, além de outros espaços e possibilidades educativas. Para isso, também foi necessário repensar uma outra concepção de estudantes, compreendendo-as(os) enquanto sujeitas(os) integrais.

A concepção de educação projetada foi uma educação para além do tempo integral, mas de formação cidadã e humana integral, que precisou ser feita na escola e para além dela, o que implicou em pensar mudanças na própria cidade. Foram iniciadas, então,  a construção e a reforma de diversos espaços de Arte, Cultura, Esporte e Lazer, cujo projeto arquitetônico dialoga com as demandas da comunidade, como é o caso do Centro de Natação, inaugurado em 2025. 

Da cidade ao campo, a Escola Municipal Judite Lima da Hora, do distrito de Bela Mira, também revela sua boniteza, inclusive em forma de cordel. Também descortina aspectos das mudanças engendradas a partir de 2017, que englobam a construção da escola que antes não existia – de modo que as(os) estudantes precisavam ir para a cidade e para outros distritos a fim de estudar -, a construção de uma cooperativa e o aporte financeiro para incentivo da agricultura, área na qual atua a maior parte das famílias das(os) estudantes. 

“O primeiro ano de Educação Integral não foi fácil, mesmo sendo em uma escola só. Mas deu certo! E a gente soube disso quando chegou no ano de 2024 e viu que, todo aquele esforço de 2023, dentro do Instituto, valeu a pena!”

Camila Satéro, diretora pedagógica da Educação Infantil

“Tudo melhorou, e não só do ponto de vista da escola, mas também da ecologia, das pessoas! (…) Você vê que melhorou: felicidade, educação, saúde, muita oportunidade de trabalho.”

Ana Cláudia Jesus Cerqueira Peixoto, diretora pedagógica do Ensino Fundamental – Anos Iniciais e Educação do Campo

A escola, com turmas multisseriadas, atende da Educação Infantil ao Ensino Fundamental I. Os efeitos da mudança são observados nos testemunhos das crianças que dizem gostar da comida, em especial do café da manhã, das aulas e das brincadeiras. Entre as ações articuladas ao longo dos anos para tornar o “sonho realidade”, tarefa nada simples, a forma da gestão se destaca, configurando-se como uma inspiração. 

Aula de judô com estudantes do Colégio de Educação Integral Cacilda da Silva Neves.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

A escola, com turmas multisseriadas, atende da Educação Infantil ao Ensino Fundamental I. Os efeitos da mudança são observados nos testemunhos das crianças que dizem gostar da comida, em especial do café da manhã, das aulas e das brincadeiras. Entre as ações articuladas ao longo dos anos para tornar o “sonho realidade”, tarefa nada simples, a forma da gestão se destaca, configurando-se como uma inspiração. 

Aula de judô com estudantes do Colégio de Educação Integral Cacilda da Silva Neves.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

DE MÃOS DADAS A GENTE CONSEGUE AVANÇAR

Em Santa Inês, a gestão municipal concretiza, de fato, a compreensão de que educação se faz no plural e, portanto, com múltiplos saberes, lugares, recursos e intersetorialidade. Assim, o trabalho é realizado de forma articulada, colaborativa e dialógica e, portanto, intersetorial.

“A gente tem uma parceria com todas as secretarias e não tem dificuldade. A gente entra e sai em qualquer secretaria, uma ajudando a outra. Acho que isso é o segredo: não são secretarias isoladas!”

 

Valdivan Braga, gestor da Educação do Campo

Há múltiplas razões para a adesão a essa forma de trabalho. A mais imediata diz respeito ao próprio volume e à complexidade das ações de cada uma das pastas que, não raro, compartilham as(os) sujeitas(os) públicos-alvo de suas políticas. Portanto, a atuação coordenada e colaborativa se destaca não apenas como um caminho viável, mas como prática promissora. 

O deslocamento de serviços da Secretaria de Saúde – atendimento psicológico e odontológico; da Secretaria de Assistência Social – realização de grupos de convivência; e da Secretaria de Desenvolvimento Social para o interior das escolas ilustra a articulação de esforços para o atendimento da população. Isso parece ter sido potencializado pela ampliação do tempo de permanência das(os) estudantes na escola. 

A ação intersetorial tem se consolidado como uma estratégia de fortalecimento das diferentes secretarias e, em última instância, da economia municipal. Um exemplo é a articulação entre as Secretarias de Educação e Agricultura, que resultou na elaboração de cardápios para a alimentação escolar em conformidade com as normas específicas e alinhados à produção local. Esse trabalho conjunto, aliado ao incentivo para que as(os) agricultoras(es) se inscrevessem no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), impulsionou o desenvolvimento da agricultura em Santa Inês, especialmente com a ampliação da Educação Integral em Tempo Integral, que elevou a demanda por insumos destinados à alimentação escolar.

“A gente acreditava que poderia pensar juntos porque Esporte, Cultura, Arquitetura e Turismo têm que ter a Educação como principal parceiro. Mas a Educação também não consegue pensar somente a Educação, que já é um trabalho muito grande: tem que pensar junto com Cultura, com Esportes, com Turismo…”

Reuben Marinho Alves, Secretário de Turismo, Esporte e Cultura

“Nós temos  o Grupo de Fortalecimento de Vítimas, da Secretaria de Desenvolvimento Social. (…) Era para esse serviço ser feito no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). Porém, com o ensino integral a gente pega esses grupos e leva para a sala de aula. (…) O grupo é destinado para aquelas pessoas atendidas pelo CRAS mas, lá na escola, acaba acolhendo outras que também precisam desse olhar e acompanhamento.”

Keila Maria de Jesus Lima, Secretária de Desenvolvimento Social

Ao longo dos anos, a interlocução entre as Secretarias de Educação e de Cultura também tem se mostrado promissora. Se a ampliação de museus e eventos expande o acesso das(os) estudantes à cultura, à arte e ao lazer, ela também fomenta o turismo na cidade, que passa a atender moradoras(es) e estudantes de municípios vizinhos, aumentando, assim, a arrecadação de recursos pela cidade. 

“Com o passar dos anos, fomos estruturando a Agricultura, junto com o pessoal da Nutrição, que dá um suporte gigantesco para a criação de um cardápio diferenciado e baseado, justamente, nos produtos cultivados aqui no município. Então, a gente sai com zero reais lá do edital do PNAE do município e hoje chega a mais de 700 mil vinculados ao PNAE da Educação Integral.”

 

Jailson Costa da Silva, Secretário de Desenvolvimento Econômico, Agropecuário, Abastecimento e Meio Ambiente

VAMOS? BORA!

Em Santa Inês, o engajamento e o trabalho coletivo e coordenado das(os) servidoras(es) públicas(os) é também uma marca da gestão da Educação Integral em Tempo Integral e da Secretaria de Educação.  

 

A sistematização e a análise dos dados de matrículas e evasão escolar, seguida de práticas de busca ativa das(os) estudantes – o que, mais tarde, culminaria na criação do Núcleo de Captação de Recursos (NUCRESI) -, é também uma prática exemplar, cujo impacto, considerando a relação entre ocupação de vagas e financiamento público, foi tornar viável a ampliação da jornada escolar diária das(os) estudantes.

“Primeiro, a gente precisou avaliar os dados do município: como estava a frequência desses estudantes, como estava a questão da matrícula. (…) Então, percebemos que houve um número muito grande de matrículas, mas, mesmo assim, a evasão ainda existia no município. (…) A gente conseguiu aumentar a faixa de matrícula em 50%.”

 

Taise Queiroz Cerqueira, coordenadora do Núcleo de Captação de Recursos

Espaço do refeitório e de convivência do Colégio de Educação Integral Cacilda da Silva Neves.

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

A busca pelo desenvolvimento de ações que tenham as pessoas e o próprio território como sentido é também um traço que torna possível o desenvolvimento da Educação Integral em Tempo Integral na rede de ensino. Por exemplo, as escolas construídas buscam informar, nos nomes, nas cores e nas arquiteturas singulares, o valor que a cidade atribui à educação ao oferecer conforto, inclusive térmico, às(aos) usuárias(os) além, claro, ao educar por meio dessas escolhas.

O reconhecimento daquela população enquanto sujeitas(os) de direitos e cuidado – como responsabilidade, não como tutela – também se destaca como valor na construção da política educacional que, vale dizer, ao escolher o kit de uniformes, opta pelo tênis mais convergente aos desejos do grupo etário que povoa as salas de aula daquela rede. 

“E na Secretaria de Educação – assim como toda pessoa que faz parte das secretarias de Agricultura, Social, Cultura – a gente vê que esse não é um trabalho de uma mão. E essa é a visão de toda a equipe. O que eu faço, faço porque tenho, lá no campo, um braço que me ajuda. Porque eu tenho na gestão escolar um braço que me ajuda. Eu falo: ´Vamos?´, eles falam: ´Bora!´.” 

 

Ana Vitória Cardoso, Secretária de Educação

A GENTE ESTÁ ENFRENTANDO UM PROCESSO ESCOLAR QUE É SECULAR

No que diz respeito à construção da política “no chão da escola”, além do trabalho coletivo, uma marca que atravessa a gestão em todos os níveis, há um olhar sensível, atento e igualmente cuidadoso da gestão municipal ao trabalho das pessoas que constroem e executam a política “na ponta” e que, por isso, precisam estar implicadas no projeto de educação em curso. Por sua vez, desenvolver uma prática participativa como esta demanda ações de viabilização do trabalho, incluindo a ampliação de carga horária das(os) diretoras(es). 

É fundamental a adesão de diretoras(es) à proposta de educação que reconhece as especificidades da política educacional, assumindo, por outro lado, a escola enquanto parte estratégica de uma rede de proteção social, que não prescinde da atuação da família, mas que se responsabiliza pela educação das crianças e jovens que, diariamente, permanecem naquele espaço por sete horas. 

“A gente precisa que o diretor entenda que tem um papel político, e não político partidário. É um papel político de influenciar, de contagiar. (…) A escola é a cara do diretor. Se eu tenho um diretor que entra às 9h e sai às 13h, tenho uma escola fechada. Mas, se eu tenho um diretor que chega às 7h e sai às 17h30, que sabe o que acontece na cozinha, na limpeza, no operacional, a partir daí, a gente tem uma gestão especial.”

Ana Vitória Cardoso, Secretária de Educação

“No momento em que ela entra na escola, ela é uma criança estudante. (…) A ideia é desenvolver esse sujeito como um todo e dar condições para isso.”

Joane Mary Araújo de Queiroz, coordenadora do Núcleo de Formação

“A gente leva e busca na academia e eles tomam banho. Tudo é com a gente, nada com a família! (…) O professor já fica na escola, já tem outro professor lá, já serve para dar aula no caminho! Hoje a compreensão de todos já é positiva. (…) Eu acho que a gente está enfrentando um processo escolar que é secular. A gente está fazendo outra coisa!”

Zilma Bandeira Melhor, gestora do Instituto de Educação Maria das Graças

O sensível e a dialogicidade, obviamente não ausentes de conflitos, parecem também ser valores perseguidos nas relações construídas no interior das escolas que, por exemplo, atenta ao não constrangimento das(os) estudantes da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e cria estratégias para que se dirijam à sala do Atendimento Educacional Especializado autonomamente. Essa postura também se revela na constante busca por estratégias para que, contraintuitivamente aos dados de evasão escolar relativos a essa população, as(os) adolescentes tenham desejo de permanecer na escola com jornada escolar ampliada. 

 

O fazer coletivo e a construção “com” a comunidade escolar – não “para” ela – compõem também o cotidiano das escolas. 

“A gente usa todas as estratégias possíveis, principalmente, com as aulas culturais de teatro, de judô. (…) Busca não ficar focado só dentro da sala de aula, mas aproveitar todo o espaço da escola e sair. (…) Na semana passada, fizemos o judô lá na praça! A gente também está planejando de, em um dia na semana, fazer um momento de show de talento, um karaokê. Eles impulsionam e a gente também.” 

 

Zilma Bandeira Melhor, gestora do Instituto de Educação Maria das Graças

A importância atribuída aos muitos braços necessários para que a Educação Integral em Tempo Integral aconteça fica evidenciada no envolvimento das famílias na escolha do cardápio da escola, no uso pela comunidade dos espaços do território para o desenvolvimento de suas atividades e na forma como as(os) moradoras(es) aderem às propostas e convites das(os) educadoras(es). 

“E a comunidade se sente representada. A gente traz a comunidade para dentro da escola. Eles participam de tudo aqui: reuniões, eventos, festinhas de final de ano. Estão sempre presentes! A quadra da escola é da comunidade! A gente já tem uma parceria. Tem alguém da comunidade que fica responsável por utilizar a quadra. Nunca quebraram nada aqui.”

 

Valdivan Braga, gestor da Educação do Campo

NADA FOI FÁCIL TAMBÉM

Reconhecendo a existência de lacunas e retomando a ideia de imagem congelada, ou retrato, seja entre o grupo de educadoras(es) ou entre familiares das(os) estudantes, inicialmente, foram observadas resistências ao projeto de implementação universal da Educação Integral em Tempo Integral, no município. Os cerca de oito anos que separaram a proposta da atual dinâmica da política parecem ter contribuído para a ampla adesão da população.

“Lá em 2017, a gente reordenou a Rede. (…) Quando tem a mudança nem todos aceitam.(…) Mas, aos pouquinhos, foram compreendendo. Ainda tem algum chiadinho, mas melhorou muito.”

Carmem Barreto de Souza, coordenadora do Núcleo de Manutenção Escolar

“É importante reforçar que nada foi fácil. Essa mudança de mentalidade da comunidade foi um processo de construção. No início, a reeducação alimentar, por exemplo, foi muito difícil. O pai é resistente: ´Ah, meu filho não come isso, não come aquilo e tal´. É realmente uma cultura diferente. (…) E isso trouxe resistência no início para a família. É um processo de construção.”

Erivaldo Santana de Souza – Pery, Vice-Prefeito

Nessa caminhada, as(os) estudantes apontam os desafios e os desejos de mais ampliações no atendimento da escola, sempre, no entanto, sinalizando que há bons motivos para permanecerem ali.

As crianças e adolescentes explicitam o desejo por mais “clubes” de Arte e Ciência, aulas diferenciadas como balé, capoeira e outras atividades que incorporam a Cultura Afro-Brasileira, robótica e, o mais pleiteado, o uso da academia da cidade. Ainda destacam a necessidade de melhorias no prédio escolar, além de demandarem mais aulas fora do espaço da escola. As(os) estudantes adolescentes também valorizam a experiência vivida a partir da perspectiva da equidade.

“Nem todo mundo tem o mesmo presente. Nem todo mundo, hoje em dia, tem a mesma realidade. (…) O objetivo da Escola Integral de Tempo Integral é dar mais tempo, ensino e base para os estudantes poderem ter mais conhecimentos. (…) Isso pode ajudar na vida adulta, (…) para eles terem um bom conhecimento… porque também têm aulas de informática e robótica.”  

Sophia Cerqueira Vilarino, estudante do 6º ano do Centro Educacional Professor Manoel Reis

Da parte da escola, a avaliação ou o monitoramento do processo busca ter em vista a escuta das(os) estudantes e da comunidade escolar mais ampla.

 

Institucionalmente, o monitoramento da política é realizado, entre outros, pelo Núcleo de Avaliação. Além das avaliações externas, como o Sistema de Avaliação Baiano de Educação (SABE), e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do governo federal, o município avalia semestralmente as aprendizagens curriculares nos componentes de Proficiência Leitora, Língua Portuguesa, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas, tendo como referência a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

 

O monitoramento e a avaliação se estendem, na educação municipal, do Infantil ao Ensino Fundamental II, com múltiplas estratégias como, por exemplo, trocas com as famílias, acompanhamento de indicadores socioeconômicos e de frequência, avaliações de aprendizagem, acompanhamentos de saúde física e mental. Além de sinalizar efeitos, alcances ou impactos, os resultados têm servido para direcionar caminhos, isto é, práticas de gestão.

“Semanalmente, a gente faz essa escuta com os líderes de classe e também com a turma. (…) A gente tem um grupo [de WhatsApp] dos pais. (…) Quando são chamados, eles vêm à escola para dialogar sobre qualquer tipo de assunto.”

Zilma Bandeira Melhor, gestora do Instituto de Educação Maria das Graças

“Cada estudante é um nome, não só um número. (…) Às vezes, não é só o professor. (…) Se precisar encaminhar o estudante para (…) um setor que não é nosso, tipo psiquiatria, qualquer coisa do tipo, o psicólogo, junto com a médica, faz o encaminhamento. (…) A gente faz avaliação nesse sentido, de conhecer o estudante, de conhecer a nossa Rede.”

Ana Cristina Cavalcanti, diretora pedagógica do Núcleo Pedagógico

CONSTRUÇÃO DE FUTURO

Nos últimos anos, a cidade de Santa Inês vem traçando profundas mudanças e a Educação Integral em Tempo Integral teve centralidade. A aposta na continuidade e na expansão deste projeto de educação – e de sociedade – está assentada tanto no que já foi feito, como na construção de infraestrutura, de legislação específica e de uma gestão participativa, quanto em novas ações previstas.

Pensando sobre o futuro, a gestão, que conta hoje com mais de 20 conselhos em funcionamento, planeja ampliá-los. A proposta é a formação das(os) diferentes servidoras(es) para atendimento da população, na perspectiva do compromisso e do cuidado coletivo com a coisa pública.

Em Santa Inês, a Educação Integral em Tempo Integral se revela como um projeto de cidade, nascido do compromisso coletivo e sustentado por uma rede que compreende a educação como direito e responsabilidade compartilhada. O percurso, construído com diálogo e persistência, demonstra que o desenvolvimento educacional exige tempo, afeto e, sobretudo, escuta. Logo, a transformação alcançada não se limita às escolas: atravessa ruas, praças e lares, redesenhando modos de viver e aprender.

Espaço de referência regional pela sua contribuição à alimentação escolar e geração de renda às(aos) agricultoras(es) locais. 

Foto: Equipe de pesquisadoras(es) do Projeto Experiências Inspiradoras

REFERÊNCIAS

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: Ministério da Educação/ Consed/Undime, [2017]. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br  .Acesso em: 22 nov. 2025.

 

BRASIL. Portaria nº 2.036, de 23 de novembro de 2023. Define as diretrizes para a ampliação da jornada escolar em tempo integral na perspectiva da educação integral e estabelece ações estratégicas no âmbito do Programa Escola em Tempo Integral. Brasília: Diário Oficial República Federativa do Brasil/ Ministério da Educação/Gabinete do Ministro, [2023]. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/

portaria-n-2.036-de-23-de-novembro-de-2023-525531892 . Acesso em: 22 nov. 2025.

 

SANTA INÊS. Lei nº 664, de 18 de outubro de 2023. Institui o Programa Municipal de Educação Integral em Tempo Integral no âmbito do Município de Santa Inês, estabelece suas diretrizes e dá outras providências. Santa Inês: Diário Oficial do Município. [2023]. Disponível em: www.camarasantaines.ba.gov.br/site/

LeiMunicipal/89597. Acesso em: 22 nov. 2025.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTA INÊS:

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SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SANTA INÊS: Instagram: @educacaosantainesba

 

 

ESCOLAS CITADAS NO TEXTO:

 

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